Crditos

Copyright  2011 de Fernanda Frana

Copyright desta edio  2012 para Rai Editora


Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicao pode ser reproduzida,
 arquivada em sistema de armazenamento ou transmitida em qualquer formato ou por quaisquer meios: eletrnico, mecnico, fotocpias, gravao ou qualquer outro, sem o consentimento prvio.


Editora

Mayara Enohata


Assistente editorial

Juliana Sayo


Preparao de texto

Ana Lucia SantAna dos Santos


Reviso

Leila dos Santos


Capa

Rubia Padilha


Projeto grfico e diagramao

all4type.com.br


Assessoria editorial e de artes

Patricia Nascimento


Produo para ebook

Fbrica de Pixel


CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

F881m Frana, Fernanda, 1979-

Malas, memrias e marshmallows [recurso eletrnico] /
 Fernanda Frana ; [coordenao de Mayara Enohata]. - So Paulo :
 Rai, 2012. recurso digital


Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-8146-015-4 (recurso eletrnico)


1. Romance brasileiro. 2. Livros eletrnicos. I. Ttulo.


12-1151. CDD: 869.93

 CDU: 821.134.3(81)-3

Direito de edio:

Rai editora

Avenida Ira, 143 - conj. 61 - Moema - 04082-000 - So Paulo - SP

Tel: (11) 2384-5434 - www.raieditora.com.br

contato@raieditora.com.br



Dedicatria


















Para minha av Lourdes, por me emprestar o sobrenome Moya e por ter lido tantas histrias para mim.

Para minha me, Margareth, pelo apoio incrvel e por confiar no meu trabalho.

Para meu pai, Osvaldo, pelo exemplo de honestidade desde sempre.

E para Mauro, por acreditar cada dia mais.



Enquanto o homem planeja, Deus ri.

Ditado yiddish



Amrica sobre rodas


So Paulo, Bady Bassitt, Rio de Janeiro, Montevidu,
 Punta Ballena, Cabo Polonio, Cincinnati, Newport, Chicago,
 Roanoke Rapids, Washington, Fort Lee, Nova York,
 Mason, Indianapolis, Saint Louis, Gatlinburg, Nashville,
 Memphis, Pine Bluff, Hot Springs, Little Rock,
 Montgomery, Duluth, Sartell, Detroit, Atlanta, Orlando,
 Daytona Beach, Paraty, Picinguaba.

As decises mais difceis so aquelas que envolvem o corao. Se voc precisa sair de um emprego, pode ser apenas uma mudana necessria em sua vida. Mas se gosta do que faz, fica um pouco mais complicado. Se voc termina com o namorado, no  fcil, independentemente dos motivos, mas  ainda pior se a relao acaba quando voc est apaixonada.

Ser feliz tambm  uma escolha. Pode ser que no processo voc se perca e se pergunte se est na rota certa, mas muitas vezes voc nem escolhe a estrada:  ela que te escolhe. Minha aventura comea sem ponto de partida e perspectiva de chegada. Em sete meses, tudo mudou completamente.



So Paulo


So Paulo  a capital do estado de So Paulo e
 o municpio mais populoso do Brasil, com mais de
 11 milhes de habitantes. Se considerada tambm a
 regio metropolitana, o nmero sobe para 19 milhes.
 Foi fundada em 1554 e  uma das maiores cidades do
 mundo, conhecida pela diversidade cultural, alm da
 qualidade gastronmica.

- Voc est demitida.

Como assim, demitida? Mas  meu aniversrio, pensei. Demitida bem no dia do meu aniversrio? E no fim do expediente? Trabalhei o dia inteiro, criei pautas e fiz o obiturio para que no fim do dia um sujeito de recursos humanos me dissesse que as pautas brilhantes ficariam com outro reprter e que nem para listar os falecidos eu servia mais?

Sim, era exatamente isso. Mas ele no mencionou pautas brilhantes em nenhum momento.

O indivduo do departamento sequer sabia o que eu fazia. Era o mesmo que dizia que a alma do jornal estava no setor de vendas, no na redao. E eu no havia sado da redao nos ltimos trs anos. Nem para almoar.

Trs anos da minha vida jogados no lixo como todo jornal de ontem. E no dia do meu aniversrio.

Ao menos eu tinha uma esperana. Sabia que depois do trabalho eu teria uma surpresa. Mais exatamente uma festa surpresa, minha primeira em 22 anos. Um a mais, para completar. E como 23 sempre foi o meu nmero de sorte, no seria uma demisso que estragaria todo o resto. Por isso no chorei. Quando recebi a notcia, s pensei que poderia sair do trabalho mais cedo (eu no deveria chamar meu ex-trabalho de trabalho), aproveitar mais a festa e, depois, no dia seguinte, eu pensaria no assunto. Somente no dia seguinte.

- Tudo bem - foi s o que respondi quando soube que estava sendo desligada da empresa por algum motivo de que no me lembrava mais e que deveria ser insignificante. Era meu aniversrio! Ento sa da sala, cheguei  minha mesa, coloquei algumas tralhas dentro de uma sacola de mercado e larguei biscoitos, balas e cadernos de rascunhos. Na verdade, esqueci os meus cadernos no jornal, mas o estranho seria se no tivesse esquecido nada.

Precisei levar para casa todas as blusas que estavam acumuladas no encosto da cadeira. Joguei as roupas em um brao com a bolsa, no outro carreguei a sacola e logo comecei a cumprimentar a todos. No houve nenhum ah, Melissa, voc vai fazer tanta falta ou como seu texto era timo, suas matrias impecveis, seu caf doce demais. Nenhum comentrio. Nenhum tudo vai dar certo.

Eu vi quando Caroline fungou, mas ela era minha amiga, e em uma apurao imparcial aquilo no deveria ser contabilizado. Meu editor estava ocupado demais em alguma sala do prdio e sequer veio se despedir de mim. Todos aqueles discursos de que o ser humano era mais importante e que as matrias sociais valiam a pena tinham ido embora com a ltima descarga que ele deu naquele dia.

O dia em que eu ficava mais velha e, portanto, mais experiente. No na prtica.

O meu primeiro presente para o ex-trabalho seria gravado. Por que  possvel mesmo que um chefe ache normal despedir uma funcionria sem olhar em seus olhos e agradecer pelo tempo de trabalho juntos? D para acreditar que em pleno sculo 21 exista um empregador que pense ter escravos? Tudo bem que eu nasci no sculo 20 e isso me faz ter um pensamento horrendo de que sou uma mmia, mas o editor deveria, no mnimo, me dar a mo.


Prezado chefe, quero agradecer pelo tempo que estive aqui e por tudo o que aprendi e ensinei. Acho louvvel voc me demitir logo aps ganharmos o prmio pela matria de Turismo que escrevi, baseada em minha experincia, mas que no foi assinada. E que eu escrevi em casa, porque tinha tanto trabalho para fazer aqui que no tive tempo para escrever na redao. Assim sendo, nossa subeditora fez um brilhante papel de representante do jornal na festa de premiao do Governo. De um prmio que, todos sabemos, deveria ser meu. Mas engoli sapos verdes e gosmentos porque acreditava realmente que havia uma chance de mudar de rea e parar de escrever sobre os mortos da cidade. Sempre quis trabalhar somente com Turismo, voc bem sabe, e esta poderia ser a minha hora de executar um bom trabalho, se fosse permitido. Queria ter assinado a minha matria, o que tambm no seria nada mal. Mas como voc me demitiu no dia do meu aniversrio - e eu no serei egocntrica de achar que esse  um dia verdadeiramente importante para a empresa - e nem sequer consegui ver o trofu da premiao, acho que terei de levar pelo menos uma carta de recomendao. Como voc no est aqui, ento levo comigo todos os arquivos originais da matria que escrevi. No precisaria avisar porque os arquivos so meus, mas, veja bem, eu sou legal. E esta mensagem tambm deseja que todos tenham sucesso a partir de agora.  mentira, mas eu consigo ser educada, pelo menos, coisa que voc no consegue.


Ento, como meu ltimo presente de boas idas, coloquei a gravao em MP3 no gravador com alto-falante para toda a redao. Foi emocionante ouvir minha voz ecoando pelas baias amareladas e ver o rosto vermelho dos colegas e a boca aberta de Sara Lara, a babaca que recebeu o meu prmio. E minha voz era bonita, eu deveria trabalhar em uma rdio. Pensando bem, eu teria bastante tempo para procurar emprego em alguma.

No foi fcil descer com tudo o que acumulei durante os ltimos anos, de estagiria at contratada, de estudante a jornalista. Entreguei o crach na portaria e segui para o metr. Fim de tarde, vages lotados, fila na linha em frente  porta. Fui carregada pela multido para dentro do ltimo vago, o mesmo que eu sempre pegava como se fosse meu. Havia um canto pela manh que raramente estava cheio e era l que eu me sentava at que todos se espremessem, minutos depois, nas prximas quatro estaes. De manh, eu dormia. Na volta, eu lia. Naquele dia, eu queria gritar.

quela hora, eu me senti um palito apertado em uma caixa de fsforos lotada. Perto de litros de gasolina e prestes a explodir.

Ningum segurou minha bolsa (as pessoas raramente se preocupam com as outras), e um jovem de bon, mascando chiclete, sentava no banco reservado enquanto uma moa grvida tentava se equilibrar.

- Voc no tem vergonha de ficar sentado enquanto uma grvida est em p, moleque? - disse. O que mais eu tinha a perder naquele dia?

- Eu no estou grvida, sua louca! - respondeu a estranha.

- Eu no estou falando de voc, estou falando de mim! - devolvi, como se fosse bvio.

Era to lgico que ela pediu desculpas, o rapaz tambm se desculpou e eu sentei, esticando o corpo para frente e acariciando minha barriga. De tanto comer doce. Nunca iria admitir, at porque, se a moa fosse uma mulher bacana, teria me safado do vexame. As pessoas que nunca ajudam as outras no sabem como  difcil se sentir boba por tentar encontrar soluo para os problemas dos outros. Caso encerrado, no os veria mais. Uma graa que s cidades grandes como So Paulo podem conceder. E eu merecia um lugar sentada no metr. Pelo menos naquele dia.

Tudo precisava comear a dar certo, e eu estava ansiosa, porque sempre adorei festas surpresas. O que me espantava  que Michel havia guardado segredo, j que irmos sempre contam o que no devem na hora errada. Achava que, pelo menos daquela vez, ele no havia tido coragem de estragar tudo.

Engraado era saber que quase sempre era eu quem estragava tudo com minha mania de dizer o que penso. E o problema  que as pessoas no querem ouvir a verdade, querem uma distoro da verdade, porque ela nem sempre  amvel. Mas eu s conseguia enxergar beleza na verdade.

A caminho do apartamento, passei em uma loja de doces rabes que era quase sempre minha parada aps o trabalho. Eu sabia que uma festa me esperava, mas procurei fazer tudo como de costume, para no parecer que eu sabia da festa. Michel estava muito quieto nos dias anteriores e eu o vi conversando com Samantha. Sobre o que mais eles poderiam conversar se nem eram amigos?

Sobre a minha festa surpresa, claro!

Segurei a bandeja de isopor com quatro doces rabes, aqueles feitos com macarro, mel e nozes, no mesmo brao em que estava pendurada a sacola com meus ltimos trs anos de vida profissional. Os primeiros e ltimos anos de vida como jornalista. O que eu faria dali em diante? O que meus pais diriam quando eu contasse? Que decepo. Eu sempre havia dito que seria uma jornalista famosa, que apresentaria telejornais nacionais e que eles me veriam no sof de casa no horrio nobre, l no interior ou em qualquer outro lugar em que resolvessem morar, embora eu duvidasse de que eles se mudariam algum dia.

Mas antes de contar sobre a demisso, eu diria que Michel preparou uma festa surpresa para mim. Que lindo esses irmos se dando bem longe de ns, um diria para o outro. Depois, ento, eu contaria sobre como fui injustamente demitida, mas acho que no seria necessrio contar sobre a gravao. , no seria.

Entrei no prdio e, enquanto aguardava o elevador, tirei o espelho da bolsa e retoquei meu batom. Aquela era eu no melhor estilo, como se ainda tivesse um emprego. Melhor ainda, como se tivesse sido promovida.

Vi o elevador vindo do subsolo. PIM. A porta abriu.

O meu vizinho parecia no ter a menor inteno de me deixar entrar no elevador. L estava o rapaz, o cachorro, um globo (daqueles que professores de geografia usam) e um gigantesco vaso s de folhagem. E, se eu entrasse, deveria haver espao para uma bolsa enorme, uma bandeja de doces e a sacola com todas as quinquilharias do meu ex-trabalho. Ento todos ns entramos.

Sinceramente, no sei como nunca percebi que tinha vizinhos. Eu vivia em um mundo particular to falsamente perfeito que no precisava de vizinhos.

Mas, sinceramente de novo, como aquele vizinho passou despercebido?

Apertei o nmero do meu andar e outro j estava aceso. O rapaz morava acima de mim e eu nem sabia que ele existia! Mas ele poderia ter se mudado naquela semana ou naquele dia. E se a planta, o globo e o cachorro estivessem sendo trazidos naquele exato momento? Quem sabe ele casou e se mudou ou... No, ele no era casado, eu olhei a mo esquerda. O que no tinha a menor importncia para mim, porque, afinal, eu no tinha cabea para pensar em nada naquele momento.

Mentira.

- Que calor, no ?

Ele conversou comigo! E a primeira frase foi Que calor, no ?. Se ele disse no ,  porque deveria esperar uma resposta. Ou  ou no.

- .

E eu disse apenas . Todos os rapazes bonitos tm a capacidade de deixar uma mulher com blush natural, s que como se estivesse com excesso de maquiagem?

Enquanto eu olhava para o tamanho daquele homem - ele era realmente grande - e como seus braos eram fortes para carregar aquele vaso, notei que seu olhar era doce, e seu sorriso, simptico, um contraponto que pode ser chamado de charme. Os cabelos castanhos eram claros como seus olhos, cor de caramelo. E enquanto eu observava cada detalhe, o cachorro voou na minha sacola horrorosa e a rasgou.

Pude ver tudo em cmera lenta. Olhos cor de caramelo. Cachorro enfurecido. Mordida na sacola. Materiais do ex-trabalho no cho. O vizinho tentou segurar o bicho quando, de repente, deixou o vaso cair tambm sobre mim e esparramou terra sobre as roupas j cadas no cho do elevador.

O meu vestido branco ficou marrom.

O cachorro ainda tentou cavar no montinho e, sei l, enterrar um osso imaginrio ou buscar uma posio para fazer coc. O vizinho deu uma bronca, a porta abriu, os dois saram (a planta saiu tambm, carregada e quase morta, mas o globo foi esquecido) e eu fiquei sozinha e suja no elevador. O rapaz, ento, colocou uma perna para a porta no fechar e me ajudou a recolher tudo o que estava no cho.

Eu acho que estava esttica.

- Desculpa.

E parecia que nada mais precisava ser dito. Ele pediu desculpas, ramos vizinhos civilizados e poderamos dizer boa tarde e fechar a porta. A no ser pelo simples fato de que eu morava naquele andar e ele morava em cima.

- O Funk no est acostumado a morar em apartamentos, mas ele gosta de pessoas. - Ento supus que Funk era o cachorro.

- Tudo bem. Eu gosto de animais. Tenho uma gata.

E, mais uma vez, parecia a hora de a porta se fechar. Aqueles pequenos segundos em que ningum fala, ningum se mexe, a respirao parece alta demais e a conversa acaba. Fim.

- Funk  um nome diferente para cachorro - eu disse, sem pensar.

-  por causa do funk, sabe... a msica. Ele j tinha esse nome quando eu o adotei do abrigo. Sou do Rio de Janeiro.

Mas no era preciso dizer. Eu sabia. Aquele sotaque era caracterstico. E eu adorava. S havia um sotaque de que eu gostava mais no mundo - dos nordestinos. Sonhava secretamente com o dia em que eu me mudaria para a Bahia. Meus filhos nasceriam l, chamariam a mim de mainha e ao pai de painho. Ou poderamos morar em Pernambuco, quem sabe no Rio Grande do Norte. Sol e aquele sotaque de quem fala ptisco em vez de ptisco. As letras eram abertas, as pessoas gentis e meus filhos diriam Mainha, me traga um ptisco?. Tambm pensei no sotaque do Sul, com tu e guria. Meu marido me chamaria de guriazinha, e eu escutaria sempre aquele falar de cantiga.

Mas eu no queria ter filhos naquele momento, nem poderia me mudar. Tambm no pensava em ter um marido.

E ento percebi que o vizinho estava quieto. Eu estava quieta.

- Acho que esse  o meu andar - eu disse.

-  verdade! - Ele riu. E ento trocamos de lugar. Ele entrou no elevador antes que eu sasse, o que foi intrigante, porque ficamos novamente juntos, quando o elevador comeou a subir.

- Acho que agora estamos no meu andar.

- E o Funk parece estar latindo l embaixo. Acho que ele no gostou de ser abandonado.

Demos risada. Eu ri pela primeira vez naquele dia horrvel e com um cara que eu acabava de conhecer.

- Eu deso com voc para buscar o pulguento.

Quando chegamos l, Funk latia do lado de fora da porta do meu apartamento, enquanto um miado vinha de dentro. Lady Gaga parecia no gostar de ces.

- Se voc quiser, posso ajudar a carregar suas coisas... - mas eu o interrompi. No poderia entrar em casa com aquele vizinho na minha festa surpresa. No pegaria bem. Imaginei a cena de eu entrando, com tudo escuro, todas as pessoas escondidas e quietas, e quando algum acendesse as luzes, l estaria eu e o vizinho carregando a minha bolsa. Se o vizinho fosse um senhorzinho fofo, tudo bem. Mas no era. E ento todos estariam no Parabns pra voc, mas ficariam extremamente constrangidos com a situao e parariam de cantar. E eu diria pessoal, esse  meu vizinho, acabamos de nos conhecer.

- No precisa. Eu mesma carrego, pode deixar.

Acho que fui um pouco grosseira. Acho.

- Tudo bem. Foi um prazer te conhecer - disse ele.

- Obrigada.

Obrigada? Algum diz obrigada quando outra pessoa diz que foi um prazer te conhecer? Voc deve dizer o prazer foi meu, e eu queria mesmo dizer que o prazer tinha sido meu.

O vizinho, Funk e a planta sumiram com o globo quando a porta do elevador se fechou, e ento respirei fundo. Abriria a porta e tudo de ruim que havia acontecido no meu dia desapareceria. S haveria alegria. Era meu aniversrio, um dia feliz, teria uma comemorao com meus amigos e no dia seguinte pensaria em um novo emprego.

O meu dia realmente no havia terminado. S que eu ainda no tinha descoberto que surpresas podem ser ainda mais constrangedoras que uma demisso no dia do seu aniversrio.



Bady Bassitt


No incio, o povoado, fundado em 1914, se chamava
 Borboleta. O simptico inseto ainda pode ser visto na
 bandeira da cidade. A vila de Borboleta foi elevada a
 patrimnio do distrito de So Jos do Rio Preto em
 dezembro de 1926. O municpio nasceu em 1959 e
 mudou de nome em 1963. Possui cerca de 13 mil
 habitantes, em uma rea de 109 km.

Parabns pra voc, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida.

 pique,  pique,  pique.  hora,  hora,  hora. R tim bum. Melissa. Melissa.

Quando acendi as luzes da sala, l estavam meus amigos e meu irmo, com chapeuzinhos da Turma da Mnica e segurando bexigas. O som no foi alto como eu imaginava, porque a populao no era numerosa. Mais precisamente seis pessoas. Meia dzia. Menos que a quantidade de ovos em uma caixa.

Fiquei feliz por v-los ali. Sabia que qualidade era muito melhor que quantidade, mas o que posso fazer se fiquei um pouco decepcionada? Na minha primeira festa surpresa de aniversrio, apenas seis pessoas compareceram?

Tudo bem, estou exagerando. Eram cinco, se eu no contasse meu irmo.

Mas sete, se eu me inclusse na conta.

Oito com a Lady.

Assoprei as velinhas, uma por uma das vinte e trs, e passei o dedo indicador na cobertura. Estava uma delcia. Pensando bem, no era to mal assim estarmos em poucas pessoas. Pelo menos ningum teve a brilhante ideia de cantar:

Com quem ser, com quem ser que a Melissa vai casar? Vai depender, vai depender se o (acrescente aqui o nome que mais deixar a aniversariante constrangida) vai querer.

Meus amigos me abraaram, cortei o bolo e fiz um pedido. Desejei que no dia seguinte minha vida estivesse melhor. Que eu acordasse e nada tivesse mudado. Que no houvesse demisso e que tudo pudesse voltar a ser como era no dia anterior. Percebi, ento, que tinha medo da mudana. O que me assustava era no saber o que viria em seguida. Eu me sentia mais segura com meus planos.

A mudana atrai, empolga e fascina, ao mesmo tempo que o medo a acompanha at que algo acontea.

E o que aconteceria depois na minha vida? Eu procuraria emprego em outro jornal? Poderia trabalhar em uma rdio? Quem sabe em um site? Sempre gostei de internet. Mas como me receberiam? E as minhas contas para pagar? Teria de depender do meu irmo para me ajudar a cobrir despesas como os livros que havia acabado de comprar com o carto de crdito para pagar no ms seguinte? Ser que eu teria pelo menos dinheiro para comprar comida para a gata? Poderiam me interditar, levar a Lady embora por maus tratos? Existe isso?

Dei o primeiro pedao de bolo para Michel. Acho que ele fez um bom trabalho em conseguir esconder a festa de mim. O problema  que eu o conhecia muito bem para saber o que estava bolando. No disse que sabia da festa, e ele pareceu to feliz quando eu disse: Oh, que surpresa, eu no esperava vocs aqui que papai e mame precisavam ver. Meu irmo estava to bonito. Quando ramos trs, ainda assim, eu sempre o achei o mais bonito dos irmos.

Samantha estava l e cortou o bolo para que eu pudesse servir aos... bem, aos outros trs convidados: Lauro, um amigo de Michel, e Caroline e Brbara, que trabalhavam comigo. Carol chegou a se despedir de mim oficialmente, mas Babi estava em uma entrevista fora da redao e eu no a esperei para ir embora. Naquele momento, ningum pareceu disposto a comentar sobre a demisso. Comemos bolo com guaran enquanto surgia uma conversa animada sobre como organizar uma festa surpresa por e-mail.

Eu no tinha muitos amigos na cidade e no poderia esperar que meus amigos de Bady Bassitt fossem at So Paulo.

Quando eu e Samantha samos de l foi bom, mas doloroso ao mesmo tempo. Eu queria muito estudar na capital. No servia apenas uma grande cidade prxima, tinha de ser So Paulo. Meus pais tentaram me convencer a fazer faculdade em So Jos do Rio Preto, mas eu sonhava com o dia em que estaria em Sampa.

Eu e Sam somos amigas de infncia; no me lembro de nenhuma passagem da minha vida sem a existncia dela. Combinamos durante toda a adolescncia que, quando chegasse a hora do vestibular, estudaramos feito loucas e nos mudaramos para a capital. Eu queria estudar jornalismo. Ela queria artes cnicas.

Quando chegou a hora, meu irmo tambm nos acompanhou para fazer o ltimo ano do ensino mdio e o cursinho pr-vestibular. Moramos juntos por pouco tempo, em uma repblica com outras quatro pessoas. Michel e eu decidimos montar um pequeno apartamento na mesma poca em que Samantha foi morar com o namorado, que sumiu meses depois.

E tudo havia acontecido h cinco anos.

- Ei, vamos fazer um brinde  Mel, que tal? - props Michel.

-  felicidade da nossa amiga! - falou Carol, enquanto levantava o copo.

- Viva a Melissa! - emendou Samantha, com o coro de todos e uma sequncia de vivas empolgados.

DIM DOM.

Mais um convidado para a festa, pensei. No estava totalmente errada, mas jamais imaginaria quem entraria segundos depois. Qualquer pessoa poderia ir ao meu apartamento naquele dia. Meu pai, minha me, algum amigo do interior, colegas de trabalho e at mesmo o vizinho carioca. Tenho certeza de que minhas amigas aprovariam o convidado, mas no era ele.

Quem entrou no meu apartamento foi o meu ex-chefe. E entrou com um buqu de rosas vermelhas.

O qu? Era um sonho? Ou um pesadelo, talvez?

No, ele no era feio. Cristiano era um homem jovem e bastante elegante, mas eu jamais o vira daquele jeito, como homem. Ele era meu chefe, assexuado. E um chefe desprezvel, o que tornava a situao mais embaraosa ainda.

Ficamos todos parados por alguns segundos, olhando para a cara de Cristiano esperando uma resposta, como se cada um perguntasse mentalmente que raios voc est fazendo aqui?. Meu irmo, que s tinha visto meu ex-chefe em uma festa da empresa de fim de ano, pensou que ele estava atrs de uma das meninas do trabalho - ele me disse depois. Mas no era. Ele procurava por mim.

- Posso entrar? - perguntou ele.

- Voc j est aqui dentro - respondi sem emoo na voz. Era apenas uma constatao.

- Perdi o parabns?

- Voc no foi convidado para o parabns, chefe - respondi. Mas fui bastante delicada. O que eu poderia dizer?  uma pena que voc no chegou a tempo, mas eu entendo, voc provavelmente estava organizando os papis da minha demisso, que tal? Ou poderia perguntar por que ele mesmo no me demitiu. Que mal havia em um chefe demitir a funcionria? Ele sabia que estava errado.

E eu ainda queria matar Sara Lara.

No matar, matar de verdade, de morte mesmo. Apenas enfiar sua cabea na privada.

- Sente-se, por favor.

No fui eu quem disse. Foi Michel, o anfitrio-modelo. Ento Cristiano se sentou. Todos estavam em p, mas ele se sentou. Pattico.

- Voc quer bolo, chefe? - perguntou Brbara. E ele aceitou.

Era uma cena de cinema mudo dali em diante. O ex-chefe acenou com a cabea, mostrando que queria um pedao de bolo, e em seguida deu um sorrisinho, que significava obrigado. Brbara cortou o bolo, entregou e esqueceu o garfinho. Ele apontou para dizer que no havia garfo, deu outro sorriso, o que mostrou que tinha dentes retos e perfeitos, e levantou-se para buscar o que faltava. Caroline apontou a mesa e ele pegou um copo de guaran tambm. Estava to bem-vestido, com uma camisa social com as mangas dobradas e uma cala sob medida. Tinha uma bunda perfeita.

Ora, ele no era mais meu chefe, eu podia olhar para sua bunda.

Charles Chaplin teria se orgulhado da nossa interpretao. Ningum dizia nada.

- Chefe, voc recebeu o meu presente? - quebrei o gelo com ironia.

- Recebi, Melissa. E voc tem razo em tudo o que me disse naquela gravao. Mas no  por isso que eu vim aqui. Quer dizer, eu vim tambm por isso, mas viria de qualquer jeito, entende? Eu viria para te ver,  seu aniversrio, sabe...

- Sei.

O que ele queria, que eu o agradecesse por se lembrar do meu aniversrio?

- Eu queria explicar pessoalmente o que aconteceu - comentou com a voz baixa. Parecia sincero. Eu at poderia acreditar se no conhecesse Sara Lara. Quer dizer, justamente por conhec-la  que eu poderia colocar a culpa toda nela.

Mas que droga, eu estava comeando a defender aquele sujeito? No, de jeito nenhum.

- Voc me demitiu sem motivo. Foi injusto, foi traioeiro. Sabia da minha dedicao, acompanhou a matria que levou o prmio e ainda assim deixou aquela bruxa ir em meu lugar. Voc nem sequer teve coragem de me demitir pessoalmente! Voc se escondeu! Que tipo de chefe  voc, Cristiano? Quer dizer, nem precisa dizer, porque voc no  mais meu chefe e eu no tenho o menor interesse em saber.

- Melissa, so para voc - ele me estendeu as flores que havia deixado no sof quando se levantou para pegar o garfo e o copo de refrigerante. Qual ttica era aquela, de entregar rosas vermelhas logo depois de receber verdades ofensivas?

- Obrigada, mas voc no ouviu nada do que eu disse? - peguei as rosas e entreguei para Samantha.

- Eu quero explicar tudo, cada detalhe.

- No sei se eu quero saber, de verdade. Hoje  meu aniversrio, e eu gostaria de passar com os meus amigos. Tentar esquecer o dia de merda que voc me proporcionou.

Ops, se mame me visse falar palavro. E ainda na frente de meu ex-chefe, que vergonha.

Merda. Merda. Merda.

- Eu acho que  melhor voc ir embora, Cristiano - emendei, antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa.

Foi quando o telefone de casa tocou. Bem naquela hora, e s poderia ser a minha me. Michel atendeu e me entregou o telefone sem fio que estava com a antena comida. Dentes afiados de gato.

- Pai? Oi, pai! Obrigada! , estou ficando mais velha... Tudo bem, pai, logo vamos nos ver... Tambm estou com saudade! E pode, pode passar o telefone... Oi, me... Obrigada... Obrigada, me... Uns amigos esto aqui... Michel fez uma festa surpresa pra mim... Quem? Ah, eu, o Michel, um amigo dele e acho que a senhora conhece,  o Lauro, a Samantha e duas amigas do trabalho, Caroline e Brbara... No... Do trabalho? Meu chefe, me... , ele tambm est aqui... No, no vou passar o telefone... Tchau, me.

As mes tm o poder mgico de deixar os filhos constrangidos.  como quando contam segredos inconfessveis ao seu namorado ou ficante quando ele comea a frequentar sua casa. Ela andava peladinha quando tinha trs anos l na pracinha ou Voc j viu uma foto dela com aparelho nos dentes?, e ainda mostra a foto para o pretendente. A mesma foto que voc jurava que tinha picado ou queimado. Me sempre tem negativo de foto (negativo mesmo, coisa de foto velha) para fazer cpias novas. E a minha me, a quilmetros de distncia, tinha a mesma influncia sobre mim.

Ela queria falar com o meu chefe. Isso porque ela no sabia que era ex-chefe. E, nesse meio-tempo, parece que Cristiano havia se esquecido que eu tinha dito para ele ir embora. Porque ainda estava no meu apartamento, sentado e comendo bolo.

- Melissa, eu realmente quero falar com voc.

- E eu no quero falar com voc.

- Eu tenho uma explicao para tudo.

- Ento comece, porque eu no quero perder o resto do meu dia com isso - falei de maneira que parecia que eu no estava nem um pouco interessada em nada do que ele falaria. Meu orgulho no queria saber, mas minha curiosidade estava atiadssima, pulando, coando, em chamas por descobrir o que, de fato, aconteceu naquele dia. Ele poderia me contar que estava apaixonado por Sara Lara, por isso fez tudo aquilo, o que daria uma explicao emocional s babaquices de Cristiano, j que no havia nenhuma explicao lgica.

 isso, eu tinha descoberto. Cristiano estava apaixonado por Sara Lara.

- Melissa, eu estou apaixonado por voc.

O qu?

No era possvel. O meu ex-chefe disse que estava apaixonado por mim? No fazia o menor sentido. Ele me demitiu naquele dia! Ele nem teve coragem de me demitir e mandou outra pessoa fazer isso. Foi injusto comigo e com o meu trabalho.

- Eu no tive coragem de te demitir porque estou apaixonado por voc, por isso pedi que outra pessoa fizesse isso - ele comeou a falar, como se tivesse lido meu pensamento. - No foi uma deciso minha, mas da empresa. Sou apenas editor l, voc sabe. Fui injusto com voc e seu trabalho porque sabia da sua competncia e pretendia coloc-la na editoria que voc tanto queria. Sara Lara ia para Turismo, era a deciso da chefe de redao, a Janice. Elas so amigas e... bem, no quero dizer que seria por causa disso, mas... ela ocuparia a vaga. Ento fiz um acordo para que ela continuasse cobrindo Esportes e voc iria para Turismo, mas a chefe de redao exigiu que Sara Lara fosse a representante do jornal na entrega do prmio. De fato, nunca dissemos que foi ela quem fez a matria. Ela apenas recebeu o prmio. Tudo bem, no  certo, mas foi assim que aconteceu, at que fui pego de surpresa quando a Janice me contou que eu teria de te demitir. Voc tem ideia de como eu me senti?

- No pior do que eu.

- Melissa, por favor, acredite em mim. Esse tempo todo eu s procurei o melhor para voc.

- No encontrou, no ?

- No consegui, me desculpe. Mas precisava vir aqui e tentar me redimir. Haver um congresso de comunicao para a Amrica Latina em uma semana e eu gostaria que viesse comigo. No preciso levar ningum do jornal, o convite foi pessoal, e eu comprei sua passagem, mesmo sem saber se iria comigo. Aqui est - e me entregou um envelope. - Pense, por favor. Ser uma chance de conhecer pessoas da rea, de se atualizar, quem sabe conseguir alguns trabalhos freelancers e ainda, de quebra, podemos passear no Uruguai. O congresso acontecer em Montevidu.

Eu no disse nada, mas tambm no devolvi o envelope.

- Eu no deveria pensar, mas tambm no quero dizer no - expliquei.

Eu queria tanto, mas tanto ir para o congresso, conhecer gente nova, aprender, visitar o Uruguai, estar em contato com pessoas da rea. Mas no tinha a menor inteno de viajar com Cristiano, e isso me deixava mal. Seria como aceitar doce com pimenta. Sabendo que o doce tem pimenta. E, mesmo assim, aceitar o doce porque parece to bonito e gostoso, mesmo sabendo que, na verdade,  pimenta e pode ser ruim. Viajar com Cristiano tinha uma recompensa to boa que eu cogitava a hiptese, mesmo sem admitir.

- Eu te ligo na prxima semana, est bem? Vou deixar voc com seus amigos. Mas, Melissa, no se esquea do que eu falei primeiro. Fiz tudo o que fiz, mesmo as coisas erradas, porque gosto de voc - e naquela hora parecia certo dizer Oh, querido, eu tambm, mas no era verdade. Eu queria lanar o bolo na cara dele e chamar Sara Lara e Janice para limpar a sujeira. Mas tudo o que eu fiz foi abrir a porta para ele ir embora e dar um sorriso sem mostrar os dentes.

Quando ele se virou para entrar no elevador, eu vi novamente a sua bunda. No que fosse um motivo relevante para aceitar viajar com um homem, mas era tentador apert-la, com todo o respeito, porque eu no saio por a apertando bundas aleatoriamente.

Sei que foi estranho descobrir que meu ex-chefe gostava de mim naquela noite, no meu aniversrio, quando ele me demitiu - mas, bem, no foi exatamente ele quem me demitiu. Parecia que a histria tinha uma cara diferente. Como no teria? Ele acabava de me confessar que estava apaixonado por mim! E era bom, eu devo dizer a verdade, era bom saber aquilo. Era uma sensao reconfortante descobrir que algum gosta de voc quando sua vida est um caos. Mesmo que seja o homem que foi seu chefe, agiu sem tica e fez um bocado de coisas erradas. Mas era um homem de 27 anos, com braos torneados e uma bunda incrivelmente linda. Nem tudo parecia perdido.



Rio de Janeiro


Rio de Janeiro  a capital do estado de mesmo
 nome. Tambm j foi capital do Brasil, at a construo
 de Braslia, na dcada de 1960. Possui uma beleza
 incontestvel e pontos tursticos famosos, como o Po
 de Acar, o estdio do Maracan e o Cristo Redentor. O
 Carnaval carioca  famoso em todo o mundo.

Declarao de amor de ex-chefe no  exatamente o sonho romntico de toda mulher. E Cristiano ainda morava no lado obscuro do meu crebro, em que s estavam a professora de educao fsica do primrio, a menina que ficou com o Julinho (o meu primeiro amor da infncia) e o cretino do Lucas, o colega de faculdade por quem eu (acho que) fui apaixonada. Ou seja, ele morava no submundo do meu eu.

Mesmo assim, achei interessante conhecer os sentimentos dele por mim. Apenas interessante.

Caroline e Brbara deram pulos de empolgao quando Cristiano saiu do apartamento. Certamente aquela seria a notcia da semana no jornal. Elas me incentivaram, disseram que sempre havia uma chance para o amor (nome de novela brega), mas Samantha estava desconfiada. No que Cristiano fosse um homem de se jogar fora, no mesmo, mas a situao a deixou com a pulga atrs dos brincos. E eu concordava com Sam. Os meninos no pareciam nem um pouco interessados na histria da declarao de amor e continuaram comendo bolo como se nenhum outro homem tivesse participado da festa.

Todos foram embora, inclusive Michel, que resolveu sair para uma balada com seu amigo. Ficamos eu e Lady Gaga.

Agora, que tipo de amigo participa de uma festa surpresa em seu aniversrio no seu apartamento e vai embora sem recolher um nico copo plstico?

Amigo da ona, claro.

Sa  caa de restos mortais de bolo no sof e copos que repousavam tranquilamente no tapete. Havia brigadeiro, como me esqueci de mencionar, brigadeiro! A criao mais perfeita da humanidade e o amigo mais fiel de uma mulher, o brigadeiro. Infelizmente, quando ele est grudado no seu sapato, no  to bom assim.

Juntei o lixo, arrumei a mesa, comi mais um pedao de bolo - na verdade, eu comi mais dois pedaos de bolo, e grandes - e tomei um banho. Coloquei um pijama de malha vermelho com pequenas flores, enrolei o cabelo molhado na toalha e cuidei da pele com uma mscara que ganhei da Sam naquele dia. Aniversrio, um ano a mais e ela se achou no direito de me presentear com uma mscara anti-idade. E eu queria conferir se faria efeito em uma semana, caso eu resolvesse viajar com Cristiano.

O creme era cor de abbora.E eu adoro abbora, mas no no rosto. Parecia uma fantasia de Dia das Bruxas.

Apesar da vontade de rir, eu me controlei, porque Sam me disse que era necessrio ficar imvel, parada, esttua completa, ou eu poderia reforar as rugas j existentes. Sinceramente, de que rugas ela havia falado? Eu no tinha ruga nenhuma, s linhas de expresso. Suaves e delicadas linhas que mostravam a minha experincia de 23 anos de vida. Rugas eu terei com, no mnimo, 50 anos a mais.

Agora era apenas aguardar o efeito da mscara e tirar tudo. Se eu no tivesse tanto para arrumar, poderia aguardar na cama, mas no. Havia o lixo. E, para completar, Lady resolveu realizar uma de suas obras fedorentas na caixa de areia e tive de tirar as pedrinhas e limpar tudo. O mau cheiro tomava conta do apartamento.

Por que gatos fazem xixi e coc? Parecem bibels, ficam quietos, miam ocasionalmente, so amigos e companheiros, inteligentes e limpos, tomam banho (o prprio banho de lngua, mas tambm se acostumam com gua) e so lindos. S que no h nada comparado ao odor do xixi de um gato.  a poderosa essncia de amnia. A sensao  que ela pode arrancar um nariz ou acabar com a capacidade de sentir cheiros bons no mundo. Mas basta ter calma, prender a respirao e jogar as pedrinhas no saco de lixo. Porque o criador dos gatos foi inteligente - eles nascem sabendo usar a caixa de areia.

Juntei os dois sacos de lixo com as artes de Lady e de meus amigos e abri a porta para lev-los. Eu sabia que estava de pijama e com mscara no rosto, mas quem sairia s duas horas da madrugada para levar o lixo? Eu. Mais ningum.

Grande engano. Eu deveria imaginar que tudo o que acontece na minha vida  inversamente proporcional ao que eu acredito que vai acontecer na minha vida.

Eu poderia estar com uma linda roupa, de vestido e salto alto, com o cabelo feito e de maquiagem, mas no, estava de pijama e com mscara no rosto. Eu sabia que a culpa era s minha, mas ele no deveria estar ali. Se ele no estivesse, no haveria o menor problema em jogar o lixo quela hora da madrugada. Ou se ele fosse o vizinho velhinho com bengala, quem sabe com culos grossos e que no me enxergasse bem, a sim tambm no faria diferena.

- Oi, vizinha! - disse ele, com um sorriso simptico. O pior  que ele me reconheceu. Havia uma esperana, segundos antes, de que ele no me reconhecesse. E eu ainda podia dizer que no era eu, mas minha irm gmea. Mas histria de irm gmea  to batida que s d certo em novela das seis.

- Oi, vizinho - respondi. E no percebi que de repente estava falando sem parar. -  a segunda vez que nos vemos e a segunda vez que voc me encontra em uma situao embaraosa. Mas eu te garanto que sou uma pessoa bacana. No estou sempre com mscara na cara e nem sempre fico com o vestido sujo de terra. Mas a histria da terra j  culpa sua, ento no vou me desculpar - disse, tudo de uma vez, porque  s assim que eu tenho coragem. Depois ela some, s vezes desejo nunca ter dito algumas palavras, mas j me acostumei com a ideia de que dizer o que penso  melhor do que fingir que no quero dizer.

Ele deu risada.

Ele riu de mim na minha cara!

- Voc  divertida. E fica mais fcil conversar assim, porque como  que eu ia fingir que no vi essa coisa laranja no seu rosto?

Tudo bem, ele no riu de mim. Ele riu para mim.  diferente e bem mais simptico.

-  uma mscara, e eu nem deveria estar falando com ela. Posso reforar as minhas rugas - e levei a mo  testa, como se quisesse confirmar que havia uma enorme ruga ali, e o que consegui foi um dedo alaranjado. - Eu no sei se tenho rugas, mas se eu tiver...

- Voc no tem rugas! - ele disse enfaticamente e com um sorriso delicioso. - Voc  muito nova para ter rugas.

- Um ano mais velha que ontem.

- Um dia mais velha que ontem - o vizinho corrigiu com aquele lindo sotaque carioca.

- Mas eu me sinto um ano mais velha, acredite em mim - disse, lembrando de tudo o que havia acontecido em 24 horas. A minha demisso, a festa surpresa e a notcia de que o meu ex-chefe gostava de mim. Ainda no tinha contado para os meus pais que estava sem emprego e que me sentia muito sozinha naquela cidade imensa. Parecia que tudo estava errado, e se eu pudesse escolher, acho que sumiria da minha prpria vida. Eu queria viajar pelo mundo.

S que o vizinho interrompeu o meu pensamento quando eu estava em Veneza.

- Olha, eu no sei o que aconteceu, mas voc no parece muito bem. E no tem nada a ver com essa mscara horrvel,  porque voc parece triste mesmo. Deixe-me ver... (e nessa hora ele passou o dedo na minha mscara e colocou na frente do nariz). Nossa, o cheiro  bom. Ento de onde vem...

- O cheiro ruim? Do lixo, n.

Demos risada juntos. Estvamos os dois parados na frente da lixeira - aquelas de prdios antigos que nem so mais construdas e que acumulam aquele lquido fedorento de todos os lixos do prdio. Naquele prdio, a lixeira ficava a cada dois andares, o que explicava o motivo de o meu vizinho estar ali. Pior que aquilo s o escorregador de lixo, que eu me lembro que existia no prdio de uma amiga da minha me que morava em Ribeiro Preto. Jogvamos os sacos do ltimo andar e o lixo saa escorregando at l embaixo. No-jen-to.

- Voc no pode rir com essa mscara, lembra? - disse ele, enquanto colocava o seu e os meus sacos de lixo na lixeira velha. - Vamos subir e tirar isso da sua cara, at porque no acredito mesmo que voc tenha rugas - ele completou.

Vamos? Como assim, vamos? Eu precisava ir urgentemente para o meu apartamento. E no fui. Ao contrrio, subimos juntos as escadas.

Melissa Moya, tome vergonha na cara, pensei. E desa agora. Agora.

Eu no me escuto mesmo. Sou surda para mim mesma, um bloqueio interessante e que me permite dizer o que penso e fazer o que quero, mesmo que eu diga que no quero. O vizinho abriu a porta, disse entre, fique  vontade e a fechou. E eu entrei. To simples. Entrei na casa de um cara que eu nem sabia quem era. E se ele fosse um louco psicopata assassino picador de mulheres?

- Olha, vizinho, eu nem sei o seu nome. E voc pode ser um louco, sei l, um procurado pela polcia.

- Voc tambm. Eu no sei quem voc .

Tudo bem, ele tinha razo. Mas eu estava no apartamento dele.

- Eu estou no seu apartamento, de modo que, se voc tiver uma arma escondida, eu no saberei. No posso te atacar, s tenho a chave - e j tinha pensado em como poderia feri-lo com a chave, caso ele viesse para cima de mim. Talvez enfiar a chave no olho me daria tempo para fugir, se ele no tivesse trancado a porta e escondido a chave dele.

Ele riu de novo. Eu ri tambm. Puxa vida, o sorriso dele era to lindo. Ele era inteiramente lindo. Mas o pior: ele era legal tambm. Um homem lindo e legal s pode ser gay.

- Minha namorada j usou uma mscara dessas uma vez, mas eu acho, sinceramente, que vocs no precisam disso. - Ento ele no era gay. Ele tinha uma namorada. Mas que raios, por que eu estava to preocupada? - Ela est nos Estados Unidos agora - disse ele.

- Eu j sei que voc tem uma namorada, que ela mora fora do pas, que voc tem um cachorro chamado Funk, mas no sei o seu nome e nem o que voc faz na vida. Tudo bem, estamos quites. Ento eu comeo - disse. E respirei fundo para continuar. - Meu nome  Melissa Marini Moya, sou jornalista, estou desempregada, fui demitida hoje, quer dizer, ontem, porque j passou da meia-noite, fiz aniversrio no mesmo dia, tenho 23 anos agora, uma gata preta linda chamada Lady Gaga, um irmo chamado Michel, pais bacanas que moram l em Bady Bassitt, a cidade onde nasci, meu ex-chefe quer que eu v viajar com ele para um congresso no Uruguai e eu estou perdida como nunca estive na minha vida.

- Bom comeo. Acho que podemos ser amigos agora - disse o vizinho, enquanto saa da sala. Voltou com uma caixa de leno de papel. - Acho que isso pode te ajudar a tirar essa coisa laranja. No me sinto  vontade conversando com um caqui.

Ele era to gentil. S o meu pai era gentil assim com minha me. Mas eu no queria um homem gentil na minha vida. A minha me casou cedo demais, nunca saiu de Bady, no conhece nada, e eu no queria isso para a minha vida. Eu queria conhecer o mundo, e se, para isso, precisasse ficar sozinha para sempre, ficaria. Bom, no para sempre, mas naquele momento talvez.

- Eu sou Theodoro Brasil, trabalho em uma agncia de notcias que desenvolve material para jornais e revistas e sou fotgrafo. Tenho um cachorro chamado Funk, nasci no Rio de Janeiro h 25 anos e meus pais ainda moram l. Meu pai  um pouco fechado, mas a minha me  uma das minhas melhores amigas. Minha namorada Viviane  de l, ns viemos juntos para Sampa, ela procurou vrias agncias de modelos, ainda faz alguns trabalhos, mas hoje viaja muito como correspondente da agncia de notcias em que trabalhamos, j que ela  formada em jornalismo.  uma pessoa em quem confio muito, namoramos desde a adolescncia. Acabei pegando gosto pelas viagens e monto roteiros para as pessoas, viajo junto, s vezes fao fotos para revistas e agncias. Gosto de ser fotgrafo. Pronto, agora voc me conhece.

Eu j havia tirado quase toda a mscara do rosto e acumulado os papeis sujos sobre a mesa de centro da sala. O apartamento era limpo, arrumado, com quadros na parede e sofs vermelhos. Enquanto eu observava Funk deitado em uma cadeira, o vizinho, que agora tinha nome, foi at a cozinha e gritou de l: Espere s um pouco que eu j volto, e logo depois estava na minha frente com um espeto de madeira na mo.

-  marshmallow, experimente. Coloquei no fogo, fica uma delcia.

Peguei, coloquei na boca um pedao e em pouco tempo me senti uma criana lambuzada. Pedi outro, ele trouxe e ficou me observando comer.

- Eu queria ter uma fogueira no meio da sala para preparar marshmallows. Acho que  como um remdio para ficar feliz. Voc, por exemplo, parece melhor.

- Mas eu no estava triste - disse, meio irritada. - T bem, estava triste, sim. Mas como  que voc sabia?

- Imaginei que iria tirar uma foto sua e percebi que, se fosse fotografada, estaria com a aparncia de quem acabou de perder o emprego.

- Mas eu perdi mesmo! - sa em minha defesa. Em seguida, dei risada, porque entendi o exemplo. Eu deveria estar, de fato, horrorosa.

- Uma mulher to bonita e simptica como voc no deveria nunca se preocupar. - Ele no parecia me achar to horrorosa assim. - Voc pode fazer o que quiser da vida. O que quer fazer? - perguntou.

O que eu queria fazer? Era to pessoal, to simples e ao mesmo tempo to complicado. Naquele momento, eu s queria comer marshmallows, um em cima do outro, um prdio inteiro deles. Aquilo era to bom quanto brigadeiro. E foi exatamente isso o que eu respondi. Theodoro disse que eu precisaria responder o que queria fazer da minha vida, que era um jogo. E comeou contando que, se pudesse escolher, s fotografaria comida. Perguntei se eu poderia dizer o pensamento mais absurdo que viesse  mente, e ele disse que queria saber.

Olhei o globo no canto da sala e respondi.

- Eu queria viajar pelo mundo.

- Isso no  absurdo.  to bacana!

- s vezes sinto que  como sonhar um sonho impossvel.

- Isso me lembra uma letra de msica - e comeou a cantar To dream the impossible dream. To fight the unbeatable foe. To bear with unbearable sorrow. To run where the brave dare not go. -  do filme Man of La Mancha, com Peter OToole e Sophia Loren, de 1972. Minha me adora esse filme, e eu decorei a msica.  a minha preferida - Tho me contou. - E sempre que penso em sonhos impossveis, eu me lembro da msica. Sonhar o sonho impossvel. Combater o inimigo imbatvel. Suportar uma dor insuportvel. Ir aonde os corajosos no se atrevem a ir.

- Eu conheo essa msica com o Elvis Presley! Meus pais sempre escutavam em casa, e eu cresci ouvindo os discos de vinil do Elvis. Nunca imaginei que algum gostasse dessa msica como eu.

- Ento est na hora de colocar em prtica seus sonhos e lutar por eles. Para conhecer o mundo, precisa comear por algum lugar. Por que no viaja com o seu ex-chefe, que voc disse que quer ir para o Uruguai em um congresso? - sugeriu ele, mas no sabia de nada. Ele no sabia que o Cristiano era um doido que tinha se declarado para mim. Ento eu resolvi contar.

- Voc no tem namorado, no ? Que mal h em viajar com ele? Imagine que  s um ex-colega de trabalho. Aproveite a oportunidade. - O vizinho me incentivou. - Quer um estmulo? V e me traga um bom material de Montevidu. H algum tempo a agncia quer encontrar um reprter na cidade para escrever alguns textos e enviar fotos. Todo o material  disponibilizado para jornais e revistas de grande circulao no Pas, e a agncia vai te pagar,  claro.

- Um trabalho? Voc est me oferecendo um trabalho?

- Freelancer. Mas d para comear, no ?

No s dava para comear como era o sonho da minha vida - viajar o mundo e escrever sobre ele. E eu ainda seria paga por isso? timo, poderia pagar a minha passagem para o Cristiano. No queria dever nada a ele.

Tudo comeou a fazer mais sentido, ento pedi mais um marshmallow. S podia ser o poder daquele doce.

- Quando voc viaja? - Theodoro me perguntou.

- Em uma semana. Posso te entregar a matria uma semana depois de chegar  cidade. O que acha do deadline?

-  um prazo timo. Mas voc nem sabe quanto a agncia vai te pagar... e, para ser sincero, nem eu. Vou falar com meu chefe amanh e te digo como funciona o trabalho dos freelas, certo? - disse ele, com o certo mais carioca que eu j tinha ouvido, aquele erre do Rio de Janeiro, um erre cheio de praia, molejo e cheiro de mar. Um estranho acabava de me dar um emprego e um conselho que mudaria a minha vida. Eu no sabia, mas, se soubesse, teria batido na porta de Theodoro meses antes.

- Como posso te agradecer? - perguntei.

- Acho que, se voc aguentar ser minha amiga, ser um pagamento superfaturado - ele riu.

Foi a primeira vez que eu comi marshmallow. A primeira vez que nos abraamos. O dia em que eu decidi que viajaria para o exterior pela primeira vez, que faria um novo trabalho e que comearia a realizar um sonho. Aquela foi a data em que eu conheci o homem que seria o meu melhor amigo.



Montevidu


Montevidu (em espanhol, Montevideo)  a capital
 do Uruguai. Concentra cerca da metade da populao
 de todo o pas e est s margens do Rio da Prata (Ro
 de la Plata). Uma de suas atividades principais  o
 turismo. Possui prdios histricos, timos museus e
 o famoso e belssimo Teatro Sols. O povo uruguaio 
 muito simptico e receptivo.

 14 calcinhas (ser que  muito dobrar a quantidade de calcinhas pela quantidade de dias?)

 14 sutis (cada um para determinado modelo de roupa)

 14 pares de meia (ser que preciso de mais?)

 14 blusas (vai que uma suja... tem a outra)

 14 calas (idem ao anterior)

 14 vestidos (de cores e modelos diferentes)

 5 pares de sapato (para as diferentes roupas)

 5 pares de sandlias (e se fizer calor, no ?)

 3 pares de tnis (porque eu no tenho mais)

 acessrios (bons, echarpes, broches e mais alguma coisa?)

 brincos, pulseiras, colares (isso lotou um ncessaire)

 cremes (em uma bolsa exclusiva)

 maquiagem (pode ir junto com os cremes)

 mquina fotogrfica (com pilhas extras, carregadores e cartes de memria)

 livros para ler no avio, revistas e uma agenda

 uma toalha (grande e macia, claro)

 Dilin (o meu boneco rosa que acende a cabea, j que eu s durmo com ele)

 no esquecer as pilhas certas para o Dilin (seno ele no acende a cabea)


Pronto! A lista de viagem estava completa. E eu precisava de uma lista, ou seria capaz de no lembrar os itens mais bsicos. Separei a minha nica mala, mas ela pareceu pequena para tudo o que eu precisava levar. Ento peguei emprestada uma mala de Michel, mas essa tambm ficou lotada. Eu no tinha a menor ideia de como levaria tudo aquilo sozinha, mas o importante era no precisar de nada quando estivesse fora. E era uma semana fora de casa na minha primeira viagem internacional. Na verdade, na minha primeira viagem de avio.

Puxa vida, eu ia viajar de avio!

Ser que eu sentaria ao lado do Cristiano? E o que eu diria para ele durante toda a viagem? Eu poderia fingir que estava dormindo. Enquanto arrumava a mala e pensava em tudo o que aconteceria dali a alguns dias, Samantha me telefonou. Eu havia enviado um e-mail para ela contando sobre o vizinho e a proposta de trabalhar como freelancer e que telefonara para o Cristiano antes mesmo de ele me ligar para aceitar o convite para o congresso.

- Leve lingerie - disse ela.

- Para que eu vou querer calcinha bonita em uma viagem de negcios? Quer dizer,  como se fosse uma viagem de negcios, no ? Eu vou para trabalhar, e ele tambm.  claro que vou ter de fazer turismo para tirar as fotos e escrever meu texto para a agncia, mas tambm  trabalho. E que raios, Sam, eu no vou ficar sozinha de calcinha justamente com o Cristiano, ficou louca?

- Esqueci que voc  diferente...

- Eu no sou diferente - interrompi. - Eu s no sou igual s outras meninas.

- Ou seja,  diferente. E voc no  mais uma menina,  uma mulher - retrucou Samantha.

- Voc  muito moderninha, Sam. E pare de me encher a pacincia.

- No sou moderninha. Eu s tive um namorado srio, Mel. Um.

- E morou com ele - disse, mas quase me arrependi.

- Morei, jogue na cara, morei com aquele traste. Mas no moro mais. E se voc quer saber, estou doida para encontrar uma pessoa legal e casar, ter filhos, ser feliz para sempre - disse ela, mas parecia magoada.

- Eu tambm quero encontrar uma pessoa legal. Mas no sei se quero casar. No agora.

- Esse cara legal pode ser seu ex-chefe, no pode?

- Nem pensar! - disse com desdm.

- Ou o seu vizinho?

- Nem pensar, ele tem namorada! - repeti, mas sem desdm. - Pare de tentar encontrar algum para mim e me diga se vai poder me levar ao aeroporto. No quero depender do Cristiano at para isso.

- Confirmado, hoje eu no tenho ensaio da pea. Sete horas na sua casa para dar tempo de chegar l. Cmbio e desligo.

E a conversa com Samantha me fez lembrar de que eu no havia me despedido de quase ningum. Eu preciso de lembretes em todas as partes da casa, porque memria  o meu fraco. Mandei uma mensagem de texto para Michel (que estava sumido na casa de alguma garota e me respondeu avisando que chegaria a tempo de se despedir de mim), Caroline e Brbara, e telefonei para meus pais. Mame ficou to feliz por saber da viagem que eu tive certeza de que aceitar viajar para o Uruguai era a melhor deciso. Sempre que eu tinha dvida sobre algo, ligava para ela e sondava a sua opinio. Era quase um certificado de voc fez a coisa certa. Meu pai no falava muito, mas acreditava em mim como poucas pessoas. Pelo menos era o que ele dizia, quando conversava comigo (Fale com sua me era sua frase preferida). Mas meu pai tinha amor nos olhos e nos gestos.

Apesar de saber que ficaria pouco tempo fora, eu queria me despedir das pessoas. E se eu morresse no avio? No, no ia morrer no avio. As pessoas batem as botas com muito mais frequncia em acidentes de carro. Ou em situaes improvveis. No  porque a morte passou perto de uma famlia uma vez que passaria de novo. Acho que a morte se esqueceria de mim por um longo perodo. Faltava eu me esquecer dela.

Sempre achei to legais as despedidas interminveis de cinema nos aeroportos que falei com os amigos para ver se algum iria comigo. Samantha ia, mas no era exatamente uma atitude espontnea, j que ela seria minha motorista.

Ainda havia o Theodoro.

No pensei muito em como falaria com ele e como diria que aquele era o dia da viagem, porque no havia elaborado nada. No era como quando falamos com um paquera, aquela conversa ensaiada, com um sorriso envergonhado, as mos posicionadas como queremos, tenso, frio na barriga, medo de ser rejeitada e todas aquelas sensaes. Eu apenas peguei no telefone, disquei para ele pelo nmero marcado no papel no dia em que ele me ofereceu um emprego e torci para que ele estivesse em casa.

Atendeu no segundo toque. Era domingo, comeo de tarde, e eu nem havia almoado.

- Theodoro? Sou eu, Melissa. A sua vizinha!

- Eu sei quem  Melissa - ele riu. Soltei um ufa e tambm ri.

- Vou viajar hoje. Queria me despedir. Quer comer o melhor brigadeiro do mundo aqui em casa?

- Que convite indecente. Assim eu no posso negar.

- Esse  o objetivo. Mas  o seguinte, eu no almocei e aqui no tem almoo. Meu irmo nem veio dormir em casa, e pensei que voc poderia trazer os seus marshmallows para nossa refeio.

- Vou fazer melhor, me aguarde. Estou descendo - e desligou o telefone.

Theodoro chegou poucos minutos depois com uma sacola ecolgica cheia de produtos e disse que faria o nosso almoo enquanto eu acabava de arrumar a minha bagagem. Algum tempo depois ele apareceu no quarto, e eu questionei onde estava o almoo. Ele explicou que havia picado a cebola, preparado o caldo de legumes e, enquanto o funghi estava sendo hidratado (que raios ele estava preparando na minha cozinha?), ele me ajudaria com as malas, afinal, tinha experincia em viagens.

Mostrei a lista para ele. Era bem mais fcil que ele me dissesse o que estava faltando.

- O que  essa cara? Est faltando alguma coisa? - perguntei. Ainda dava tempo de procurar outra mala, se fosse necessrio.

- Voc est maluca? Est sobrando aqui - disse ele. Parecia preocupado, mas logo em seguida deu risada. E sua risada era to divertida que eu ri tambm. Eu estava rindo de mim mesma e nem sabia o motivo.

- Mel... Eu posso te chamar de Mel, n? - e eu confirmei com a cabea, mas ainda parecendo uma menininha que ia levar uma bronca. - Voc vai viajar por apenas uma semana e vai levar tudo isso?  muita coisa. Olha, voc precisa aprender com um mochileiro a organizar a sua mala. Ainda podemos fazer isso antes do almoo, topa? Revemos a lista e depois voc arruma suas coisas novamente. Mas antes eu vou dar uma olhada na sua mala...

Theodoro quis checar o modelo e tamanho da mala, para saber qual delas eu deveria levar. O que significava que eu deveria levar apenas uma. Somente uma. Como eu ia enfiar tudo o que era necessrio em apenas uma mala eu ainda no sabia.

Foi quando ele encontrou o Dilin. E como estava com a pilha (para o caso de eu precisar no avio, no  mesmo?), sua cabea ficou acesa quando sua barriga foi apertada.

- Eu tinha um boneco desses! Mas o meu era verde.

Era o primeiro de muitos segredos que compartilhamos. Mas o primeiro a gente nunca esquece, ento o Dilin  uma espcie de garoto-propaganda da nossa amizade.

Theodoro me contou que ganhou seu boneco para perder o medo do escuro, assim como eu. Na verdade, eu tinha medo de morrer, e o escuro era um monstro enorme de dentes gigantes. Assim, Dilin poderia me salvar. A histria era minha, meus pais no tinham a menor culpa pelos meus traumas. A vida tinha sua parcela de culpa, e como no consegui resolver os problemas, acho mais fcil carregar o boneco at hoje. Mesmo que eu saiba que o escuro no vai me matar (mas  melhor prevenir).

- Tho... Eu posso te chamar de Tho, n? - e ele disse sim com um sorriso. - Como eu fao para deixar a mala mais leve? Eu no coloquei nada a mais,  s o necessrio...

Mas percebi que no era.

Theodoro me explicou que no era preciso levar tantas roupas ntimas (que bonitinho o jeito que ele disse, to educado), apenas a quantidade igual ao nmero de dias que eu estaria fora. Uma semana, sete peas. Ou menos, porque eu poderia lavar, j que muitos locais tm lavanderia, como os albergues. Mas eu lembrei que estaria em um hotel para o congresso e combinamos que sete era um nmero bom. Tambm no precisaria de tantas meias, blusas, calas ou vestidos, e por que eu levaria tantos sapatos? Foram palavras dele. Pensamos, ento, em uma quantidade menor, bem menor, e depois de olharmos a temperatura na cidade pelo site de clima, eu pude escolher exatamente o que usaria.

Ento Tho me disse que eu no precisaria levar tantos brincos, maquiagens ou livros, e que poderia trocar a toalha gigante por uma de rosto apenas para casos emergenciais. Aquilo acabava de se tornar uma mala de mochileira, mesmo que para uma viagem profissional. E ele ainda teve a ousadia de dizer que eu poderia tirar mais itens da lista!


 7 calcinhas (uma para cada dia)

 5 sutis (eu no precisava de modelos diferentes, afinal)

 5 pares de meia (dois sociais, trs para tnis)

 7 blusas (eu no consegui tirar mais)

 3 calas (duas jeans e uma social, mas Tho disse que exagerei)

 2 vestidos (um preto e um vermelho)

 1 par de sapatos pretos (meu vizinho me convenceu de que era suficiente)

 1 par de sandlias (confortveis)

 1 par de tnis (que ele disse que eu usaria mais do que tudo)

 acessrios (apenas um bon para caminhadas)

 brincos, pulseiras, colares (apenas um colar e quatro pares de brincos)

 cremes (um nico creme)

 maquiagem (dois batons, um rmel, blush, um corretivo, duas sombras e uma base mineral)

 mquina fotogrfica (com pilhas extras, carregadores e cartes de memria)

 minha agenda e um livro (deixei os demais livros e revistas)

 uma toalha (pequena, de rosto, para emergncia)

 Dilin (liberado!!!)


Tudo coube em apenas uma mala e ainda sobrou espao. Tho me ensinou que a mala nunca deveria ir cheia, para o caso de eu querer comprar alguma coisa na viagem. Mala pronta, bolsa e documentos, era hora de ir para a cozinha. Ele preparou o risoto enquanto conversvamos sobre as expectativas para a viagem. Como trouxe tudo de sua casa, precisou apenas do fogo. Dourou a cebola na manteiga, depois acrescentou vinho branco, em seguida, o arroz arbreo, e aos poucos colocou o caldo de legumes. Em certo momento, que eu no saberia qual, colocou o funghi e mais manteiga. Como eu adoro manteiga, fiquei com gua na boca. Tho parecia um mestre da gastronomia, porque fez tudo com tamanha rapidez que eu nem percebi quando ficou pronto.

Enquanto colocava o risoto em uma travessa e montava a mesa (os pratos esto na prateleira acima da pia, e os talheres na primeira gaveta, aqui ao lado do fogo), eu preparei o brigadeiro mais gostoso do mundo. Ele s viu quando estava pronto, nove minutos depois. A receita era da minha amiga Blanda, que morava em uma cidade prxima a Bady Bassitt e com quem convivi durante parte da adolescncia. Brigadeiro era nosso prato favorito nos bailinhos. Nossas mes eram amigas e a diferena de idade entre ns era pequena. A ltima vez que nos falamos foi dias depois de sua festa de aniversrio  fantasia. Eu no compareci porque estava de planto no jornal. Nesse mesmo
 e-mail ela me convidou para seu casamento, e no vou perd-lo. No h mais plantes.

Sentamos  mesa e experimentei o verdadeiro risoto pela primeira vez na vida. Comi tanto que tive medo de passar mal no avio. Ele correspondeu, devorando dois teros do prato de brigadeiro, o que foi o melhor elogio do dia para mim (foi o que ele disse quando comi o terceiro prato cheio de risoto). Contei que era a primeira vez que eu ia viajar de avio, e ele me contou sobre suas aventuras e os prximos projetos. Conversamos muito, rimos, tiramos foto com minha cmera para testar a pilha e, quando o celular tocou, e era a minha me para me dar mais um beijo, ento percebi que era fim de tarde e que logo Samantha estaria l para me buscar.

Tho quis ir conosco e Michel chegou logo em seguida. Apresentei Samantha, que prometeu levar os dois de volta, e tivemos a hora mais agradvel que se pode passar dentro de um carro a caminho do aeroporto de Guarulhos. J prxima ao embarque, depois do check-in e de encontrar Cristiano, eu me despedi dos meus amigos e do meu irmo.

- Tchau, fofa - disse Michel, como sempre me tratava. E me deu um abrao.

Tho tirou um pacote de marshmallows do bolso do casaco e me entregou.

- Isso  para voc no se esquecer de mim na viagem. E do trabalho que voc tem de entregar - ele sorriu. Ento sumi a caminho do avio que me levaria para Montevidu. E Cristiano era a mala a tiracolo.

Enquanto entrava no avio, j ouvindo aquele barulho estranho, lembrei-me de que no havia me despedido de Lady e nem pedido que algum cuidasse dela enquanto eu estaria fora. Como eu pude? Meu crebro deveria ser estudado em alguma universidade para que eu pudesse entender porque a minha memria sempre me deixa na mo, mas no consegue esquecer justamente os fatos de que eu no quero mais lembrar.



Punta Ballena


A apenas 16 quilmetros da famosa Punta Del Este
 est a encantadora cidade de Punta Ballena, conhecida
 quase exclusivamente pela presena do Museo-Taller
 de Casapueblo, do artista uruguaio Carlos Pez Vilar.
 O lugar abriga hotel, casa do artista, ateli, museu e
 lojinha. Uma construo enorme, branca, linda
 e que parece um palcio  beira-mar.

O avio tinha uma televiso s para mim! Era realmente incrvel que algum tivesse pensado nesse detalhe, porque eu no queria dividir uma televiso com o Cristiano at chegarmos ao Uruguai. Nunca troquei nem bem algumas palavras com ele e at pouco tempo atrs eu o achava apenas um chefe chato - no que eu tivesse mudado de opinio, mas  um pouco mais fcil virar a casaca socialmente quando recebemos um convite para um congresso. No que ele tivesse comprado minhas opinies, apenas alugado. Por tempo determinado.

Pensei em Lady sozinha em casa. No exatamente sozinha, mas com Michel era como se estivesse. Ele passaria noites fora de casa, e eu teria de contar com a ajuda de Samantha para confirmar se havia gua e rao para a gata. Ela tinha a chave do apartamento, e eu ligaria assim que chegasse a Montevidu para ela me prometer que cuidaria de Lady Gaga.

Decolar em um avio  uma das sensaes mais estranhas e deliciosas que eu j tive. No que eu tenha tido muitas sensaes deliciosas na vida em um sentido amplo da palavra, mas voar  indescritvel. E gostoso.

O mais engraado do voo foi assistir s orientaes dos comissrios de bordo. Em caso de despressurizao, mscaras individuais de oxignio cairo automaticamente (uma comissria mostrou uma mscara amarela), puxe uma delas para liberar o fluxo (ela sorria enquanto mostrava o procedimento, mas a voz no era dela, era como de um narrador de filme), coloque sobre o nariz e a boca (ela colocou), ajuste o elstico em volta da cabea e respire normalmente.

Como assim, respire normalmente?

O avio despressurizou e eu respiro normalmente, aceno para o companheiro do lado, dou um sorriso de Monalisa como quem diz est tudo certo, ns vamos morrer e continuo lendo um livro como se nada tivesse acontecido?

Comecei a rir alto, ento Cristiano olhou para mim e colocou o dedo em frente  boca, como quem diz cale-se, e eu ri ainda mais alto. Os passageiros me observavam e, quando percebi, antes que a comissria pudesse nos ensinar a colocar a mscara antes de ajudar aos outros, muitas fileiras j riam comigo.

Tudo bem, ns poderamos no morrer, mas eles no deveriam fazer aquela encenao com uma mulher bonita e fingir que, se algo acontecesse, no precisaramos ter medo. Fiquei com medo exatamente quando eles tentaram me acalmar.

Para me controlar, fui ao minsculo banheiro para lavar o rosto, em seguida dei uma volta no espao dos comissrios de bordo e voltei para o meu lugar. Comi um marshmallow, embora eles fiquem muito melhores derretidos no fogo. Olhei as fotos que eu e o Tho tnhamos feito em casa na prpria cmera. Na sequncia: os dois mostrando a lngua, os dois fazendo careta, ele fingindo que mordia o meu pescoo como vampiro, depois eu imitando um monstro e ele com cara de medo, os dois sorrindo e por ltimo ele dando um beijo na minha bochecha enquanto eu sorria para a cmera.

Tho estava sendo um amigo maravilhoso. Em um momento estranho da minha vida. Afinal, mudanas sempre so estranhas. Podem ser fascinantes, incrveis, desesperadoras. Para cada um tm um significado diferente, mas sempre so estranhas. E boas. Mudar nunca  ruim.

Suponho que o piloto tenha feito um bom pouso, porque as pessoas bateram palmas como em um espetculo. Era a primeira vez que eu viajava, mas depois nunca mais vi reao igual quela. E achei bonito, bati palmas tambm. Mas no gostei de pousar, o estmago deu uma reviravolta.

Eu e Cristiano ficamos em um hotel na Calle La Cumparsita e decidimos ir a um barzinho antes de dormir. Encontramos o incrvel Baar Fun-Fun, na Calle Ciudadela, 1229 (eu anotei na minha agenda). Depois olhei na internet para conhecer a histria do local. O bar foi fundado por Augusto Lpez em 1895 onde antes funcionava o Mercado Central. A clientela comeou a se formar principalmente em razo das principais bebidas oferecidas: el Pegulo e la Uvita, o sucesso absoluto do bar, cuja frmula dizem ser secreta.

Mas antes de descobrir tudo isso, eu e Cristiano sabamos apenas que La Uvita era famosa e queramos experimentar. Ao som do tango, j que no palco um casal danava como se tivesse corpo de borracha, eu provei a bebida do meu ex-chefe, mas logo pedi uma para mim. Era como fogo doce, algo quente e alcolico, mas ao mesmo tempo suave e delicioso. Desconfiei que Cristiano quisesse me embebedar, por isso decidi no pedir mais um copinho.

Na hora de dormir, quase bati a porta do quarto na cara de Cristiano e preferi ficar com Dilin. Combinamos de tomar caf da manh juntos no dia seguinte e irmos direto para o congresso.

Eu ainda no sabia de nada.

Estava pronta para encontrar grandes profissionais da comunicao. Vesti uma cala social, sapatos pretos, uma blusa de manga comprida verde, arrumei o cabelo e passei pouca maquiagem. No salo, tomamos calmamente o caf, enquanto eu percebia a inquietao de Cristiano, batendo os dedos na mesa (o que irrita todos os que esto ao redor, menos o dono dos dedos).

- Cristiano, voc est bem? Parece to... tenso!

-  que eu no sei... no sei bem... como dizer isso, Melissa - ele respondeu titubeando.

- Voc no precisa saber como dizer. Apenas diga.

- O congresso foi cancelado.

Silncio por trs minutos. E a vontade de voar no pescoo de Cristiano.

- Cristiano, voc acha que eu vou acreditar que um congresso inteiro foi cancelado por algum motivo qualquer? Se fosse algo realmente srio, j estaramos sabendo, todos os jornais estariam noticiando e... - nessa hora, coloquei a mo na cabea. - No acredito que eu no busquei informaes sobre esse congresso na imprensa antes de vir com voc. Eu acreditei em voc e vim, simplesmente vim! Mas deveria saber que, depois de tudo o que voc fez, mentir sobre um congresso no  nada.

- Eu no menti, Mel... Eu tenho uma reunio na cidade e quis traz-la, achei que voc iria gostar, e depois da reunio,  tarde, ainda podemos aproveitar para conhecer Montevidu.

- O qu? Voc quer que eu passeie pela cidade com voc de mos dadas, por acaso? - Nessa hora, Cristiano colocou a sua mo direita sobre a minha mo esquerda, e eu no tive nem um segundo de discernimento ou deciso. Eu apenas fiz.

Joguei um copo de suco de laranja na cara de Cristiano.

- Voc - eu disse, pausadamente - ... um... i...di...o...ta... - e com tranquilidade sa da mesa. Afinal, quem v bunda no v corao.

Subi para o quarto e telefonei para minha me. Se ela havia me dado o sinal verde para viajar, o que havia acontecido de errado?

 que mame l cartas. E no  para qualquer pessoa. Ela no l para ganhar dinheiro, ela apenas diz o que vai acontecer. As cartas so de baralho comum, e eu no tenho a menor ideia de como ela faz isso, mas ela faz. E, mesmo sabendo, eu nunca fiquei perguntando mame, veja a nas cartas se viajar ser uma boa para o meu crescimento profissional ou qualquer pedido assim. Eu s converso com ela e peo conselhos. Algumas vezes eu tive certeza de que ela tinha lido algo nas cartas, mas no, era apenas intuio de me. Outras vezes ela sabia sobre algum acontecimento e no me contava como as dicas apareciam nas suas vises entre valetes, damas e reis. Ela apenas me aconselhava. Como qualquer me faria.

- Filha, e quem disse para voc que a vida  fcil? Mas pode ser divertida. A viagem no est perdida. Voc deveria ir e foi. Est a, agora aproveite.

Ento eu teria uma semana para conhecer algumas cidades. Como mochileira, agora. Sa do hotel, paguei minha diria, deixei um bilhete na recepo para Cristiano, dizendo que no se preocupasse, que eu voltaria sozinha para o Brasil, e procurei um albergue prximo  Plaza Independencia. Cheguei, deixei os meus pertences e fui explorar, pela primeira vez na vida, uma cidade sozinha. Eu e minha cmera.

Montevidu  a capital federal do Uruguai, mas o cu no  cinzento como o de uma grande cidade.  azul e lmpido. Levei minha agenda para anotar os lugares pelos quais passaria e um guia da cidade, escrito em espanhol, que comprei em uma livraria local.

A Ciudad Vieja  a rea em que esto os mais importantes pontos de visitao. A Plaza Independencia  a maior da cidade e tem como monumento principal a Esttua de Artigas. Na parte de baixo da praa est o mausolu do poltico e militar Jose Gervasio Artigas, heri uruguaio que tem seu nome estampado em diversas ruas de diferentes cidades do Uruguai.

A praa  rodeada por construes antigas que parecem sair de um filme dos anos 1950. O cenrio fica completo com os carros estacionados ou em movimento, antigos como  difcil encontrar em qualquer outro lugar. A impresso que d  que l os carros so usados para sempre, at no funcionarem mais. E  bonito ver mquinas antigas conservadas e nas ruas.

Continuei andando e observando cada detalhe. Um dos prdios da praa  a Casa de Gobierno, que possui uma inscrio de 1880 junto  cabea de um leo. No local funciona atualmente um museu, que impressiona pela organizao e qualidade de material exposto, alm de ser gratuito. Um simptico senhor na porta puxou papo comigo e eu me virei com as poucas palavras que sabia em espanhol. Muito prximo e ao lado do palcio Rinaldi est o Palacio Salvo, que atualmente  um prdio de moradias. Descobri porque tentei entrar e um homem perguntou gentilmente se eu precisava de algo. Eu disse no, no, no e sa como fugitiva.

Um pouco afastado da praa, mas na mesma regio, est o Teatro Sols, que foi construdo em vrias etapas. No princpio, a classe mais abastada entrava no teatro pela porta central, enquanto os demais entravam pelas laterais. Com a grande reforma pela qual o prdio passou, essa diferena foi extinta. Em frente ao teatro est a Peatonal Bacacay, um calado s para pedestres que vai at a Peatonal Sarand. E ali bem perto est a Puerta de La Ciudadela (a porta da cidade) e a Plaza Matriz. Nos arredores da praa est a Catedral Metropolitana, onde casou o general Artigas, aquele mesmo famoso da outra praa.

Casamento. Ser que um dia eu iria me casar? Eu no queria me casar justamente para poder fazer aquilo o que estava fazendo naquele momento: conhecer o mundo. E eu no escolhi por onde comear, mas, se tivesse que escolher, comearia exatamente no mesmo lugar.

Voltei caminhando pela Sarand at encontrar o Museo Torres-Garca, do pintor uruguaio Joaqun Torres-Garcia. Caminhei um pouco mais at o Mercado Del Puerto. Almocei por ali mesmo uma deliciosa paella de frutos do mar, j um pouco tarde.

Meu celular tocou.

- Como est minha vizinha preferida?

Era Tho! Como era bom falar com Theodoro naquele momento.

- Que bom falar com voc! - eu no escondi. No havia motivos para fazer jogos com Tho.

- E o congresso, est bom? No se esquea de fazer as fotos da cidade pra mim, senhorita jornalista. - E ento eu contei sobre tudo o que havia acontecido com Cristiano, e Theodoro ficou enfurecido. Quando contei que estava passeando sozinha e nem havia me lembrado do trabalho, sua voz soou preocupada.

- Calma, Tho. Eu registrei tudo. Tirei tantas fotos que voc no pode nem imaginar. Mas no fiz um trabalho, fiz um relato de viajante.

-  ainda mais fascinante! - exclamou ele. - E o que vai fazer nos prximos dias? Por que no vai at Cabo Polonio? Ouvi dizer que  um lugar extico e lindo, principalmente para quem gosta de animais. Se for, prepare material e me mande, por favor. Alis, registre tudo por a. E me mande nossas fotos, aquelas que tiramos antes de sua viagem - ele pediu. Eu prometi mandar notcias assim que voltasse para o albergue e decidi que minha viagem teria muito mais aventura.

Peguei um mapa na recepo do albergue que mostrava o caminho at chegar a Cabo Polonio. Antes de dormir, usei o computador de l para anotar as minhas impresses sobre Montevidu. Escrevi um rascunho e enviei para meus pais, Michel, Samantha e Theodoro por e-mail, mas pensei na possibilidade de abrir um blog. No dia seguinte, aluguei um carro e comecei a viagem por Piriapolis.

Estacionei na Rambla de Los Argentinos e parei em um posto de informaes. Logo percebi que deveria ter reservado mais de um dia para a viagem. Como eu no tinha muito tempo, resolvi conhecer alguns pontos principais.

- Sam, sou eu. Acabei de chegar a uma cidade linda, pequena e aconchegante.

- Voc  louca, Mel? Falando do celular de outro pas? - ponderou minha amiga.

- Mas eu preciso dividir essa sensao com algum... E estou falando do Skype pelo celular. Aqui tem wi-fi!

- Um brinde  tecnologia! Ento me conte tudo!

- Samantha, ser que um dia teremos uma cidade com nosso nome? Podemos fundar uma e cham-la de Samel - e dei risada. Isso porque Piriapolis foi fundada por Francisco Piria, que nasceu em Montevidu. Subi no Cerro Santo Antonio, que  o morro mais conhecido da cidade. E l de cima, com aquela vista linda da praia, senti o que Francisco deve ter sentido um dia, quando morava ali. Era espetacular.

Antes de sair da cidade, conheci o trabalho do SOS Rescate Marino, depois da Playa San Francisco, em direo  Punta Colorada. Fui recebida por um rapaz simptico, mas o horrio de visita seria bem mais tarde. Devo ter feito cara de piedade, porque ele abriu uma exceo depois de eu dizer que era do Brasil e o quanto estava apaixonada pelo Uruguai. O rapaz ainda me levou para conhecer onde os animais so recuperados - por contaminao com leo, machucados pelos barcos, doentes - antes de serem soltos novamente na natureza.

Percebi que havia feito vdeos e centenas de fotografias com lees marinhos, lobos marinhos e pinguins. Eu estava empolgadssima com a ideia de viajar sozinha, de explorar o mundo, e ganhar dinheiro com a viagem era a ltima das preocupaes. Mas eu fazia o trabalho como nunca havia feito nenhum outro.

Quando cheguei a Punta Ballena, parecia um sonho conhecer o museu e ateli do pintor uruguaio Carlos Pez Vilar. Era quase horrio de fechar, mas entrei e fiquei sem ao. Lembrei de uma matria que fiz sobre o trabalho dele: a Casapueblo comeou a ser construda em 1958 e demorou mais de 30 anos para ficar pronta. Vilar construiu pessoalmente o seu sonho, e da varanda da casa podia-se ver o pr do sol mais bonito que eu j tinha visto na minha vida. Quantos de ns temos coragem de construir o prprio sonho? Eu sentia que comeava a construir o meu. E tive medo.

Naquele momento, sozinha quando o sol se escondia, eu quis ter companhia. Pela primeira vez no dia, com a chegada da noite e a brisa do mar, naquele castelo branco enorme, com os quadros ao redor e todos aqueles gatos na parede, pensei em Lady e em quem gostaria que estivesse ao meu lado. E cheguei  concluso de que s gostaria de ter meus amigos comigo. Eu ainda no sabia, quela altura da viagem, por quantos lugares ainda passaria e o que o destino reservava para mim. Mas no me importava. S o que me preocupava era por que eu tinha medo de me sentir to feliz.



Cabo Polonio


Balnerio uruguaio que possui, prximo  costa,
 trs ilhas pequenas conhecidas por serem lares de
 lobos marinhos. So elas: La Rosa, La Encantada e El
 Islote. Pescadores, funcionrios do conhecido farol e
 artesos formam a pequena populao local. No h
 energia eltrica, e a paisagem  magnfica.

O celular tocou na manh seguinte, quando eu arrumava minha mala para sair de Punta Del Este, uma cidade bonita, elegante e cara. Tinha chegado havia poucas horas, na noite anterior, quando viajei de Punta Ballena. Aquele hotel foi o primeiro que encontrei, e como estava tarde, achei melhor passar a noite ali. Olhei o nmero: era o celular de Cristiano, e no atendi. Continuei arrumando a minha mala e fiz check-out do hotel, com a inteno de seguir para Cabo Polonio, o destino indicado por Theodoro. O celular tocou mais uma vez - era Cristiano novamente.

- O que voc quer? - perguntei, sem cerimnias.

- Onde voc est, Melissa?

- No interessa, chefe.

- Eu quero dizer: em que parte do hotel voc est?

- Voc no sabe em que hotel estou, nem ao menos para qual cidade eu vim, ento no far diferena dizer que estou na recepo fazendo o check-out. Vou voltar direto para Montevidu no dia do embarque para o Brasil, no se preocupe comigo.

Ento senti uma mo pousando sobre meu ombro. Quando eu me virei, l estava Cristiano.

- Como voc me encontrou aqui?

- Voc alugou um carro que tem um localizador, e ele me trouxe at voc. Algumas pessoas na empresa ficaram sensibilizadas com a histria que eu contei e resolveram me dizer como eu poderia te encontrar. Voc se esqueceu de que eu sou um timo reprter investigativo?

- Eu tambm sou jornalista, mas no fico perseguindo as pessoas, seu louco.

Nesse momento, o telefone tocou, e era Michel.

- Melzinha, estou com um problema, pode me ajudar?

- Michel, eu tambm estou com um problema. Mas espere um pouco. - Afastei-me de Cristiano, sentei no sof da recepo, deixei a mala no cho, ao meu lado, e, enquanto isso, meu ex-chefe conversava com a recepcionista como se fossem amigos ntimos. Comecei a falar com Michel, e Cristiano, vez ou outra, me mandava beijinhos com a mo ou piscava um dos olhos. A recepcionista fez cara de ai, que fofo, como se fssemos namorados. Virei o rosto para a parede e perguntei o que havia acontecido com meu irmo.

- Eu beijei a Priscila, filha do dono do escritrio.

- Michel, voc est doido? Mal comeou a trabalhar a... E eu j disse, agora voc  um advogado, precisa ter uma postura diferente, no  mais um menino - falei com doura, porque meu irmo era atrapalhado e, para mim, sempre seria uma criana. S que ele precisava crescer.

- Mas beijar a Priscila nem foi o problema. A questo  que foi no escritrio e o pai dela viu.

O que o meu irmo tinha acima do pescoo? Era uma cabea ou um enfeite com cabelo?

- Fofo, agora eu no posso conversar muito com voc, estou com um probleminha aqui... - E eu esperava que ele perguntasse o que era, porque eu queria realmente a opinio de algum, mas meus amigos nunca perguntavam, eles me ligavam, eu os atendia e ficava feliz por isso. S em falar com eles eu j me contentava, mas admito que, em alguns momentos, eu queria ouvir o que est acontecendo com voc, Mel?. - Ento, faz o seguinte: converse com o seu chefe e pea desculpas, diga que isso no vai mais acontecer e fale com a moa.

- Mas eu no quero nada com ela!

- Ento fale isso, Michel. Mas no finja que nada aconteceu, no  a melhor sada.

- Te amo, fofa.

- Se cuida - e desliguei. Olhei novamente para Cristiano. Ento era verdade, e no uma inveno da minha mente. De repente ele poderia ter desaparecido, mas no. Peguei minha mala e segui para o estacionamento do hotel. Cristiano me seguiu e, enquanto eu abria o porta-malas, perguntou: Onde vamos?, como se a primeira pessoa do plural fosse uma possibilidade. Mas no era.

- Eu no pretendo ir a lugar nenhum com voc, ento me diga agora o que quer de mim - disse, encostada no carro e com a chave na mo.

- Eu preciso que voc v comigo a uma reunio importante em Montevidu. No menti sobre isso. Sua matria foi escolhida para concorrer a um importante prmio e  preciso que voc esteja junto para inscrevermos o material, at porque voc levou os originais do jornal quando saiu... - mas eu o interrompi, sem querer saber de qual prmio ele falava. No era daquele primeiro prmio, eu sabia, porque aquilo j era passado.

- A matria  minha, Cristiano. Sim, eu a levei comigo, e no, eu no vou com voc a lugar nenhum.

- Eu no acredito que voc no quer participar da competio! E o jornal, como fica? Voc trabalhava l quando escreveu a matria, ns temos direito de inscrever o material - disse meu ex-chefe, reivindicando a posse do meu texto.

- Eu escrevi a matria em casa, fora do horrio de expediente, e vocs publicaram porque eu trabalhava no jornal. A empresa no me ajudou em nada. Tudo o que precisei foram minhas prprias experincias em So Paulo. E, Cristiano, eu no quero prmio nenhum. - Existe um momento na vida em que precisamos optar pelo que parece o certo a fazer e o que queremos de verdade. A segunda opo pode no nos oferecer aparentemente nada, mas pode ser a estrada que nos leva  felicidade. E ela nem sempre vem acompanhada por prmios, dinheiro ou conquistas materiais.  quando tudo isso no nos faz falta que estamos prontos para seguir esse caminho.

Entrei no carro, fechei a porta e no dei chance para Cristiano responder. Pela janela do carro, joguei o pen drive com a matria gravada para Cristiano. Eu no queria mais nada daquilo, e se ele achava que tinha algum direito sobre aquele trabalho, eu no me oporia. J havia guardado como recordao todo o trabalho sobre a cidade de So Paulo que fiz para o caderno de Turismo do jornal intitulado Turista na cidade natal. Foi o primeiro post do blog que criei na noite anterior, no computador do hotel.






Segui 120 quilmetros sentido Chu para Cabo Polonio. No liguei o rdio; meus pensamentos j estavam altos. Nada poderia estragar a chance de conhecer aquele pas, porque em poucos dias estaria de volta ao Brasil e no sabia qual realidade me esperava. Alm de escrever os textos para a agncia de Theodoro, oficialmente eu no tinha mais emprego. O que eu vivia naquele momento era a realizao do maior sonho da minha vida, e eu no queria voltar para Bady Bassitt e depender dos meus pais para pagar minhas contas.

Segui a ruta 9 at Rocha e entrei na estrada do litoral como se fosse para La Paloma. No meio do caminho, encontrei um casal uruguaio com um menino que no devia ter mais do que seis anos. Eles pediam carona.

Eu nunca havia dado carona em minha vida e nem mesmo pedido. A estrada era deserta, eu no vi mais nenhum outro carro alm do meu, e como o dia estava claro, no pensei mais do que trs segundos e encostei o carro. O casal explicou que ia para Cabo Polonio e eu disse que tambm estava indo para o mesmo lugar. Todos pareciam constrangidos quando o carro j estava em movimento, ento quebrei o gelo perguntando o nome do menino.

- Pablo - ele respondeu com timidez.

- Pablo, yo soy brasilea - disse com todo o espanhol que eu conseguia. O menino parece ter me compreendido e abriu um sorriso.

- Ftbol! - ele exclamou. E a partir dali todos pareceram se tranquilizar. Os pais do pequeno Pablo, Jimena e Oscar, contaram que trabalhavam em Cabo Polonio em um novo projeto para fomentar o turismo no local, e eu expliquei que era jornalista e gostaria de conhecer o povoado para escrever uma matria. O casal no s disse que eu poderia fazer uma entrevista como se prontificou a me mostrar o balnerio quando chegssemos l.

Primeiro estacionamos o carro e fizemos o restante do trajeto com um 4x4 durante 30 minutos. No local, alguns desses carros ficam estacionados, esperando quem precisa fazer a travessia, e paga-se pela ida e volta. J em Cabo Polonio, a vista era uma das mais magnficas possveis, com poucas casas espalhadas por uma localidade sem energia eltrica e ilhas que serviam de moradia para lees marinhos. Parei o mais perto que pude e ouvi os barulhos dos animais, que tomavam banho de sol. Pablo brincava na areia das dunas e Jimena me mostrou o farol, enquanto Oscar tirava fotos da minha entrevista com sua esposa.

Quando pensei que Theodoro no acreditaria na beleza do material que eu iria entregar em alguns dias, ele me telefonou.

- Voc adivinhou! Estava pensando em voc, Tho.

- Bem ou mal?

- Nunca penso mal porque voc ainda no me deu motivos.

- Tenho uma novidade pra voc, mocinha. No vai voltar para o Brasil to cedo. Acho que eu deveria ter deixado voc viajar com aquela mala gigantesca, viu.

- U, o que aconteceu?

- Eu tenho um projeto aqui e pensei que voc seria a pessoa ideal para isso. Chama-se Amrica Sobre Rodas, e a agncia vai fazer um extenso material sobre como andar pelos Estados Unidos de carro. O objetivo  viajar pela parte leste do pas, em alguns estados predeterminados e nem sempre por cidades tursticas ou conhecidas, para mostrar que um pas pode ser interessante por vrios motivos. Acabei de te enviar o projeto por e-mail, preciso do endereo do seu hotel a no Uruguai para enviar uma credencial pelo Correio e comprei sua passagem, porque imaginava que voc diria sim, mas preciso de uma confirmao.

Eu fiquei sem ar. Ia viajar para os Estados Unidos!

- I love you - brinquei com Tho. - I love you so much!



Cincinnati


Cidade norte-americana do estado de Ohio,
 separada de Kentucky pelo rio Ohio. Tambm 
 conhecida como Rainha do Oeste (Queen of the West),
 porque o local j foi importante na fuga de escravos
 para a liberdade. Possui a maior montanha-russa de
 madeira do mundo ( o que se diz).

Consegui um trabalho horas aps minha demisso, viajei para os Estados Unidos, a agncia estava sendo camarada comigo, mas a grana no era to grande assim. No me importava, porque descobri algo que podia me fazer feliz. Eu precisaria morar um tempo nos Estados Unidos e minha sorte era, naquele momento, ter visto para entrar no pas.

Minha histria com os Estados Unidos comeou anos antes. Quando fiz 15 anos, pedi de presente aos meus pais uma viagem para a Disney. No ganhei. Foi exatamente na poca em que meus tios resolveram limpar tudo o que minha me tinha. E nossa famlia, que nunca teve muito dinheiro - e o que tinha era resultado de trabalho -, passou a ter menos ainda. No   toa que nunca mais falamos com meus tios, mas ter perdido uma viagem, alm da festa e qualquer possibilidade de comemorao, fez que eu tivesse um visto de turista para os Estados Unidos com validade de 10 anos.

No viajei naquela poca, mas anos depois tive outra oportunidade de ir ao pas. Aconteceu meses antes da minha demisso, quando cumpri pautas de Turismo e tive a chance de escrever uma matria em Orlando. Mais uma vez os Estados Unidos estavam no meu caminho, e eu sonhava com o Mickey Mouse.

Consegui o Visto I, para representantes de meios de comunicao em viagens de carter profissional. Somente alguns pases pedem esse visto especial para jornalistas, entre eles, os Estados Unidos. Na ocasio, quem viajou foi Sara Lara. Mas mantive meu visto de jornalista, e foi com ele que entrei no pas, munida de credencial emitida pela agncia de notcias e documento atestando que eu iria l para desenvolver matria de Turismo em vrias localidades. O documento chegou ao hotel em que eu estava em Montevidu, para onde voltei por mais alguns dias antes de embarcar.

Como no havia uma pauta especfica para os Estados Unidos, j que a agncia queria um material de Turismo em diversas cidades e que pudesse ser feito de carro, foi armado um esquema com uma locadora de veculos, e um pratinha que era carro de luxo no Brasil se tornou meu modelo bsico no outro pas. Para moradia, a agncia custearia as despesas de hospedagem, j que eu iria morar em uma casa alugada por eles para alguns correspondentes. Era local de passagem para vrios jornalistas, mas, naquele momento, s uma pessoa passava uma temporada ali, e era Viviane, a namorada do Tho.

Como ela estava viajando quando cheguei, peguei uma cpia da chave na administrao do condomnio, localizado na cidade de Mason, prxima  enorme e famosa Cincinnati. O condomnio era grande, mas com pequenos apartamentos, como o da agncia, de dois quartos, um banheiro e sala conjugada  cozinha - ento eu descobri porque as pessoas a chamavam de cozinha americana. O apartamento me pareceu muito cinza; se fosse meu, j colocaria um pouco de brilho. Mas devia pensar que estava ali de favor.

Eu havia esquecido completamente de avisar meus pais da mudana de planos e s telefonei quando j estava instalada. Para o meu irmo, liguei antes, do aeroporto, para saber como Lady estava. Sentia falta da minha gata. Uma casa sem animais  muito vazia.

- Minha filha, voc sabe o suficiente de ingls para ficar a por um tempo? - questionou minha me.

- Claro! -respondi, torcendo para que ela no visse a verdade em suas cartas naquele momento. Porque no, eu no sabia quase nada alm do the book is on the table e das tradues das msicas do Elvis Presley e dos Beatles. Desde que eu era pequena, lembro de papai com seus discos de vinil. Quando adolescente, olhava para as capas dos discos de Elvis e pensava: Como ele pode ser to lindo e ainda ter uma voz maravilhosa?. Dos Beatles, tambm sabia cantar todas as msicas e era f de Paul McCartney.

Mas ainda no tinha pensado naquele pequeno detalhe: eu no sabia falar ingls.

Considerando que eu estava em uma cidade que no conhecia, na casa em que morava uma pessoa que eu tambm no conhecia e sem saber qual seria o meu trabalho, eu podia considerar o idioma o menor dos meus problemas. Afinal, eu sabia fazer mmica e sempre ganhava pontos no jogo de adivinhar o filme. Embora jogar com meu pai no fosse to desafiador.

- Tho, eu tenho um problema - contei logo em seguida.

- O que aconteceu? Voc conseguiu chegar ao condomnio como te expliquei? Pegou o carro na locadora do aeroporto com GPS? Pegou a chave do apartamento? - comeou Theodoro com seu bombardeio de perguntas.

- Calma! Eu cheguei e j estou usando o telefone fixo. Estou vendo um computador aqui, vou usar sem cerimnias, t? Mas olha, meu problema, alm de no saber nem onde vou dormir,  que eu no sei falar ingls.

- Voc no sabe o qu?

- Falar ingls - disse, quase sussurrando.

Foi horrvel, porque me senti uma traidora e mentirosa. Aceitei um trabalho em um pas cujo idioma eu no sabia falar, mas o detalhe  que no comuniquei o fato quele que estava sendo o meu melhor amigo. Eu sabia que merecia uma bronca, um palavro ou uma ordem para voltar para o Brasil. Qualquer coisa, menos o que ele me disse.

- Mel, voc vai aprender. Acho, alis, que essa  a melhor oportunidade da sua vida para aprender o idioma, n? - ele deu risada, e eu imaginei aquele sorriso to doce. - Olha, voc precisa agora de um guia de todos os lugares por onde vai passar, e ser bom ter um dicionrio de portugus-ingls. Deixei o meu a na ltima viagem, pode pegar. So dois quartos, e Viviane sempre usa o mesmo quando est por a. Voc pode se instalar no outro, fique  vontade, como se a casa fosse sua.

Ele sabia como me deixar mais tranquila.

- Tho, eu j te agradeci por tudo o que voc tem feito?

- E eu j te agradeci pelo melhor brigadeiro do mundo?

Nessa hora, ouvi um barulho no apartamento de cima. Um barulho como se uma bolinha de gude estivesse rolando pelo assoalho, seguido por gritos e barulho de cornetas.

- Tho, estou ouvindo um barulho do apartamento de cima. No estou te escutando direito.

- Me mande um e-mail. Podemos nos falar pelo Skype com cmera depois, o que acha?

- Voc promete colocar a Lady para eu ver na cmera?

- Se o Funk deixar, eu a trago aqui - disse ele.

- Voc pode ir l no meu apartamento, seu bobo. Pegue a chave com a minha amiga Samantha ou com meu irmo. Agora vou desligar, seno a conta vir muito alta e no quero ser expulsa daqui. Obrigada pela dica do dicionrio. Vou explorar algumas cidades nos prximos dias.

- Um beijo de marshmallow - Tho se despediu.

- Um beijo de brigadeiro - respondi.

O barulho do andar de cima estava ainda pior, mas no havia nada que eu pudesse fazer. Procurei o meu futuro quarto e no foi difcil encontr-lo. O apartamento tinha uma sala dividida entre estar e jantar, a cozinha anexa e uma porta de armrio que escondia uma mquina de lavar e outra de secar roupas. Um pequeno corredor, de um metro, levava ao banheiro e aos dois quartos. Parecia que Viviane ocupava um deles, que tinha alguns porta-retratos em cima de uma cmoda.

Ela era linda.

Seu quarto parecia o quarto de um hotel, arrumado, mas impessoal, com trs camas de solteiro, a cmoda e um armrio de trs portas. Ao lado do armrio havia colches empilhados, talvez para emergncias em caso de muitos convidados na casa. O outro cmodo estava quase vazio, com um colcho no cho, um armrio de duas portas e uma pequena cmoda. Havia uma arara para roupas que estava vazia. Coloquei minha mala no canto desse quarto, olhei pela janela e pude ver o condomnio. Coloquei algumas roupas na arara e as demais nas gavetas.

O computador ficava na sala. Era daqueles antigos, com monitor branco-amarelado, e ento supus que aquele era apenas um computador de emergncia da casa. Ao lado do computador estava uma impressora. Liguei os dois, entrei na internet a cabo e nenhuma senha foi solicitada. Chequei meus e-mails, escrevi para Sam, Michel, Carol e para meus pais. Coloquei um post no meu novo blog de viagem sobre a chegada aos Estados Unidos e mantive o relato como um dirio informal. Os detalhes viriam somente nas matrias para a agncia.

Baixei as fotos da minha cmera digital e imprimi algumas que guardava em meu e-mail. Colei-as na parede ao lado da minha nova cama com fita adesiva. Em um delas estava uma foto em Bady Bassitt - eu, Michel, nossos pais e Sam, ao fundo. Em outra foto, antiga e escaneada da original, que estava com meus pais, estvamos eu, com nove anos, e meus dois irmos: Michel, com sete anos, e Marcos, com dez, antes do acidente que o tirou de ns. A ltima foto era mais recente: Tho dando um beijo na minha bochecha enquanto eu sorria para a cmera.

Deitei na sala, liguei a televiso e adormeci, cansada da viagem. Acordei com o barulho que vinha do apartamento de cima.



Newport


Newport  uma cidade localizada no estado de
 Kentucky, a cerca de 2 quilmetros de Cincinnati, no
 estado de Ohio. A cidade, que foi fundada em 1795, faz
 parte da Grande Cincinatti, mesmo estando em outro
 estado. O Newport Aquarium  uma das principais
 atraes do local, assim como o passeio de barco.

Da segunda vez, o barulho me fez acreditar que dois times de futebol disputavam a Copa do Mundo bem ali no apartamento de cima. Algum jogava bola na parede e no cho, e eu podia sentir as quicadas da bola como se fossem marteladas na minha cabea. Acho que era o cansao; eu precisava de um banho e de comida. Ainda era comeo da tarde, mas o meu relgio biolgico estava bagunado em razo da viagem.

O telefone tocou e eu no sabia se atendia ou no. E se fosse Tho? Ou a prpria Viviane?

- Al?

- Good afternoon. I am blblbl sei l mais o qu em ingls blbl please blbl?

Eu no entendi absolutamente nada. Que sensao horrvel ouvir uma pessoa falando, saber que aquilo significa alguma coisa para algum, mas no conseguir entender nada alm de algumas palavras soltas, como you. Pelo tom de voz e a formalidade excessiva, logo percebi que se tratava de telemarketing. No sabia de qual empresa e qual era a finalidade, ento resolvi ser sincera e usar a frase-chave.

- I dont understand.

Pronto. Acho que o rapaz do outro lado da linha pensou que eu no havia entendido a proposta e repetiu tudo novamente. Dessa vez eu tambm entendi as palavras TV e internet, ento poderia ser da empresa de TV a cabo, internet e telefone. Eu estava progredindo, mas fui sincera mais uma vez.

- I dont understand english - fui mais direta e disse que no entendia ingls. Bem especfica.

No sei como a conversa terminou, porque o rapaz disse mais algumas palavras, parece ter esperado eu responder algo e, depois de um silncio, ele me agradeceu (eu entendi o thank you) e desligou. Percebi, ento, que poderia ter problemas se no comeasse a estudar ingls.

O jogo de bola de futebol e bolinhas de gude continuava no andar de cima, ento interfonei para o apartamento. S na hora em que a pessoa do outro lado atendeu  que eu lembrei que no falava ingls. E usei o meu extenso vocabulrio.

- Noise!!! - exclamei barulho. Ouvi de volta algumas palavras e respondi de novo.

- Education, please!!!

Uau, eu era quase uma norte-americana. Gritei com o vizinho e ainda pedi educao (por favor!). Mas antes que eu pudesse dizer mais alguma frase inteligente, a campainha tocou.

Na porta, estava o meu vizinho. Ele deve ter tido vontade de conhecer a vizinha-que-fala-como-o-ET. E como eu no sabia o que dizer, fiquei parada, esperando que ele me dissesse alguma coisa com mmica e eu entendesse.

- Voc tambm  brasileira? - ele me perguntou, em portugus.

- Como voc sabe? - respondi, espantada.

- Conheo a Viviane, ela  brasileira. E ns tambm.

- Ns... quem?

- Eu e meu roommate, meu colega de apartamento - respondeu o vizinho. No era possvel conhecer mais um vizinho na minha vida em to pouco tempo! Quem  que conhece dois vizinhos assim, de maneira desastrosa? Mas, de alguma forma, foi diferente conhecer aquele estranho. Ele no era como Theodoro. No era to bonito como Tho, mas tinha um ar que me atraa. Mesmo sabendo que era ele quem fazia o barulho no apartamento de cima.

- No sei por que voc veio aqui, desculpe, mas  que o barulho estava me incomodando.

- Vim conhecer voc - respondeu ele, sem muitas explicaes. Deu um sorrisinho de canto de boca, mexeu nos cabelos e prestei ateno no seu rosto quadrado e com barba por fazer. O meu vizinho tinha um furinho no queixo, cabelos pretos e olhos verdes. Os traos eram rudes, quase como os de um lutador que j apanhou muito. Havia uma cicatriz na testa, prxima ao olho direito, e ele me olhou fixamente. No soube o que responder.

- E a, Alan,  brasileira ou no ? - perguntou um outro rapaz, enquanto dava uma batida em suas costas e me olhava como se eu fosse um rato de laboratrio.

- Se est falando de mim, eu sou e entendo o que voc diz.

- Droga, perdi a aposta! - disse o rapaz para ele mesmo, deu um soco no ar e depois entregou uma nota para o outro vizinho. - Ah, eu apostei que voc no era latina, mas errei - disse ele, j olhando para mim. - A propsito, muito prazer. Eu sou o Caio. E esse aqui  o Alan, se ele ainda no se apresentou.

- Prazer. So vocs que esto jogando bola no apartamento de cima, no ? Muito prazer.

- Nossa, ela  brava, Alan. Cuida da vizinha que estou atrasado para o trabalho. Tchau, vizinha - e saiu correndo.

- A aposta foi uma brincadeira - disse o vizinho mais misterioso e de poucas palavras. Em nenhum momento, desde que bateu em minha porta, disse desculpas, seja pela brincadeira com a aposta ou pelo barulho. Mas ele sorria de uma maneira que me deixava desnorteada. Apesar de ser desenvolta em muitas situaes, aquele rapaz me deixava sem ter o que dizer, e eu no sabia se aquilo era bom.

Nessa hora, o meu celular tocou. Estava sobre a bancada da cozinha, prximo  entrada do apartamento, ento pedi licena para atender a ligao e o vizinho concordou com a cabea.

- Mel,  voc?

- Brbara?

- Sou eu mesma! Melissa, voc foi viajar e nem contou nada! O Cristiano disse que voc foi embora e no deu sinal de vida, ento eu tive de ligar para o seu apartamento. Seu irmo explicou a histria dos Estados Unidos, mas no soube dar detalhes. Onde voc est?

- Voc quer saber para contar para o Cristiano?

- Claro que no, Mel, que absurdo! - ela riu. Mas eu no respondi.

- Estou bem aqui, e voc? - despistei.

- Na verdade, eu queria saber quando voc vai voltar porque quero te pedir umas coisinhas da, pode ser? Maquiagem, perfume e um tnis. Deve ser muito bom fazer compras nos Estados Unidos, no ? - ela me perguntou.

- Babi, no sei, eu cheguei hoje e...

- Que emoo! - ela me interrompeu. Percebi que Alan havia colocado a cabea para dentro do apartamento e que procurava de onde vinha a minha voz.

- Bom, ento voc est bem, n? - perguntei mais uma vez, mas ela no perguntou como eu estava.

- Est tudo timo aqui, Mel. Volte logo! Agora preciso desligar que Sara Lara est chegando aqui na redao e hoje  dia de fechamento... Tchau! - mas no tive tempo de me despedir. Talvez eu no devesse atender a todas as ligaes.

Voltei para a porta do apartamento e Alan estava esperando de costas, olhando para o corredor coberto que levava a todos os apartamentos trreos como aquele em que eu iria morar. Alan tinha os ombros largos e vestia uma camisa, cala preta e sapatos. Quando virou, sorriu e me fez um convite.

- Quer conhecer Newport? Fica aqui perto,  uma cidade bacana e tem um aqurio incrvel. Voc gosta de aqurios? - perguntou.

- No sei, nunca fui a nenhum, eu acho.

- Quer ir agora? - e ergueu as sobrancelhas.

- Eu... eu no sei...

- Falta voc se apresentar - disse ele.

- Sou Melissa.

- No somos desconhecidos anymore -, disse, misturando ingls ao portugus correto. Mas ramos desconhecidos em uma situao estranha. Mesmo assim, eu no tinha por que ter medo de sair, ele era meu vizinho, eu sabia at onde morava. Pedi um tempo para buscar minha bolsa e aceitei o convite.

Foi constrangedor entrar no carro de um estranho, mas Alan exercia uma fora sobrenatural sobre mim. Seria com todas as mulheres? Era um rapaz educado, de poucas palavras e tranquilo, mas, quando sorria, era ainda mais charmoso. Fomos at Newport, uma cidade no estado do Kentucky a poucos minutos de Mason.

Ao chegar, percebi que havia me esquecido de trocar dinheiro. Na bolsa eu tinha apenas meu passaporte, algumas notas de real e de pesos uruguaios. Que vergonha!

- Alan, eu preciso te pedir uma coisa... - disse, com a cabea baixa e as mos vasculhando as notas na bolsa, com a esperana de achar algum dlar perdido. - No troquei dinheiro e...

- No se preocupe, o passeio  por minha conta - disse ele com calma.

- Mas eu fao questo de pagar depois.

- Em outro dia. Que tal conhecermos o Cincinnati Art Museum algum dia desses? Eu sempre quis ir l, mas nunca encontrei ningum que gostasse de arte para ir comigo. Voc gosta?

- Adoro! Ento eu topo.

Eu me diverti muito no aqurio. Havia tanques gigantes, e pude ver de perto espcies que nunca tinha visto. O aqurio no tinha somente peixes - um dos espaos era reservado para aves. L dentro, com elas soltas, podamos aliment-las e tirar fotos. Gostei quando alguns periquitos subiram na minha cabea e pedi que Alan tirasse uma foto com meu celular. Enviei uma mensagem com foto para mame, Tho e Sam.

- Ainda tenho uma surpresa - disse Alan na sada do aqurio.

Seguimos rumo a Covington para fazer um passeio em um barco que se chamava River Queen, a Rainha do Rio. O passeio inclua jantar, e eu nem podia acreditar que estava em um lugar to bonito, chique, elegante e tudo de bom com aquela roupinha de viagem, toda desmazelada e despenteada. Conhecemos a cabine do comandante, que era um senhor simptico e falante - embora eu no tenha entendido nada do que ele disse -, e Alan contou que ele nos desejou boa noite e bom passeio.

Foi no barco que pudemos conversar um pouco mais. Alan me observava com ateno, o que me deixava lisonjeada, mas incomodada ao mesmo tempo. O passeio pelo rio, j ao anoitecer e com as luzes da cidade brilhando, foi lindo. Sentamos para o jantar, e ele fez vrias perguntas sobre a minha vida. No foi como conhecer um amigo, foi diferente. No me expus totalmente. No fui falsa, fui verdadeira em tudo, mas com ressalvas. Era mais doce nas palavras, deixei de contar algumas coisas - no iria, no primeiro encontro, dizer que meus tios aprontaram uma cilada para minha famlia e que acabamos quase sem dinheiro e nem ao menos diria que meu sonho era conhecer o mundo.

Eu me percebi medindo as palavras com cuidado, escolhendo as melhores expresses para contar fatos da minha vida e sorrindo a cada palavra que ele me dizia. Foi natural deixar de ser natural, no falar alto ou absolutamente tudo o que eu pensava, como sempre fui. Com Alan foi diferente desde aquele primeiro dia.

Depois de contar onde nasci, por que fui parar em So Paulo e por qual motivo estava nos Estados Unidos, quem eram meus pais, meu irmo e minha melhor amiga (eu no contei sobre Tho), resolvi que deveria ser gentil e fazer algumas perguntas. Estava curiosa sobre aquele homem na minha frente. Havia um mistrio encantador nele.

- Agora quero saber um pouco sobre voc. Por que se mudou para c? - perguntei. Na verdade, eu queria saber quando ele havia se mudado, com quem, por qual motivo e at quando ficaria.

- Sou professor de ingls, ento achei que seria bom passar um tempo aqui para estudar e aperfeioar o idioma - respondeu ele, sem nada a mais, nada a menos. Serviu uma taa de vinho a ns dois e parecia ter o controle da conversa. - Tenho 24 anos, j morei na Inglaterra quando era adolescente e logo comecei a dar aulas de ingls. Cheguei h dois meses, estou na casa de um amigo e no sei quando volto para o Brasil. - Alan terminou a frase quando queria e no disse mais nada sobre sua viagem, seu trabalho, sua famlia ou qualquer outro assunto pessoal.

Brindamos com as taas e, enquanto eu bebia o vinho, de olhos fechados, notei que estava tremendo. Seria medo daquele encontro? Coloquei a taa na mesa e senti que Alan colocou sua mo sobre a minha. No tirei, no incentivei, apenas sorri com os lbios fechados. O clima parecia denso, pesado, estranho e agradvel. Tudo ao mesmo tempo. Nunca sentira nada parecido, e embora no estivesse confortvel, achei bom saber que algum se interessava por mim.

A noite acabou com mais alguns casos sobre o meu trabalho no jornal, minhas histrias de reprter e da poca de faculdade, mas nem soube, ao menos, o que ele havia estudado. Voltamos para o condomnio e ele me deixou na porta do meu novo lar. Deu um beijo demorado no meu rosto e me lembrou:

- O prximo passeio ser ao museu, no se esquea.

Enquanto eu acenava para Alan, recebi uma mensagem de texto no celular. Era Michel.

Fofa, entre na internet. Tenho uma surpresa pra voc.



Chicago


Terceira maior cidade dos Estados Unidos, Chicago
 est localizada em Illinois e  margeada pelo lago
 Michigan.  um dos maiores centros empresariais do
 mundo, mas mantm o charme de uma cidade que
 sabe receber bem os turistas. Sua populao  de
 quase trs milhes de habitantes e  conhecida como a
 Cidade dos Ventos.

Fechei a porta e continuei pensando no dia que tive com Alan. Liguei o computador e entrei no MSN. Troquei o usurio da mquina, logo meu irmo me chamou, digitamos algumas palavras e ele me enviou um convite para cmera. Ento eu vi Michel, Tho e Samantha na tela. Senti saudades como se eu estivesse havia anos longe de cada um, mas tinham se passado apenas alguns dias desde que a aventura comeara.

Todos falavam ao mesmo tempo e a conexo travou. Reiniciamos tudo e, quando retornei, disse que deveriam falar pausadamente, um por um, porque aquele micro era muito velho. Foi ento que Michel deu a ideia de comprar um notebook pra mim.

- Est louco? No tenho dinheiro ainda! - disse ao meu irmo.

- Compre um usado no Ebay - sugeriu ele.

- Eu acho que nunca devemos comprar eletrnicos usados, e voc ainda pode usar o computador da casa sempre que quiser, Mel - ponderou Tho. Eu tambm achava que no deveria comprar eletrnicos usados, mas se era a nica alternativa para ter meu computador, inclusive nas viagens que eu faria, achei uma boa ideia.

- Quero ver Lady Gaga! - logo pedi. Ento algum trouxe a gata e a colocou na frente da cmera. Comecei a dizer Lady, Lady, Lady repetidamente, e ela parecia procurar de onde vinha o som. Sentia falta da minha companheira felina. - Esto cuidando bem dela? - completei. E recebi um sim bem alto e em unssono. Ento rimos, e eles colocaram Lady na frente da cmera do computador para que eu a visse mais uma vez. Que saudades senti daquela gatinha preta de olhos amarelos!

- Adorei a surpresa! - disse. - Alis, Tho, o que voc est fazendo em casa?

- A Samantha me contou que eles iriam falar com voc pela internet e me chamou - disse ele.

- Ah... - eu s suspirei. Mas desde quando Sam era amiga de Tho?, perguntei a mim mesma. Melhor assim, afinal, ter amigos que no se gostam  terrvel, acabam nos dividindo. Foi quando Michel soltou a novidade: Caroline e Lauro estavam namorando.

- Voc acredita, Mel? O Lauro e a Carol juntos? Eles se conheceram aquele dia aqui em casa, na sua festa surpresa de aniversrio, lembra? Ento, depois, parece que ele a chamou para sair e assumiram mesmo que  namoro, no  ficada, no. E ela  mais velha que ele! - disse Michel, indignado.

- Fofo, deixe de ser preconceituoso. - Eu o chamava assim desde que ramos crianas, quando todos o chamavam de fofo porque ele tinha bochechas rosadas. Ele ento comeou a me chamar de fofa, e o apelido nunca mais mudou.

- Eu acho que voc deveria pensar melhor no que diz, Michel. Que absurdo - disse Sam, olhando sria para ele.

- At porque vocs so s dois anos mais novos que ns. Isso no  nada. Fazia diferena quando ramos crianas e voc rabiscava a cabea das minhas bonecas, mas, hoje em dia, qual a diferena? Voc acabou de se formar, tem uma profisso, e o mesmo vale para o Lauro. Ele no trabalha com produo de TV? Ainda por cima, fez jornalismo como a Carol, ento deixe os dois em paz.

- At porque nada garante que um homem mais velho  mesmo a melhor companhia para uma mulher - disse Sam, ressentida pelo passado.

- Sam, deixe o Michel, ele est pensando nele mesmo porque, com certeza, perdeu o amigo de baladas.

- Como voc sabe? - meu irmo questionou como se eu tivesse bola de cristal.

- Eu te conheo desde que voc nasceu, seu bobo. Mas isso no significa que voc no pode mais sair. Voc tem outros amigos - disse, quando ouvi um barulho vindo do andar de cima. Mas muito mais forte que a primeira vez, como um cabo de vassoura batendo repetidas vezes no cho. Meu teto parecia que ia desabar, e at mesmo os meus amigos ouviram.

- Que barulho  esse? - perguntou Tho.

- Um instante, pessoal, eu j volto. - A cmera continuou ligada e eu interfonei para Alan. Precisava saber o que estava acontecendo.

- Alan?

- Melissa?

- O que est acontecendo?

- Voc ligou por que est preocupada ou para me dar uma bronca?

- Porque fiquei preocupada, parecia um cabo de vassoura batendo com fora e...

- Era um cabo de vassoura mesmo - ele riu com doura. - Eu s queria te chamar...

- Mas existem mtodos mais comuns de chamar uma vizinha - disse, com a voz atropelada. Estava confusa.

- S queria saber se voc ainda se lembrava de mim.

- Ah, mas  claro... - disse e observei, do outro lado da sala, a tela do computador. Michel, Theodoro e Samantha conversavam, mas eu no conseguia escutar.

- S queria te dar um beijo de boa noite - completou Alan.

- Ento... boa noite, vizinho - respondi baixinho e virando o rosto para que meus amigos no pudessem ver como eu reagia  conversa no interfone.

Alan soltou um beijo e desligou. Minhas pernas tremiam quando voltei para o computador. O que aquele homem tinha de to especial que me atraa? Por que ele era de poucas palavras, mas todas surtiam efeito impactante sobre mim? No sabia nem ao menos quem ele era de verdade, mas j imaginava que tocaria a campainha e me agarraria com um beijo que eu nunca recebi antes.

- Quem era? - perguntou Samantha.

- Um vizinho. Eu fui ver se estava com algum problema por causa do barulho.

- Eu achei que era seu vizinho preferido - disse Tho, na brincadeira.

- Voc  meu vizinho preferido no Brasil - desconversei e mandei um beijo para a cmera. Tho deu um sorriso de canto de boca que eu no soube interpretar.

Depois de mais algumas risadas, perguntei a Tho qual cidade ele sugeria que eu visitasse, e ele me disse Chicago, sem dvidas. Ele havia estado l uma vez, gostou muito da cidade e achava que no poderia ficar de fora do roteiro Amrica sobre rodas. Desligamos as cmeras, procurei na internet o caminho para chegar a Chicago, imprimi a rota e busquei algumas informaes sobre diverso na cidade. Antes de dormir, escrevi no meu recm-criado blog.

Quando acordei no dia seguinte, montei uma pequena mochila com algumas roupas. Foi quando percebi que no deveria ter ouvido Tho. Levei roupa para uma semana e passaria no sabia quantos dias! Tentei ficar calma e pensei que, afinal, no precisamos de nada alm da roupa que estamos no corpo e de outra extra, que lava e seca. Assim,  um ciclo que no se rompe: uma lava e seca e voc usa a outra, depois troca e est tudo bem. E eu poderia comprar roupas novas l! tima desculpa.

Cheguei a Chicago por volta de 16h30, mas fiquei surpresa porque na cidade ainda eram 15h30, por causa do fuso horrio. Deixei o carro em um estacionamento ao lado do pequeno hotel e sa para conhecer a cidade. Na mesma noite, visitei a Sears Tower, que  considerada uma das maiores torres do mundo. L de cima pode-se avistar os estados de Illinois, Indiana, Michigan e Wisconsin. Ao sair, andei a p como poucas vezes havia feito na vida. Caminhei por toda a Michigan Avenue, a maior avenida da cidade, que estava iluminada e linda.

No dia seguinte, resolvi tomar caf da manh no hotel e pedi um cereal. Afinal, o que de mal poderia haver em um simples cereal? Pedi quente, e s depois percebi que aquilo era um mingau. Na verdade, uma papa cozida e sem gosto. Desisti de comer e sa. Conheci o Shedd Aquarium e cheguei no momento em que aconteciam as visitas aos golfinhos e baleias. Pela primeira vez vi uma beluga, baleia branca conhecida como baleia do rtico e que parece um bicho gigante de pelcia.

Lembrei do passeio com Alan. Ele parecia to atencioso e interessado na minha vida, mas eu ainda no sabia muito sobre a sua. Conhecer um homem sedutor e que me despertava interesse pelo mistrio era menos tedioso do que uma histria tranquila. E eu definitivamente tinha medo de relacionamentos que podiam resultar em casamento. Mame e papai se casaram quando ambos tinham 20 anos. Ela estava grvida do meu irmo mais velho, e depois disso nunca mais se separaram. Eu acredito no amor dos dois, mas me questiono se o amor  assim, sereno, ou se  uma montanha-russa de emoes. O que seria o amor, afinal?

Minha me  artes, a nica filha entre homens, descendente dos italianos Marini. O meu av nasceu na Itlia e veio para o Brasil, mas eu pouco sei de sua histria. At hoje, o nico contato com a famlia  com um primo italiano, com quem converso por e-mail e pelo Skype, o Giuseppe. Seu av Lino, que ficou na Itlia, era irmo de meu av Gaetano, que veio para o Brasil. Ficamos amigos desde que nos descobrimos na internet.

Mame faz caixas de madeira decoradas e trabalhos com vidro. Eu acho lindo, ela tem um dom para realizar trabalhos manuais. Alm de vender as peas, d aulas em casa e em um ateli da cidade. Papai  professor de matemtica,  racional e objetivo, mas o pouco que fala  certeiro. Passei a vida vendo os dois trocarem presentes em dia dos namorados, minha me recebendo flores do meu pai, e meu pai, cestas de caf da manh preparadas pela minha me - sendo que ela chegava a decorar as xcaras.

Mas meus pais nunca conheceram nada alm de Bady Bassitt, a no ser So Jos do Rio Preto, em algumas ocasies, e So Paulo, na minha formatura e na de Michel.

Eu queria conhecer o mundo. Ser livre.

Mame sempre me prendeu muito, at que no pde mais, quando fui fazer faculdade em So Paulo. Ela no era apenas uma me superprotetora como todas as outras mes mas tambm uma pessoa com medos reais de quem havia perdido um filho em um acidente de carro. Ele era criana, estava no banco da frente com um dos irmos de minha me em viagem para So Jos quando o carro capotou. Meu tio estava embriagado, meu irmo Marcos morreu com dez anos e minha me ficou com uma filha de nove anos e um filho de sete para cuidar. Nessa poca, meu pai comeou a dar mais aulas em So Jos, de manh,  tarde e  noite, e mame chorava com medo de que ele morresse na estrada tambm.

Papai percebeu, aos poucos, que no poderia fugir da responsabilidade de criar dois filhos e que no tnhamos nada a ver com a morte do nosso irmo. Nosso tio no parou nas besteiras que fez na vida. E no somente ele, mas tambm seus outros dois irmos conseguiram fazer que minha adolescncia fosse um caos. Mame no poderia ter tido irmos piores. Papai era filho nico, o que era um alvio. Nasceu em uma famlia de espanhis, os Moya.

E quando a bomba financeira estourou na famlia, papai j estava dando aulas somente em Bady Bassitt. Eram aulas na escola e particulares, tanto para alunos da cidade como de municpios vizinhos, j que ele era muito conhecido pelas musiquinhas para decoreba de frmulas. Foi assim que aprendi alguma (pouca) coisa de matemtica para passar no vestibular.

J as msicas que mame cantava no serviam para mim. Eu quero a sorte de um amor tranquilo, na voz de Cazuza, me soava desesperador. Ser que o amor deveria ser tranquilo?

O passeio seguinte foi no The Hancock Observatory, um prdio muito alto, no to alto como a Sears Tower, mas que, justamente por no ser to alto, acaba nos dando uma excelente viso da cidade. No   toa que o local  conhecido como a melhor viso de Chicago. Abaixo da torre estava o famoso restaurante The Cheesecake Factory. Comi uma massa e, em seguida, tentei pedir um cheesecake de nozes. Solicitei ao garom pecan. E ele voltou com um prato de bacon.

No ingls macarrnico, perguntei o que era aquilo, e ele me respondeu algo como Seu bacon, senhora. Mas eu no queria bacon, eu queria pecan! E ento percebi que meu sotaque absurdo o confundiu. Dei risada e apontei com mmica para o cardpio. Enfim eu comi o delicioso doce de queijo americano, o famoso cheesecake de nozes. Pecan.

No dia seguinte, segui para o Adler Planetarium e depois para o The Field Museum, o museu de histria natural.  noite, eu conheci o Navy Pier. O lugar  como um brao, todo rodeado pelo Lago Michigan. A viso  nica, de todos os prdios e o lago. H muitas lojas e restaurantes por l. Jantei no Bubba Gump, o restaurante inspirado no filme Forrest Gump e cuja especialidade  camares. Gostei das placas que indicavam Go Forrest Go (Vai, Forrest, Vai) quando voc quisesse que o garom atendesse ou Stop Forrest Stop (Pare, Forrest, Pare). Pedi uma bebida gelada colorida e fiquei brincando de virar a placa. Quando meu prato chegou, mal pude encostar, de to quente que estava. Comecei a assoprar.

- Do you blbl blbl bl? - disse o garom, um jovem rapaz de olhos azuis que parou ao lado da minha mesa e agachou. No entendi nada do que ele disse, mas vi quando piscou para mim. Um gato norte-americano piscou para mim, disse algumas coisas (que deveriam ser bacanas, eu supunha) e eu no sabia sequer responder. Eu sabia que ele havia me feito uma pergunta, mas diante da impossibilidade de responder, sorri.

- You-have-a-beaufitul-smile - disse ele, pausando em cada palavra para que eu pudesse entender. Entendi algo como meu sorriso bonito. Eu queria dizer algo para ele, mas o qu? No sabia falar nada em ingls! Abri a bolsa e peguei o pequeno dicionrio de traduo. Acho que eu deveria dizer que gostei muito do lugar, a bebida era tima e a comida estava quente, mas parecia muito boa.

- Nice-place-thank-you-hot - disse. Procurei cada palavra cuidadosamente no dicionrio.

Ele arregalou os olhos azuis e continuou a conversa:

- Oh, you are hot too! - disse ele com a cara de um leo predador, enquanto passava a mo por trs do meu pescoo. O que era aquilo, afinal? Eu no disse que ele era quente, e sim que a comida estava quente! Que homem doido! Tirei sua mo de mim e, sem saber o que responder, peguei a plaquinha de Go Forrest Go e mostrei pra ele. Em seguida apontei o dedo indicador para longe de mim, como quem quer explicar Cai fora.

No dei tip, a gorjeta. Voltei para o hotel no ltimo dia de Chicago. E percebi que tinha de fazer aulas de ingls urgentemente. Eu precisava ligar para Alan no dia seguinte.



Roanoke Rapids


A cidade, localizada na Carolina do Norte, possui um
 belo teatro para 1,5 mil pessoas, construdo em 2006,
 o Roanoke Rapids Theatre. E embora no esteja no livro
 dos recordes, a cidade afirma que possui o museu mais
 comprido do mundo, o Roanoke Canal Museum and
 Trail, que preserva a histria do canal e a importncia
 dele para a economia local.

Fiz a minha triunfal estreia no mundo das compras pelo computador. Justamente para comprar um... computador! Pesquisei todos os preos das lojas prximas na semana seguinte  viagem para Chicago, mas no havia nenhuma promoo ou valor que eu pudesse bancar na minha situao de recm-desempregada-com-novo-emprego. Decidi que, para poder levar meu prprio notebook para as viagens, compraria um usado no Ebay. Segui as instrues de Michel, dei o lance e acompanhei com ansiedade o e-mail de vitria chegar. Ou eu era muito sortuda ou o computador no valia nada.

No mesmo dia, entrei em um site de viagens e fiz meu cadastro para dar lances em dirias de hotis. Encontrei uma pechincha por um hotel maravilhoso em um dos meus prximos destinos: a capital do pas, Washington, no distrito de Columbia. Paguei e tinha certeza de que a agncia ficaria muito contente com a minha economia. O hotel devia custar mais de 200 dlares a diria, mas eu consegui por 40, algo que parecia inacreditvel. Foi quando entendi que naquele pas promoo  mesmo promoo. E que os sites com leilo podem ser levados a srio.

Enquanto fazia as compras pela internet, esqueci um bolo no forno. A verdade  que eu consegui unir duas coisas que no so minhas especialidades: memria e bolos. Eu mal sabia fazer a receita que consegui com minha me pelo telefone (ela ainda no havia instalado um programa para conversarmos online) e estraguei o pouco de bolo que poderia ser comestvel. O cheiro de cenoura queimada tomou conta do apartamento.

Um barulho na porta anunciava que deveria ser meu vizinho. Quando cheguei de Chicago, telefonei para Alan e marquei aulas particulares todos os dias em que estivesse em Mason, uma hora por dia. Eu iria me dedicar para aprender o idioma e conseguir me comunicar com os americanos. As melhores histrias no esto nas paisagens, mas no que as pessoas podem contar sobre elas.

- Voc est tentando assassinar algum com esse bolo? - disse Alan rindo quando entrou para me dar sua primeira aula.

- No exagere, teacher - brinquei. Diria que no gosto de cozinhar e prefiro comer, mas os olhos de Alan me hipnotizavam para que eu nunca dissesse o que eu queria. Exatamente ao contrrio de todo o resto da populao, com ele eu podia brincar de esconde-esconde de sentimentos, o que era excitante, apesar de parecer perigoso.

- Voc no gosta mesmo de cozinhar?

- Eu cozinho bem e sou tima aprendiz - disse. No mentia, porque cozinhava bem miojo com requeijo e salsicha e sempre fiz o melhor brigadeiro que as pessoas poderiam experimentar, mas cozinhar, de fato, no estava nos meus planos. Alan me olhou de forma estranha, um tanto indignado, e eu poderia at arriscar que ele esperava que eu dissesse que era excelente cozinheira e que nasci para cuidar dos outros. Decidi fazer outro bolo para agrad-lo e tirar a m impresso de destruidora de receitas. Pedi que se sentasse e que e ficasse  vontade na mesa, e de l ele poderia falar comigo e me ver enquanto eu estava na cozinha.

- Qual  o seu sabor preferido de bolo? - perguntei.

- Chocolate - respondeu ele. Fcil, pensei. Havia chocolate em p e tudo o que precisava para fazer uma massa gostosa. Peguei os ingredientes e coloquei sobre a mesa, um a um. leo, farinha de trigo, fermento, ovos... Notei quando Alan arrumava seu material sobre a mesa e no consegui deixar de fit-lo. Ele era to misterioso. Por que estava nos Estados Unidos? O que estudou na faculdade? Ser que morvamos em bairros prximos em So Paulo?

Meus pensamentos foram interrompidos por uma sensao gelada nos ps.

Trs ovos quebrados.

- Melissa, o que aconteceu? - Alan veio  cozinha.

- Eu... eu no sei... - e no sabia mesmo. Enquanto eu o observava, deixei os ovos carem. E ento me deu uma vontade de rir, como Tho riu comigo quando eu estava com a mscara laranja no rosto. Eu quis rir da situao ridcula, do cheiro ruim, do cho sujo... Mas Alan no parecia achar nada divertido, e senti vergonha por ser to infantil.

- Voc precisa prestar mais ateno  atividade que estiver fazendo, Mel - disse ele.

- Mas... no foi nada, no ? - tentei consertar.

- Poderia ter sido - ele encerrou a histria, e eu desisti de fazer o bolo de chocolate. Preparei brigadeiro e comemos direto na panela depois da aula que, alis, foi tima. Alan era inteligente, perspicaz e sabia como explicar as regras e dar exemplos. Em pouco tempo eu poderia comear a entender melhor o ingls e deixar de dar mancadas.

Deitamos no cho da sala com a panela de brigadeiro para assistir  televiso. No era mais aula, mas Alan insistia que eu comeasse a assistir a programas norte-americanos para me familiarizar com o idioma, alm de filmes. Combinamos de ir ao cinema, mas comearamos no primeiro dia de aula a treinar com a TV. Na tela, o filme Em algum lugar do passado, e como eu j o havia assistido milhares de vezes, decidi tentar entender os dilogos que eu sabia quase de cor.

- O filme  muito lento, mas, para comear,  interessante - comentou ele antes de pegar mais uma colher de brigadeiro. Estvamos lado a lado no cho da sala, e eu podia sentir seu brao encostando-se ao meu. Recebi um torpedo, pois ouvi o celular tocando na cozinha, mas no levantaria dali. Estava me sentindo acolhida e confortvel, ao mesmo tempo em que tremia.

Quando Christopher Reeve encontrou o quadro de sua amada na parede e a reconheceu, eu olhei para Alan e vi que ele me observava. Com cuidado, ele tirou a panela de brigadeiro que estava entre ns e colocou sobre o sof. Ainda deitado ao meu lado, estendeu o brao direito e passou a mo no meu cabelo. Acariciou meu rosto e disse que eu deveria fazer uma traduo.

- Faz parte da aula? - perguntei baixinho.

- Traduza o que voc est sentindo agora - disse ele. Mas no daria tempo de dizer nada a mais. Alan me beijou com calma e continuou me segurando at que o beijo se tornasse rpido, decidido e quente. Ele debruou seu corpo sobre o meu e me olhou sem dizer mais nada. Eu sorri e fui beijada novamente. Depois que nossos corpos se enroscaram, eu o afastei delicadamente e sentei. Sorri e peguei a panela de brigadeiro. Levantei a sobrancelha como quem pergunta quer mais? e ele aceitou uma colher recheada com um Yes, honey. Eu achei lindo ser chamada de mel em ingls, que  como querida. Suspirei.

- Alan... Eu vou viajar novamente na prxima semana.

- Eu vou com voc - respondeu ele antes mesmo de eu dizer qual era o destino.




O Skype tocou quando eu fazia uma lista do que deveria levar para a prxima viagem. Na agenda, anotava as cidades, os passeios e o que faria em cada um dos dias em que estaria fora. O esquema era to perfeito que anotei horrios de chegada e sada, abertura de museus e tempo de permanncia. Corri para o computador para atender  chamada.

- Estava ocupada, Mel? - perguntou Theodoro.

- Estou empolgadssima com a viagem. At porque achei interessante passar por uma cidade de que eu nunca tinha ouvido falar, depois conhecer a capital do pas e, por ltimo, o grande final na cidade iluminada. Tho, vai ser maravilhoso. Estou fazendo uma lista de tudo o que quero fazer.

- Voc est diferente. E eu te chamei porque voc no respondeu meu torpedo.

- Diferente como? Vai ser uma viagem muito, muito, muito linda - disse com um sorriso bobo nos lbios. Como ele havia percebido que eu estava diferente? Feliz era diferente? Desde que Alan sara do apartamento, comecei a anotar o que deveria fazer para a viagem, planejando cada segundo e desenhando coraes com nossas iniciais no canto da ltima pgina da agenda. Que eu arrancaria para que ele nunca visse, com certeza.

- Diferente porque voc repetiu muito trs vezes. Eu sei que voc est feliz, mas imaginei que, quando ficasse feliz, era como no dia em que me contou que seu sonho  viajar o mundo. Parece que agora voc est feliz de uma maneira diferente. O que houve?

Ento eu tive medo. De dizer a verdade e mago-lo e de mentir e magoar meu amigo ainda mais no futuro. Mas ele no ficaria triste por saber que eu estava feliz,  o que pensei quando decidi que ele deveria saber tudo sobre mim. Eu no tinha vergonha nem medo de Tho. Ele era o melhor amigo homem que eu j havia tido na vida, sem contar as pessoas da minha famlia.

- Eu... estou apaixonada, Tho.

- h?

- ... Assim... Estou gostando de um cara - disse.

- Mas voc mal chegou aos Estados Unidos e se apaixonou por um norte-americano? Imagine se voc falasse ingls, sua danadinha... - Ele disse com ternura, mas distncia. Devia ser como cime de um irmo mais velho. Ser que Michel tambm ficaria enciumado quando soubesse que eu estava... hum, saindo com Alan?

- Ele no  norte-americano, Tho.  brasileiro.  meu professor de ingls e meu vizinho do andar de cima.

- Voc sempre gostou de conhecer seus vizinhos? Seria bom se voc no se mudasse muito na vida, ou eu vou ter um ataque do corao de tanto cime - brincou. - O que esse cara foi fazer a nos States, hein? Me conte mais sobre ele, preciso saber de quem tenho que te proteger.

- Ele  professor de ingls no Brasil e aqui d aulas de ingls para estrangeiros como eu. Tambm faz uns cursos para professores - disse, mas sem saber o que responder sobre sua vinda para o pas. Porque a verdade  que eu sabia pouco sobre Alan.

- Namorar  timo, Mel, mas cuidado com quem voc coloca dentro de casa. Se voc no conhece muito esse... Como ele se chama mesmo?

- Alan.

- Ento, se voc no conhece muito esse Alan, v com calma no relacionamento. Por que voc no se torna amiga dele e depois vai saber se ele  legal para namorar?

- No estou namorando, Tho. No ainda.

E como ele imaginava que eu poderia ser amiga de Alan para ver se ele era um cara bacana e s depois beij-lo? Em que sculo estvamos? Mesmo eu, com medos e inseguranas, careta como sempre fui, no tive receio de beij-lo. No havia mal nenhum em um beijo e em... viajar juntos. Mas Tho no precisaria saber disso.

- Ele vai comigo para Roanoke Rapids - contei. Porque Tho era da minha confiana e era para ele que eu queria contar tudo o que se passava comigo naquele pas estranho.

Primeiro ele ficou em silncio, depois disse que precisava desligar.

- Por que no me manda as ltimas fotos por e-mail? Estou curioso! - disse ele. Eu concordei e desligamos.

A viagem para a Carolina do Norte, na cidade de Roanoke Rapids, acabou se encaixando perfeitamente na exigncia do chefe do Theodoro, que queria que eu passasse por muitos estados e tanto por lugares desconhecidos quanto muito conhecidos. A escolha foi de Alan, que sugeriu passarmos por l, j que tinha amigos na cidade. Depois seguiramos o meu roteiro. O contraponto entre cidades grandes e pequenas seria interessante, e dessa vez eu levaria o meu notebook para escrever os relatos. Ele chegou dois dias depois da compra no site, pois o vendedor tambm estava no estado de Ohio. E depois de uma semana em Mason eu j estava pronta para outra aventura. Daquela vez eu sabia que seria muito maior.

Procurei planejar cada detalhe da prxima viagem, porque ficaria mais tempo fora de Mason. No levaria todas as roupas e queria ter certeza de que tudo daria certo. Desde a adolescncia, peguei a mania de anotar tudo o que deveria fazer para que nada sasse errado, como havia acontecido com minha me. Ela nasceu em uma famlia em que s os homens tinham palavra. E foram eles que destruram a minha famlia.

Mame me ligou quando eu pensava nela, como se tivesse uma bola de cristal. Todas as mes devem ter essa bola escondida no armrio, e eu s serei apresentada a esse mundo quando me tornar me tambm. Contei do planejamento da viagem e de todos os mnimos detalhes que eu pretendia cumprir nos prximos dias. Foi quando mame me lembrou do ditado yiddish que tia Clara sempre mencionava. Era uma amiga baiana da famlia que morou durante muitos anos em Bady e voltou a morar em Salvador quando eu me mudei para So Paulo.

- Filha, no se esquea do ditado: Enquanto o homem planeja, Deus ri.

- s vezes eu tenho a impresso de que minha vida  uma piada mesmo sem eu planejar - respondi, em meio a risos.

Eu tinha medo de sofrer como minha me e medo de no sentir o que sabia que ela sentia, que era ser amada e amar algum que a ama. Tinha receio de ficar estacionada no mesmo lugar por anos, mas tambm cautela para tirar os ps do cho. E entre todas as escolhas que estava fazendo, percebi que meu maior medo continuava sendo encontrar a felicidade.

Eu no sabia se o amor era um sentimento calmo e de mar baixa ou se provocava um tsunami dentro do peito. Homens, alis, pareciam um problema, e no soluo. Meu ex-chefe provou que quem v bunda, no v corao, e que ser demitida bem no dia do meu aniversrio era s o comeo. O cara por quem (acho que) me apaixonei me hipnotizava para que eu nunca falasse o que sentia de verdade - e essa brincadeira parecia excitante e perigosa. Seus olhos me faziam tremer, mas era somente para o meu melhor amigo que eu tinha coragem de contar o que se passava comigo. E ele parecia compreender o que nem eu mesma conhecia, como s os gatos eram capazes. Para tentar me encontrar, descobri que viajar era o que me deixava verdadeiramente feliz, como comer um marshmallow quentinho. Entre listas e tabelas para ajudar a minha pouca memria, aprendi que enquanto o homem planeja, Deus ri. Decidi que deixaria a vida escolher o meu caminho.



Washington


Washington DC, abreviatura para Distrito de
 Columbia,  a capital dos Estados Unidos.  um
 importante polo poltico, mas tambm timo local
 para turistas. O National Mall  um parque que vai do
 Capitlio ao Memorial de Lincoln, passando
 pela Casa Branca e o Smithsonian Institution,
 complexo de museus e parques.

Foram cerca de 10 horas de viagem de carro para a Carolina do Norte, e Alan dirigiu metade do caminho. No consegui segurar o sono e dormi enquanto ele dirigia, mas depois ganhei um sermo sobre a importncia de eu estar acordada para ajud-lo se precisasse. No disse, mas pensei que, se no pudesse descansar, no faria sentido ele dirigir, que me deixasse na direo, mas fiquei quieta. A viagem estava apenas comeando.

Paramos um dia em Roanoke Rapids. O hotel havia sido reservado por Alan, e eu no fiz perguntas. Jantamos fora e eu dormi em um quarto separado e cedo, pois estava cansada da viagem. Alan disse que sairia com alguns amigos.

No dia seguinte, seguimos para Washington, a capital dos Estados Unidos, no distrito de Columbia. Depois de trs horas na estrada, chegamos ao hotel que eu havia reservado pela internet. Levei um susto logo na entrada. Eu era a nica com sacolinhas de supermercado ali. Isso porque, antes de sair de Mason, percebi que meus sapatos no cabiam na mochila que eu levaria, e no queria carregar uma mala muito grande. Coloquei tudo em sacolas plsticas.

Deixamos o carro no estacionamento do hotel, que insistiu para que dssemos as crneas como pagamento, mas conseguimos fazer um acordo e pagar em dinheiro o equivalente. Entramos triunfalmente, afinal, ramos os nicos do espcime estrangerus malokerus no local. Alan parece no ter gostado da experincia e, em vez de rir comigo, fechou a cara at subirmos ao quarto.

O mesmo quarto.

Sim, porque eu no havia reservado um quarto para ele, sendo que eu nem sabia que ele iria comigo. E Alan no se prontificou a pagar outro quarto. Ele entrou como se fosse meu marido, deixou suas coisas em cima da cama, que era de casal, entrou no chuveiro e no disse nada at sair enrolado na toalha branca do hotel. Por trs daquela toalha eu pude ver que sua bunda era ainda mais volumosa que a de Cristiano - mas evitei olh-la.

Alan chegou perto de mim, me envolveu em seus braos e me beijou. Que beijo!

A minha boca e a dele pareciam ter sido feitas uma para a outra, milimetricamente medidas para que se encaixassem de maneira exata. Seu beijo no era babado como o de Lucas, o rapaz da faculdade por quem acho que fui apaixonada durante todos os anos de estudo. Na verdade, ele sempre disse que estava bbado quando ficou comigo, e eu sei que no estava. Ou seja, no havia motivo para tanta baba. O beijo de Alan tambm no era frio nem morno. Era quente como uma chaleira. Era gua fervente.

Foi quando percebi que escorreguei a mo at sua bunda.

No era exatamente um ato obsceno ou uma sacanagem. Ele devia ser meu namorado, e eu estava apaixonada. Colocar a mo em seu traseiro no era nada demais, desde que ele no resolvesse fazer o mesmo comigo naquele momento. Eu poderia fazer o que quisesse, era uma mulher livre, mas no queria um envolvimento completo, estava apenas averiguando o potencial daquele namoro.

Mas quando senti que Alan estava sem a toalha, dei um pulo para trs.

- Ei, o que voc est fazendo?

- Eu quem deveria perguntar, honey...

- Estou com dor de barriga - disse. E sa correndo em direo ao banheiro.

L dentro, trancada, pensei que jamais deveria dizer a Alan o que se passava pela minha cabea, porque ele provavelmente no acreditaria. E no deveria ignorar o que estava sentindo, porque seria traio a mim mesma. Nesse caso, dor de barriga  como dor de cabea nas novelas: resolve qualquer problema.

Quando sa do banheiro, Alan estava vestido e mal-humorado. Comentei que gostaria de conhecer a cidade. Chegamos  estao Woodley Park do metr e descemos na Smithsonian, a regio de quase tudo o que deve ser visto por quem vai para Washington. Chovia, e nessa hora desejei estar em So Paulo para que um camel pudesse nos oferecer um guarda-chuva, mas no foi preciso - na sada do metr um sujeito estava l, oferecendo guarda-chuvas vagabundos a um alto preo, e ns pagamos porque
 precisvamos.

Conhecemos o National Air & Space Museum e o Capitlio, seguimos para o Archives of the United States of America e para a National Gallery of Art. Fomos aos dois prdios, e eu pude ver, pela primeira vez ao vivo, um quadro do Toulouse-Lautrec, pintor francs que ficou conhecido pela criao de cartazes publicitrios para os bordis. Seu estdio particular foi montado em meados de 1880, e os quadros, conhecidos pelas curvas e cores intensas, so um grande legado para quem estuda arte at hoje. Embora gostasse de arte -  o que havia me dito quando nos conhecemos -, Alan no parecia feliz.

Fomos para o National Museum of American History e andamos mais para ver The White House, a famosa Casa Branca. Cheguei ao hotel e baixei as fotos para o meu novo-velho notebook, que eu apelidei de Lesma. Mesmo assim, era timo ter conexo com a internet em qualquer lugar, e pude colocar mais um post em meu blog sobre viagens. At aquele momento, a matria que eu havia escrito sobre ser turista em sua cidade natal, para os paulistanos, era a mais comentada. Eu aprendi a gostar de So Paulo como se tivesse nascido na cidade. E tenho a sensao de quem nasce l acaba adotando metade do mundo.

Senti saudade de casa e dos meus amigos. Como se estivessem conectados a mim, recebi um torpedo.

Saudade, Melzinha. Do seu brigadeiro e do seu sorriso. Tho.

Suspirei de alegria.

Mas... Como assim, Tho?

A mensagem estava assinada por ele, mas vinha do celular de Samantha. O que eles estavam fazendo juntos? O que Tho fazia com o celular de Sam?

Bem que eu deveria ter desconfiado do dia em que eu os vi juntos na cmera. Samantha  bonita, Tho  lindo e... Bem, Theodoro  mesmo um homem espetacular. Por que eu sentia cime dos dois? Eu estava com Alan, que era uma companhia agradvel, e se meus amigos estivessem juntos seria uma boa notcia.

No, no seria. At porque Theodoro tinha namorada.

O que voc est fazendo com o celular da Samantha?

- Para quem voc est escrevendo, Melissa? - perguntou Alan.

- Para Samantha, minha amiga do Brasil.

- Onde voc quer jantar hoje?

- Tanto faz - respondi sem emoo.

- Vamos at Adams-Morgan. Conheo um barzinho bacana por l que toca salsa.

- No sabia que voc conhecia Washington - comentei. A verdade  que eu sabia muito pouco sobre Alan.

Estamos em um restaurante e peguei o celular dela por engano.  o mesmo modelo!

Dessa vez a resposta veio diretamente do celular de Tho. Mas eu no respondi. Pode parecer infantilidade da minha parte ou cime bobo, mas eu temia perder a amizade dos dois se eles ficassem juntos. Assim como tinha cime do meu irmo com alguma amiga minha. Eu no queria perder mais ningum na minha vida. Marcos j havia feito o maior buraco que algum poderia fazer em um corao.

Eu tinha dificuldades em confiar nas pessoas, e quando conseguia acreditar em tudo o que algum me dizia, como acontecia com Tho, o medo era ainda maior.

Na minha famlia, histrias de confiana so exemplos. Na verdade, elas existem justamente porque aprendamos que assim no podemos fazer ou nunca confie plenamente em ningum. Mame teve decepes que no imagino ter com Michel e sei que no teria com Marcos. Meus irmos e eu sempre fomos muito amigos, e mesmo que eles destrussem meus brinquedos e s quisessem brincar de carrinhos no meio da sala, no imagino brigas por causa de dinheiro ou terras.

Primeiro porque no temos nenhuma dessas coisas. Mas, principalmente, porque elas no significam nada perto da famlia. Do conceito de famlia que aprendemos a ter na marra.

Mame era a mais nova de quatro irmos e a nica mulher. Seus pais deixaram uma pequena empresa para os filhos. Tratava-se de uma fbrica de mveis de madeira, instalada em So Jos do Rio Preto. Os irmos mais velhos, Clovis e Francisco, cuidavam de tudo, mas aos poucos o terceiro irmo, Jacinto, tomou sua posio na fbrica. Marcela no deveria cuidar dos negcios da famlia, pois era mulher e aprendera a costurar, alm de outros trabalhos manuais. Machismo besta!

Com a morte do filho mais velho de mame, ela passou alguns meses fora deste planeta. Meu pai era o nico elo entre a realidade e a fantasia que fazia parte de seu novo mundo. Nem mesmo eu e Michel, ainda crianas, conseguamos entender aquela dor. Mas os meus tios, sim. Eles passaram a visitar minha me com frequncia e a inclu-la em todas as decises da empresa, como soubemos mais tarde. Sem condies de decidir nada, ela assinou documentos que jura nunca ter assinado e tomou decises que nunca soube.

Minha me foi enganada pelos irmos no momento mais difcil de sua vida.

A Justia do Trabalho, com a falncia da empresa, confiscou os bens dos scios. E mame, embora nunca tenha pisado na fbrica, era uma das proprietrias daquela empresa. Depois de perder o carro e o pouco dinheiro que tinha no banco, ela percebeu que nunca mais poderia confiar nos seus irmos.

Jacinto, o mais jovem dos homens, estava rico quando mame perdeu tudo. Seus filhos nunca foram prejudicados. Francisco nunca mais voltou  casa dos meus pais depois que mame perdeu os poucos bens que tinha. E Clovis viajou para a Itlia, e nunca mais tivemos notcias dele. Os empregados precisavam receber, e meus pais nunca questionaram a deciso da Justia, mas os salafrrios dos irmos da minha me nunca pagaram um centavo.

Mame no poderia mais ter aposentadoria privada e precisou comear a pagar previdncia social. Era uma maneira de garantir que teria algum dinheiro no futuro sem que os irmos lhe roubassem mais. Isso se a previdncia social ainda existisse quando chegasse a hora de ela se aposentar. Ela sempre trabalhou em casa, mas precisava garantir seu futuro.

Enquanto ela perdia, ns vamos meus tios passeando com carros novos pela cidade. E soubemos que haviam comprado um stio enorme. Minha me nunca mais disse o nome dos irmos em casa, s que, quando um deles faz aniversrio, ela some, em silncio, para seu quarto. Algumas feridas nunca cicatrizam.

Sa com Alan para o bar de salsa em Washington. Danamos, nos divertimos, comemos e voltamos para o hotel. Tomei banho e procurei Dilin na mala. Acendi sua cabea e me perdi nos pensamentos enquanto ouvia o barulho da gua do chuveiro no banho de Alan. Desde aquele beijo e o acontecimento com a toalha no havamos conversado sobre o que aconteceu. O dia havia sido intenso e com muitos passeios.

Eu estava quase dormindo quando ouvi uma risada.

- Mel, voc est de brincadeira?

- O qu? - perguntei, ainda com os olhos quase fechados.

- Voc vai dormir com essa coisa horrorosa?

- Voc est se referindo ao Dilin? No acredito que voc no conhece o Dilin. Voc nunca teve um boneco desses na sua infncia?

- Claro que no!

- Por que claro que no? Meu irmo tinha.

- Seu irmo deve ser um florzinha.

Aquilo foi demais.

- Olha aqui, Alan, se meu irmo fosse gay, isso no seria motivo para esse deboche ridculo, seu preconceituoso. Voc no tem educao, no? Mas ele no  florzinha, como voc diz, s porque teve um brinquedo que acende a cabea. E eu tenho medo de escuro e vou dormir com o boneco.

- Voc tem a mim, no precisa ter medo de escuro. Alm do mais, medo de escuro  coisa de criana, e voc j est bem crescidinha para isso.

Eu no conseguia responder mais nada. Todas as minhas foras j haviam acabado na defesa do meu irmo, e eu simplesmente no conseguia sair em minha prpria defesa. O que estava acontecendo com aquele homem gentil, educado e misterioso?

- Boa noite - disse. Virei para o lado e dormi.

No dia seguinte fomos conhecer a Washington National Cathedral. De l, nos perdemos um pouco na Avenida Connecticut. Encontrei um gato abandonado na rua e parei para conversar com ele, como fao com todos os animais. O gato estava com o rabo quebrado, era amarelo e tinha os olhos tristes. Os olhos eram desenhados como se tivesse passado delineador, e ele se esfregou em minhas pernas com um ronronado de socorro. Alan caminhava atrs de mim quando eu peguei o gato no colo.

- Voc no sabe quantos germes esse animal tem.

No respondi e continuei andando.

- Largue esse bicho sujo, Mel.

Continuei caminhando.

- Aonde voc vai levar esse animal?

- Para casa - respondi. - E como minha casa agora  em Mason, ele ainda ter de viajar mais um pouco comigo antes de chegar ao seu novo lar e ir a um veterinrio. Por enquanto, s preciso encontrar um mercado aberto para comprar comida.

- Voc est louca?

Eu estava louca quando aceitei viajar com voc, pensei. Mas eu no disse, s pensei. Ainda no tinha coragem de dizer tudo para ele. Alan me bloqueava, e eu no conseguia dizer o que sentia. Ao mesmo tempo, estava encantada por ele. Sua vida era uma incgnita para mim. E se nossa histria havia apenas comeado, eu no entendia por que j tinha um ponto de interrogao.



Fort Lee


Localizada no estado de New Jersey, possui uma
 populao flutuante em razo do trnsito para as
 cidades da Grande Nova York. O que separa os dois
 estados  o Rio Hudson. Fort Lee  o bero da indstria cinematogrfica norte-americana. Nos anos 1910 e
 1920, muitos filmes foram realizados na cidade.

- Voc vai se chamar Ozzy Osbourne - disse ao gatinho. Eu tinha fixao por colocar nomes de cantores em gatos. Meu primeiro gato foi o Michael Jackson, um sialata (legtimo siams com vira-lata) que morou na casa dos meus pais por 15 anos at a data de sua morte, um dos dias em que eu mais chorei na vida. Em seguida, vieram Madonna (tricolor) e Cher (cinza), que ainda moram com meus pais. Todos gatos adotados.

Depois daquela manh em Washington, Alan mudou seu comportamento. Estava mais carinhoso, ajudou a comprar itens para o gatinho no mercado e dirigiu at Nova York sem reclamar. Ozzy ficou dentro de uma casinha de pano que eu comprei e s saiu porque eu o tirei de l para fazer carinho e dar colo.

- E se esse... E se o Ozzy quiser mijar?

- Alan, gatos no fazem xixi em qualquer lugar. Quando chegarmos, eu monto a caixa de areia e ele vai saber o que fazer. Os gatos nascem sabendo o lugar certo de fazer as necessidades. No so como os homens, que nem abaixam a tampa da privada.

Naquele dia Alan no respondeu nada, e eu me arrependi de todas as coisas que eu havia lhe dito quando resgatei Ozzy das ruas de Washington. Quando ele era carinhoso comigo, eu podia ir at a lua para busc-la se ele a quisesse. Eu no o contrariava e nem mesmo chegava a dizer quando no gostava de alguma coisa, mesmo se fosse uma simples sobremesa em um restaurante. Em resumo: eu ficava pattica. S a paixo poderia explicar atitudes to insensatas.

A caminho de Nova York, em mais de quatro horas de viagem de carro, lembrei-me de que havia dias que no perguntava de Lady nem sabia de mame. Como minha mente podia se esquecer de coisas to bsicas como me, pai e gata?

Liguei para mame pelo Skype. Ela no havia tentado falar comigo nem uma vez nos ltimos dias.

No telefone, a surpresa ainda maior. Ela disse que estava ocupada e que no poderia conversar. Ocupada com o qu? Se fossem alunas, elas esperariam, sempre esperavam e todas me conheciam. Se fosse um trabalho, ela poderia ter me dito.

- Ento me deixe falar com o papai.

- Seu pai est fora de casa. Ligue depois, Mel.

E assim acabou a nossa conversa.

Seu pai est fora de casa. Como assim, fora de casa? Eles poderiam estar brigados, e mame no quis me contar. Se fosse algo realmente srio, ela tinha escondido o problema de mim at que papai sasse de casa. Ser que ele no estava nem mesmo morando mais na mesma casa? Michel tambm no havia me telefonado, nem enviado e-mail naqueles dias, e nada poderia ser mais estranho. Apenas Tho manteve contato, mas eu no podia me esquecer de que era um recado do celular de Samantha.

Perfeito. Tudo estava de cabea para baixo. E eu estava muito longe.

Se eu morresse naquele momento, dentro daquele carro, a caminho de Nova York com um namorado que ningum sabia que eu tinha, quais seriam as manchetes dos jornais? Morre jornalista brasileira nos Estados Unidos com professor de ingls? Ento todos teriam de entrar em contato com Viviane em Mason para descobrir quem era o misterioso professor de ingls, mas Viviane diria que nunca havia sequer me visto. Ou Reprter brasileira morre a caminho de Nova York. E embaixo, na linha fina: Professor de ingls diz que apenas dava uma carona para a jovem. S Tho saberia quem era o tal professor da matria, mas ele nem se importaria, porque  o homem mais canalha que j existiu na minha caderneta de telefone. Do tipo que tem namorada e paquera a melhor amiga de sua vizinha.

Como eu podia pensar mal de Theodoro? Comecei a me sentir pssima por isso. S podia ser tudo inveno da minha cabea.

- Miauuuuu!

Ozzy interrompeu meus pensamentos com um miado agudo e em seguida lambeu a ponta dos meus dedos. Ele se virou no meu colo e voltou a dormir. A caminha de pano estava vazia no banco traseiro do carro, e em uma sacola plstica estavam o pacote de rao, dois pequenos potes para gua e comida e um recipiente plstico que serviria de cocozal para o pequeno felino quando chegssemos a qualquer lugar. Tambm comprei dois sacos de areia.

- O que aconteceu com a sua me? - perguntou Alan.

- Sinceramente, no sei - respondi e dei de ombros.

Minha resposta, que exigia uma pergunta na sequncia, algo como Por favor, conte-me o que est acontecendo, posso ajudar?, pareceu ter satisfeito o meu companheiro de viagem, que naquele momento voltou a dirigir e a prestar total ateno  estrada vazia  nossa frente.

- Alan, precisamos parar em qualquer rest area - disse, referindo-me s reas de descanso com banheiro. - E preciso parar o mais rpido que puder. Estou passando mal.

Foi o tempo de encontrarmos um posto de gasolina, e no uma rest area decente. Qualquer espao com banheiro seria exatamente o lugar mais perfeito da Terra naquele momento. Nem precisaria muito, apenas um vaso sanitrio. Em cinco segundos eu abriria mo at mesmo do vaso, bastava-me um matinho. Mas o posto tinha um banheiro, um nico banheiro que era usado por homens e mulheres e que seria meu osis no deserto.

Triste foi o que se seguiu. Larguei o gato no carro e pedi que Alan o colocasse na caminha, ento pude ver meus prximos passos como em uma cmera lenta de filme de terror. O banheiro se aproximava. Corte para o rosto da mocinha (eu) com msculos faciais contorcidos. Volta para a porta do banheiro fechada. E, enfim, ao girar a maaneta, percebo que a porta estava trancada.

E eu no aguentaria mais 30 segundos l fora.

Quando havia encontrado um arbusto prximo, aps uma rpida inspeo visual do local, a porta foi aberta e um homem de quase dois metros saiu ajeitando o cinto de caubi e a cala jeans. Ele me olhou, pigarreou e cuspiu no cho. Para completar o clich ambulante, coou o trofu que parecia querer exibir e fez um movimento com a boca como se estivesse mastigando fumo. Ou cuspe. E tudo aconteceu em milissegundos, inclusive o fato de eu ter batido a porta do banheiro logo em seguida.

No fosse o meu desespero, eu teria sado correndo daquele lugar. Nunca estive em um metro quadrado mais sujo em toda a minha vida. Nem quando usava fraldas eu devia ter ficado to encharcada de coc como aquelas paredes. O que passou pela minha cabea (no sei como tive tempo de pensar em alguma coisa naquele momento)  como algum consegue espalhar sujeira pela parede. So seres mutantes que defecam de forma diferente dos humanos, pelas orelhas? Ou pessoas que gostam de brincar com a obra de arte como aquele bichinho rola-bosta? Mame insistia em dizer que o nome era outro, mas desde que Michel me ensinou que esse era o nome oficial do animal, nunca mais consegui cham-lo de outra forma.

Naquela situao constrangedora, no pensei, apenas executei a tarefa. Parecia um sapo bailarino fazendo ioga. Levantei a tampa do vaso com o p, fiquei na ponta dos ps para no me encostar em nada, mantive-me apoiada no ar e descobri que no havia papel no banheiro. Arranquei minha calcinha para us-la com uma funo diferente e mentalizei que nunca mais, em toda a minha vida, andaria sem papel dentro da bolsa.

Puxei a descarga com o p (levantado a um ngulo de 90 graus, que orgulho!) e lavei as mos - sem sabo,  claro. No podia esperar sabonete cheiroso naquele banheiro ftido. Abri a maaneta com a borda da minha blusa, porque no queria tocar em nada, e sa com a felicidade estampada no rosto.

- Mel, aquele gato acabou de sair do carro.

Pensei. Pensei de novo. Do que Alan estava falando mesmo?

No podia ser que Ozzy havia fugido. Uma pessoa no diria isso com aquela tranquilidade.

Mas disse. Monstro de homem! Como ele deixou Ozzy fugir? Comecei a gritar pelo nome, mas me lembrei de que o gato sequer sabia que era um gato, muito menos que tinha nome e que era Ozzy. Ele jamais atenderia.

Ento chorei, porque  uma boa maneira de aliviar o estresse sem ter de cometer assassinato. Porque imaginei Alan em chamas depois de eu acender um cigarro (emprestado) ao lado da bomba de gasolina. Sorte a dele que eu prefiro chorar. Mas enquanto eu me descabelava, continuava correndo em volta do posto e procurando pelo gato. Berrava seu nome, perguntava para as pessoas se tinham visto um gato amarelo com nariz rosa, com o pouco ingls que eu havia aprendido, e ento uma moa disse: Ele passou por aqui. Havia uma pista! Ele estava prximo, claro! Alan contou que ele havia sado do carro poucos minutos antes de eu voltar do banheiro. Na verdade, ele no sabia precisar o momento em que o gato fugira.

Depois de andar pelo posto inteiro, vi o serzinho miante dentro da loja de convenincia. Abracei forte o bichinho e o levei para o carro. Eram poucas horas de convvio, mas ele j era meu amigo. Por isso, no consigo imaginar como as pessoas abandonam animais como se fossem objetos. E o pior  que inventam as desculpas mais esfarrapadas para se livrar do animal que deveria ser um amigo, e no uma coisa. Vou me mudar de casa. E da? Por que no leva o bicho junto? Cansei. Essa  a pior. Cansou do qu? Sua me no se cansou de voc e no te jogou na rua, no , traste? O bicho cresceu, d trabalho e come muito. Que bom! Significa que ele est se desenvolvendo, ao contrrio do seu crebro. Ele ficou doente. tima soluo: jogar fora o amigo que precisa de sua ajuda justamente quando est doente. Tomara que voc nunca fique doente. Ah, ele ficou velho! Nesse caso, eu tenho d dos seus pais. Mas lembre-se de que o tempo passa para todos, at para voc.

- Mel, estou falando com voc! - Alan gritou. - Em que mundo voc estava?

- Estava pensando em respostas para dar queles que abandonam seus animais. Falando nisso, Alan, no se deve deixar gato nem cachorro solto, sabia? Ou voc achava que o gato voltaria para o carro depois de passear um pouquinho? Animais dependem de ns, e se no os ajudamos, no devemos cogitar t-los. Por favor, nunca mais trate com negligncia um bicho, principalmente se no for seu.

- Voc est falando como uma ativista chata de direitos dos animais, e o importante  que ele est de volta. - Alan sorriu. Ele havia tentado ser simptico, mas no pediu desculpas. E eu sempre me pergunto por que algumas pessoas nunca conseguem dizer obrigado ou pedir desculpas, palavras mgicas que deveriam ser ensinadas a um beb desde a barriga da me.


Primeiro: Obrigado.

A criana deveria aprender e aplicar o obrigado exaustivamente, at entender que ningum nesse mundo tem obrigao de fazer nada para os outros. Assim, qualquer gesto de ateno, carinho ou amizade merece obrigado, muito obrigado ou obrigado de verdade! Receber um copo de gua, uma palavra amiga, um presente, uma frase como lembrei de voc quando estava em tal lugar ou gestos como ganhar uma ajuda profissional e perceber que uma pessoa fez algo por voc sem interesse algum, s pelo simples fato de ajudar, deveria ser motivo para presente-la com uma placa de obrigado com letras em ouro.

Mas, na vida real, as pessoas parecem acreditar que as outras so obrigadas a lhes fazer favores.


Segundo: Desculpa.

Desde o nascimento, o ser humano deveria, logo aps conhecer a palavra obrigado, aprender a pedir desculpas. Serve para piso no p, brincadeira sem graa, mancadas ou qualquer atitude nossa que possa causar constrangimento ou tristeza em outra pessoa, mesmo que no tenhamos feito isso voluntariamente. Machucar algum pode ser sem querer - embora, na maioria das vezes, ns sabemos o que vai ferir o outro, mas insistimos, porque nos achamos superiores -, mas mesmo assim a pessoa merece, no mnimo, um pedido de desculpas.

Pedir desculpas  sinal de humildade. Mas no olha, desculpa, mas voc sabe que errou, no sabe?, aquele tipo de desculpa que ainda joga a culpa em cima de voc. Pedir desculpas de verdade no impe regras nem condies. A palavra desculpa s tem poder de mudana quando  sincera. E, para isso, basta que uma pessoa se coloque no lugar da outra. No  um exerccio difcil.


Alan no sabia pedir desculpas.

Entramos no carro e fomos at Nova York; ficamos calados por uma hora. Ouvi apenas o ronronar de Ozzy. E nem chegamos a Nova York, como eu pensava. O hotel havia sido sugesto de Alan, quando contei sobre as cidades por onde passaramos. Como eu havia reservado o hotel de Washington, deixei por conta dele o destino seguinte. Ele parou em um pequeno hotel em Fort Lee, porque disse que a cidade era mais barata e que seria fcil chegarmos a Manhattan no dia seguinte. De nibus. Alan frisou que o trnsito na ilha seria complicado e que no havia necessidade de ficarmos presos entre carros. Alm do mais, voc no precisa conhecer tudo como turista? Nada melhor que andar e usar transporte pblico pelo menos uma vez.

Ele me convenceu. Ele sempre me convencia.

Fiquei feliz por estar no estado de New Jersey apenas porque tinha o desejo secreto de encontrar Bon Jovi andando na mesma calada que eu. De v-lo atravessando a rua e poder chegar perto com a desculpa de que trabalhava em uma revista (era verdade) de msica (uma mentirinha no faria mal) e que queria entrevist-lo (era mais que verdade). Ou poderia dizer que trabalhava em uma revista feminina e escrevia sobre bundas masculinas - nesse caso, no havia ningum melhor do que Jon para me contar seu segredo de roupa-embrulhada-a-vcuo-delcia. E apesar de tudo ser sonho, comecei a ter certeza de que a viagem seria um sucesso.

No dia seguinte, conheceramos Nova York. E eu quase morreria.



Nova York


Nova York  a cidade mais povoada do estado de
 mesmo nome e a segunda maior aglomerao do
 continente.  composta por cinco distritos: Bronx,
 Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island. Principais
 pontos tursticos: Esttua da Liberdade, Times Square,
 teatros da Broadway e o arranha-cu Empire State
 Building.

Na Broadway, Theodoro chegou com Samantha. Foi uma surpresa para mim. Eu desconfiava de que eles estivessem juntos, mas foi um choque v-los abraados e se beijando. O mais estranho foi encontrar mame, que confirmou que havia se separado de papai. Ento eu tive a certeza de que casar no valia a pena, e que primeiro eu deveria conhecer o mundo. Alan chegou, foi apresentado  minha me e aos meus amigos e contou que queria se casar comigo. Todos bateram palmas.

Eu acordei com as palmas.

Olhei para a janela do quarto com as cortinas cor de vinho e o sol entrando por uma fresta da janela. Alan estava deitado na cama de solteiro ao lado da minha e roncava. Tudo era um sonho, e no foi difcil detectar que ser pedida em casamento por Alan no me deixou contente. Parecia um pesadelo. Ao mesmo tempo, se ele no estivesse comigo naquela viagem, eu certamente teria voltado naquele mesmo dia para Mason. De repente, at para o Brasil. Ele me trazia tranquilidade na mesma medida em que me causava insegurana.

Agradeci aos anjos pelo fato de o hotel permitir a entrada de Ozzy no quarto. O gato ainda dormia no banheiro quando entrei na ponta do p. Lavei o rosto e pensei no meu sonho. Minha vida no parecia nos eixos. Eu estava realizando um sonho, mas faltava uma parte dele. Havia algo errado e que eu no sabia o que era. Por que eu estava triste? Por que no conseguia me empolgar com os prximos passeios? Eu namorava um homem misterioso e lindo, tinha bons amigos (mas poucos) e uma famlia que me apoiava sempre. Mas eles estavam todos to ausentes que eu me sentia sozinha.

Queria um pote de brigadeiro gigante e um castelo de marshmallows.

Liguei o notebook e fiz algumas anotaes da viagem e das prximas paradas depois da volta a Mason, que seria no dia seguinte. Lembrei-me do conselho de tia Clara e tentei no planejar como seriam as prximas viagens, mas anotei em uma agenda o nome de cada cidade. Quando percebi, j no estava escrevendo mais nada com sentido, apenas desenhando pequenos coraes no canto das pginas. Dizem que quando voc no est pensando no desenho (quando, por exemplo, fala ao telefone) e faz rabiscos no papel, esses traos podem revelar o que voc est sentindo de verdade.

Sempre desenhei crculos. Ser que eu estava perdida?

Agora eu desenhava coraes. Mas eu no estava apaixonada!

Mandei e-mails para meus pais (sem cpia de um para o outro, afinal, eu no sabia em que ponto estava a briga deles), para Michel, Sam, Tho, Caroline e Brbara. Estava curiosa para saber como estavam as coisas no jornal. Enquanto escrevia, senti um calor no pescoo que me arrepiou. Quando me virei, vi o sorriso de Alan, que me beijou.

- Melzinha, voc est com bafo.

- h?

Srio, eu no estava ouvindo aquilo, no podia estar. Alan acabara de acordar, tinha na boca o odor de queijo podre e me disse que eu estava com bafo depois de um beijo?

- Tudo bem, honey, s precisa escovar os dentes e usar fio dental. A propsito, voc usa fio dental com frequncia? Sem ele, de nada adianta a escovao.

- Alan, voc est falando srio ou brincando?

- Srio. Foi um amigo meu, dentista, que explicou - disse ele.

- No, no  isso... Voc realmente falou srio quando comentou sobre meu bafo? - perguntei, ainda sem jeito e sem acreditar.

- Tudo bem, no se preocupe, da prxima vez voc escova os dentes quando acordar - e entrou no banheiro, fechou a porta e l ficou. Tive vontade de dizer Alan, voc acabou de se levantar da cama e est com bafo de leo que comeu carne crua. Como vem falar de mim?, mas no consegui. Por um instante, pensei em que lugar eu havia deixado a Melissa forte, decidida e que fala o que pensa sem medo de ningum.

Onde eu estava naquele momento?

Arrumei a minha cama e me troquei. Esperei por Alan e fomos para Nova York, nome que eu ainda no havia decidido como escreveria no roteiro para a agncia. Nova Iorque? New York? Nova York? Como os nomes de algumas cidades tinham sido enviados por e-mail com a grafia que deveria ser usada, preferi seguir o roteiro.

Logo pela manh, fizemos um passeio de barco para ver a Esttua da Liberdade. Em seguida, fomos ao Guggenheim Museum, e tive de aguentar Alan rindo das obras de arte. Rindo! Perguntei o que havia de errado e se ele queria algumas explicaes sobre a arte contempornea, j que eu adorava escrever matrias de cultura e havia lido muito sobre o assunto. Eu achava que ele gostava de arte desde o dia em que me convidou para visitar um museu em Cincinnati, e l ele parecia interessado, mas levantou os ombros e seguiu na frente. Em pblico, no andvamos de mos dadas.

Visitamos o famoso Central Park, e l eu quis ficar por mais tempo. Nos Estados Unidos, as estaes so bem definidas - no vero, as folhas das rvores ficam verdes e o parque se transforma em uma s cor vibrante e alegre; no outono, as lindas folhas ficam amarelas ou vermelhas.  um show de cores quentes nas alturas, que so substitudas pela neve no inverno. Passamos em frente  construo da Chrysler e paramos em uma fila de duas horas no Empire State Building.

Estivemos na Madison Square Garden, onde acontecem diversos eventos, e na Times Square. Fomos  Broadway, e eu me lembrei do meu sonho. De tudo o que se passou em minha mente enquanto eu dormia, queria apenas que Tho estivesse mesmo l.

Assistimos a O Fantasma da pera e foi emocionante. At aquele momento, o meu dia estava perfeito. J havia escrito uma matria sobre os grandes musicais do mundo, e assistir ao meu primeiro musical na Broadway foi incrvel. A montagem era muito parecida com a de So Paulo, que foi o primeiro musical que eu assisti em minha vida. Fiquei orgulhosa de ter visto duas vezes a mesma pea em duas cidades to diferentes e marcantes.

Jantamos na esquina da Broadway com a rua 44 e resolvemos pegar um nibus para Fort Lee, em New Jersey, onde estvamos hospedados. O motorista no soube nos dizer onde deveramos descer e, depois de algum tempo, decidimos descer no ponto seguinte, em uma rua escura tpica de filme de Stephen King. No havia uma nica pessoa na rua, estava frio, o nico posto de gasolina estava fechado, as luzes da rua estavam apagadas e eu tive a certeza de que iria morrer.

No sei precisar quando comecei a ter certeza de que morreria naquele momento, mas foi depois de perder meu irmo. Era uma loucura, porque no servia para chamar a ateno de ningum. Eu no contava o que estava sentindo e aquelas premonies fajutas ficavam apenas nos meus pensamentos. Sabia que poderia morrer e imaginava o que aconteceria com todos ao meu redor se fosse naquele momento exato. E naquela rua escura a sensao terrvel voltou.

Tive tanto medo!

Eu no podia morrer porque no havia feito tudo o que eu queria ainda. Acho to injusto quem morre sem poder concluir suas obras, quem passa para o outro lado ainda jovem, e acho, inclusive, que morrer  a maior injustia do mundo. Quando finalmente voc compreende porque vive, voc morre? No faz sentido. Por isso procuro planejar tudo, como se isso me desse a certeza de que, se eu escrevi, cumprirei. E como eu tinha mais algumas viagens marcadas, no poderia morrer. No naquele dia.

Andamos muito, tanto que cogitei dormir na rua. Foi quando avistei um carro parado em frente a uma loja fechada. O carro estava com os faris acesos, e era possvel ver uma pessoa dentro, sentada no banco do motorista. Era a nica pessoa desde que havamos descido do nibus, uma hora antes. Pedi a Alan que solicitasse informaes e com cuidado nos aproximamos do carro.

Afinal, o motorista poderia ser um psicopata.

Mas no era, ou eu no estaria aqui.

O homem, que tinha pouco cabelo e usava culos grossos, abaixou o vidro calmamente e Alan perguntou se ele sabia onde era o nosso hotel. Ele balanou a cabea afirmativamente. Questionou, ento, por onde poderamos ir e se era fcil caminhar at l. O homem balanou a cabea de um lado para o outro na horizontal. Ento eu no pensei em mais nada e pedi a Alan que falasse com ele e pedisse uma carona.

Se ao menos minha me estivesse comigo, eu poderia perguntar para as cartas se o homem nos mataria no caminho. Mas no havia ningum, e quando eu mais precisava, nem o telefone celular eu tinha. Ele havia descarregado durante o dia, depois de ter tirado fotos, j que eu havia esquecido o carto de memria da cmera no hotel, junto ao notebook.  uma bola infinita do destino, em que um fato mnimo afeta todos os demais.

O homem do carro ficou assustado quando Alan pediu carona.

- O senhor est esperando algum? - e ele disse que no.

- O senhor vai para algum lugar? - e ele disse que no.

- O senhor mora aqui? - e claro que ele disse que no.

Sinceramente, nunca soube o que aquele homem fazia ali, naquela rua deserta, com um carro ligado e faris acesos. Quem era aquele homem? A caminho do hotel, quando soube que ramos do Brasil, o nosso salva-vidas falou de Pel e disse que sabia que a seleo de vlei masculino do nosso pas era a melhor do mundo. Ficamos contentes, agradecemos e tentamos pagar pela carona, como um gesto de agradecimento. Ele disse que havia passado o dia sem entender algumas questes (no comentou quais) e que ao fim do dia, aps nos conhecer, soube exatamente o que estava acontecendo (e eu continuei sem entender nada).

- Filha, enquanto o homem planeja, Deus ri. Obrigado.

- Somos ns que temos de agradecer ao senhor - disse a ele, apertando sua mo e batendo a porta do carro em seguida, imaginando como ele conhecia aquele ditado. Alan j estava no saguo do hotel, e eu me virei para pegar uma sacola que havia cado no cho. Quando olhei novamente, dois segundos depois, sem explicao, o carro no estava mais l, havia desaparecido.

Acho que Deus ri, mas tambm nos protege.

Naquele dia, Ele me enviara um anjo.



Mason


Mason faz parte do condado de Warren e fica
 no estado de Ohio. O Censo de 2000 apontou uma
 populao de 22 mil habitantes.  uma pequena cidade
 com cara de filme norte-americano: casas bonitas,
 ruas tranquilas, um belo prdio da Prefeitura, parques
 e atraes prximas, j que est perto de grandes
 cidades, como Cincinnati.

Eu acredito que anjos existem em todos os lugares, em forma de pessoas ou animais. Assim como o senhor da carona ou o Ozzy. Tudo o que pode mudar nossa vida para melhor e nos faz pensar  obra divina. Por isso sempre tive medo de cair em alguma armadilha do destino e me agarrar a alguma situao que no me faz feliz.

O que sempre busquei foi a minha liberdade (para ser feliz), mas ao mesmo tempo ela parecia escorregar e querer fugir.

Na madrugada do episdio em que ficamos perdidos em New Jersey, Alan me perguntou baixinho se eu estava acordada. Pensei em dizer que no, mas respondi que sim. O quarto estava em completa escurido, e eu deitava virada para o outro lado.

- Mel, vem pra minha cama, vem?

- T com sono, Alan, podemos falar amanh? - disfarcei.

- Se voc no vier, eu vou para a sua cama.

- Eu te chuto para fora.

- Honey, s quero esquentar seus ps - disse ele com voz doce.

- Eu no estou com frio.

- Se est com calor,  do que preciso agora.

- Quero dormir, daqui a pouco vamos viajar e ainda nem arrumamos nossas malas.

- Mel, por que essa resistncia? Somos adultos, sem compromisso.

- Sem compromisso? - perguntei, ainda sem entender. Afinal, ns no tnhamos um compromisso mtuo? Eu no era sua namorada e ele meu namorado? O que ramos, ento, viajando juntos? Amigos no beijam na boca.

- Voc no tem namorado, tem? - Alan me questionou, mas pareceu tcheco. No entendi uma palavra de todo o seu discurso. E se eu tivesse namorado no Brasil, ele estaria comigo da mesma forma e no faria diferena? O que estava acontecendo? Porque eu pensei que estava namorando, mas pelo jeito namorava sozinha. Ser que estava sendo muito exigente? Eu e Alan nos conhecamos havia to pouco tempo, ento poderia ser apenas comeo de relacionamento. E, no comeo, tudo  mesmo confuso. Ou no? Ou ? Eu parecia estar no meio de um dos crculos que estava acostumada a desenhar.

Quase sem foras para comear uma discusso sobre a nossa relao, eu apenas disse que no tinha namorado.

- Mel, qual  o seu problema? Vamos curtir a noite! Ou voc nunca esteve com um homem antes?

- Durma bem, Alan - respondi. Ele ainda falou mais alguma coisa que eu no consegui escutar. Em pouco tempo, sonhava que comia marshmallows e que Lady dividia meu colo com Ozzy.

Decidimos fazer a viagem de volta a Mason em um dia apenas, 10 horas dentro do carro. Dirigi durante as primeiras cinco horas e fizemos apenas uma parada. Alan dirigiu a segunda metade do tempo e estava mal-humorado. As oscilaes de humor dele eram piores que as minhas quando tenho TPM.

Chegamos a Mason e descemos todas as malas em frente ao meu apartamento antes de subir para o andar de Alan. O condomnio era todo pintado de cor amarelada e no tinha elevadores. Havia os apartamentos trreos, primeiro e segundo andares e longos corredores cobertos, mas os lados eram abertos. Em um dia frio de outono como aquele parecia maldade com as malas deix-las paradas em frente  porta.

Mas eu precisava procurar as chaves.

Em que lugar eu havia colocado as chaves?

- Voc no se lembra de onde colocou as chaves do seu apartamento, Melissa?

- Se eu lembrasse, no estaria congelando no frio, Alan.

Congelando? Isso! Era isso! Eu estava congelando porque no estava com o casaco - o aquecedor do carro permitia que eu ficasse com uma blusa quente, mas sem o casaco de frio grosso e pesado que eu havia comprado em uma garage sale dias antes, uma liquidao de garagem, muito comum nos Estados Unidos. As famlias retiram das casas tudo o que no querem mais e colocam para vender no quintal a preo de banana. Foi assim que eu comprei um casaco preto bem quente por 10 dlares e uma torradeira por um dlar. Havia CDs do Double You, mas eram gratuitos e eu no os trouxe.

Eu devia fazer uma garage sale no meu apartamento em So Paulo e vender todas as tralhas do meu irmo, incluindo cdigos antigos. Advogados parecem fazer coleo de cdigos que no ano seguinte no servem para mais nada. Eu podia vender como papel para lareiras.

Enquanto pensava no meu casaco, esqueci de que deveria peg-lo.

- Alan, lembrei! As chaves esto na minha blusa preta.

- E onde est essa sua blusa?

- Bom, a eu no sei.

Eu queria ser um elefante. No no tamanho, claro, mas com a mesma memria. Os elefantes so to espertos, sabem exatamente o lugar em que encontraro gua mesmo depois de anos. Eles tm memria para a sobrevivncia, so inteligentes, reconhecem os parentes, e eu, que teoricamente deveria ter um crebro mais desenvolvido, no sabia sequer o paradeiro do meu casaco.

- Por que voc guardou as chaves na blusa?

- Porque assim eu no me esqueceria.

- E o casaco est em que mala? - questionou Alan.

- Esqueci no hotel - respondi.

- Para que serve o que voc tem acima dos ombros?

Naquele momento, alm de desejar ter a memria dos elefantes, eu quis ter a fora de um deles para pegar Alan com a tromba e jog-lo contra a parede. Aquilo no era o apoio que eu esperava de um namorado, ou seja l o que Alan era para mim. O casaco estava em New Jersey, a 10 horas de distncia, dentro do armrio, e no serviria para nada. Era melhor esquec-lo para sempre.

Decidimos ir at a administrao do condomnio (eu decidi, na verdade, porque Alan s bufava). Na rea em que estavam o escritrio, a lavanderia e a pequena academia, com duas esteiras e uma bicicleta, mas no havia ningum. Eram 10 horas da noite.

Foi quando vimos uma moa entrar com uma bacia de roupas e perguntei se ela sabia com quem eu poderia falar para pegar uma cpia da chave do meu apartamento. A moa comentou que a sndica morava no bloco mais prximo, mas no sabia qual era o apartamento. Talvez seja essa segunda porta, ela apontou e sumiu para a lavanderia.

Batemos na porta, porque os apartamentos no tinham campainha. Um senhor de bigode apareceu e disse que a sndica morava ao lado.

Bati com pouca fora, mas ningum atendeu.

Bati com mais fora e o silencio continuou.

- Vamos arrombar a janela da minha sacada. No  errado, eu moro l!

Alan comentou que no deveria ter deixado suas chaves comigo e que Caio estava viajando. No havia outra soluo.

Tentamos abrir a janela da sacada, mas era dupla e muito pesada. Eu apoiara o ps na grama e s o que conseguira era ficar com as solas dos sapatos cheias de terra. A janela continuava fechada. Ento pensei: Como sobreviveria se tivesse de ser trombadinha?. Eu no levava jeito para o negcio. Peguei um tronco de rvore (que quebrou) e mudei a estratgia, forando a janela do quarto. Depois de 40 minutos em um frio de cinema, mas sem o glamour, desisti, voltei para a porta da frente e dei um chute.

- Se nem assim a porta abre, no h nada a fazer.

- O que te fez pensar que uma porta abriria com um chute, Melissa?

- Hollywood me enganou todo esse tempo - respondi.

Voltamos ao suposto apartamento da sndica, e dessa vez no medi foras. Eu me imaginei no palco: Como reagiria se tivesse de interpretar um elefante? Voc pode buscar inspirao na selva, Melissa Moya!.

E ento bati na porta da sndica. Mas bati to forte que o prdio inteiro deve ter escutado, porque trs portas se abriram alm daquela que foi golpeada.

O que se seguiu no foi uma cena agradvel, porque a mulher de pijama de flanela disse muitas palavras que no entendi, mas sabia que ela no estava gostando da situao pela ausncia de sorriso. Emily (era seu nome) disse que deveramos ligar para um telefone, entrou e anotou o nmero. Quando nos trouxe, dissemos que no tnhamos telefone - tanto o meu celular quanto o de Alan estavam sem bateria. Perguntei se ela poderia fazer o favor de telefonar para ns. Emily entrou novamente e eu tive a impresso de que daquela vez era para buscar uma arma (eu tinha medo do porte de armas porque uma mulher como aquela no poderia nunca ter uma naquele momento), mas quando retornou pediu que a acompanhssemos e disse outras palavras que no compreendi.

Fomos at a rea da administrao novamente, acompanhada da mulher de pijama de flanela, e ela nos entregou uma cpia de cada chave.

O meu maior alvio foi perceber que eu no precisaria dormir na casa de Alan.

Peguei Ozzy, que estava quentinho dentro do carro, e as malas, que estavam congeladas do lado de fora do meu apartamento. Entrei, liguei o aquecedor, tomei banho, fiz uma sopa e o telefone fixo tocou. Era mame. Ela no havia falado comigo nos dias anteriores, estava distante, mas parecia nervosa na linha.

- Me, o que aconteceu?

- Nada, filha. S que eu fiquei preocupada, liguei para Samantha e ela estava com seu amigo Theodoro. Ele sabia o telefone do apartamento e eu resolvi ligar. Sei que  ligao internacional, mas eu ainda no consegui fazer aquele programinha da internet funcionar para conversarmos. Vou pedir ao seu irmo que me ajude por telefone a instalar.

Mame no disse vou pedir ao seu pai que instale. Tudo bem que papai no era entendido em computao, mas por que ela no falou dele nem uma nica vez?

- Me, o que aconteceu? - repeti.

- Voc no atendia o celular e...

- Me, o celular est sem bateria. Mas quero saber por que a senhora queria tanto falar comigo.

- Eu estava pedindo auxlio (para as cartas, ela queria dizer) em relao  nossa famlia (ser que ela estava preocupada com a briga com papai?) e saiu traio para voc, minha filha. Traio envolvendo voc de alguma maneira. Eu no sei bem, mas vi um rapaz forte, alto e muito charmoso. Desculpe preocupar voc, filha, mas  s um alerta. Acho que devemos estar preparadas para o que a vida nos mostrar, assim sabemos como agir na hora certa. Mas tambm preciso dizer que vejo uma pessoa improvvel te ajudando em um momento difcil. Tudo tem o seu lado bom, afinal.

- Mas, me, a senhora est bem?

- Sim, Mel, s que a ligao vai ficar cara. Vamos continuar a conversa depois. Eu te amo, filha, fique bem a e me traga um pouco de neve.

E ns rimos juntas antes de nos despedirmos. S no entendi sua pressa em desligar. O que estava acontecendo?

Depois pensei no que mame me disse. Eu no gostava quando ela fazia aquilo, de ficar adivinhando o meu futuro. Eu no queria saber! Eu queria conselhos, no adivinhaes, mas sabia que ela s queria o meu bem. E quem seria to improvvel de me ajudar? Em qual momento? Porm, no era o que me preocupava.

Ser que Alan estava me traindo? Mas ns namorvamos havia to pouco tempo... Eu tambm poderia tra-lo? No, no poderia. No vejo sentido na traio, j que o ser humano  livre e pode ficar com quem quiser. Mesmo se namoramos ou estamos casados, para que trairmos se podemos pegar as trouxas e ir embora? Acomodao, talvez? Famlia? Ser que era um problema de amizade? Poderia ser com Samantha. Sim, poderia ser Sam com Tho. E seriam duas traies: Sam com meu amigo e Tho traindo Viviane. E um moo forte, alto e muito charmoso s poderia ser Theodoro. Eu no acreditava que ele era capaz de trair algum, mas as cartas nunca erravam.

Eu queria que estivessem erradas daquela vez.



Indianapolis


Indianapolis  a capital do estado norte-americano
 de Indiana, famosa pela Indianapolis Motor Speedway,
 pista em que acontecem competies automobilsticas
 como Frmula 1, Frmula Indy e Nascar. No centro da
 cidade h o Monument Circle e o White River Canal,
 um timo lugar para caminhar, com uma bela vista.

Eu poderia ter sido presa por arrombar o apartamento em que morava, mas o nico problema da noite anterior havia sido o mau humor de Alan e da sndica do condomnio. Com o primeiro eu ainda no sabia o que deveria fazer, porm foi fcil descobrir como pedir desculpas  Emily. Fui a p ao mercado ao lado, comprei leite condensado na prateleira de produtos mexicanos (s encontrei ali naquele dia), chocolate em p, margarina (no havia mais nada em casa), trs potinhos de vidro e fitas cor-de-rosa de cetim. Montei dois potinhos com brigadeiro, um pote com marshmallows, embalei tudo e levei dois vidros e um carto como pedido de desculpas e agradecimento por ela ter me atendido no dia anterior.

Tudo bem que ela me atendeu com pssimo humor, mas atendeu. E eu sei reconhecer quando as pessoas fazem algo por mim, porque, como eu sempre digo, ningum  obrigado a fazer as nossas vontades.

Emily pareceu estranhar o comportamento e me olhou com cara de do que mais voc precisa agora?, mas quando eu j estava de costas e indo embora (quando ela percebeu, de fato, que eu no iria pedir mais nada), disse: Melissa, thank you so much. E no h nada no mundo melhor do que um sorriso de agradecimento.

Diante da frieza de Alan e apesar de estar morrendo de vontade de interfonar e pedir que ele passasse o dia comigo, eu me concentrei no trabalho e escrevi alguns textos sobre as ltimas viagens. Recebi e-mails da agncia com o prximo destino e decidi viajar sem comunicar meu namorado, caso, ficante, rolo, vizinho ou whatever, como ele mesmo havia me ensinado.

Apenas Ozzy seria meu companheiro em todas as viagens.

Quando o telefone tocou, pensei que poderia ser Theodoro e pela primeira vez no quis falar com ele. Na verdade, eu queria e sentia sua falta como uma dor estranha no peito, uma dor de saudade e... traio. As palavras de minha me ainda estavam na minha cabea, e eu tentava imaginar o que de fato estava acontecendo no Brasil. Nada parecia estar no lugar, como um quebra-cabea em que as peas esto jogadas pela sala, embaixo do sof e atrs das estantes. As peas ainda esto l, mas perdidas.

- Melissa? - disse a voz com sotaque carioca.

Mas no era Tho. Era uma voz feminina.

- Sim, sou eu, quem fala?

- Acho que sou sua roommate - respondeu a voz com uma risada simptica.

- Viviane, que prazer falar com voc!

-  uma alegria conhecer quem est dividindo a casa comigo virtualmente. Desculpe no estar por a, mas precisei passar algum tempo fora de Ohio para algumas campanhas.

- Imagine! - respondi. - Quando volta para casa? Alis, j estou chamando de casa!

Rimos, e ela disse que eu deveria chamar de casa porque agora era meu lar. Que ela estava acostumada a viajar muito, mas gostava de saber que tinha para onde voltar.

- Eu retorno em algumas semanas, mas nunca sei ao certo. Theodoro me explicou que voc tambm viaja muito, no ? Mas tenho certeza de que nos encontraremos em breve. Cheguei a passar alguns dias em Mason, mas voc estava fora e no deve ter percebido que eu estive por a. Sempre passo muito rpido em casa, porque logo volto para a estrada.

Eu estava com d de Viviane. Ela podia estar sendo enganada e no sabia de nada. Mas eu nunca poderia contar, no tinha provas. Ser que era uma iluso minha? Eu no poderia destruir um relacionamento apenas baseada em evidncias. E uma evidncia acompanhada de cime deve ser considerada?

- Eu conheci seus vizinhos, eles esto me fazendo companhia. Caio  muito simptico e brincalho, e Alan... Bom, Alan  muito bacana. Voc os conhece?

- No - respondeu vagamente.

- Eles disseram que te conheciam...

- Ah, claro, Caio e Alan, eu me lembro deles! Mas  porque eu sempre brigava com eles por causa do barulho no apartamento de cima, s isso. No somos amigos, no - comentou. E eu tive de concordar que o barulho continuava alto. Naquele momento mesmo, enquanto nos falvamos por telefone, era possvel ouvir barulho de passos, como se o apartamento estivesse lotado, com pelo menos 40 pessoas l dentro. - Bom, Melissa, foi um prazer falar com voc e logo, logo estarei em casa, est bem? Quer alguma coisa de New York?

Minha chave. Eu queria minha chave e meu casaco, mas ela no poderia encontr-los.

- Obrigada, Viviane, acabei de voltar da e gostei muito. Bom trabalho para voc.

Era hora de planejar a viagem do dia seguinte: Indianapolis, no estado de Indiana, ao lado de Ohio.

Viajei sem perguntar nada a ningum, sem avisar nada a ningum, sem pedir nada a ningum. Estava me sentindo estranhamente sufocada nos ltimos dias. Ainda assim, minha vontade de agradar Alan era muito forte, ento levei o ltimo pote de brigadeiro para ele. Deixei com Caio no apartamento logo pela manh - que no entendeu por que no deveria acordar Alan para que eu me despedisse - e seguimos para a prxima aventura: eu, Lesma (o notebook) e Ozzy (o gato).

A viagem durou duas horas, e logo percebi que Indianapolis era uma cidade grande com jeito de cidade pequena. Comecei o passeio no Indianapolis Motor Speedway e conheci a famosa pista de corrida. Fiquei feliz quando vi o nome do brasileiro Emerson Fittipaldi l e fiz anotaes para no me esquecer de escrever no meu relato para a agncia. Visitei o museu com carros de corrida e conheci um pouco a histria da pista.

Ozzy passeava dentro de uma bolsa de pano e no parecia se incomodar com nada. As pessoas, quando percebiam que o gato era de verdade (e no uma pelcia), chegavam perto para brincar com ele. Passei rapidamente pelo IMA (Indianapolis Museum of Art), o museu de arte da cidade, mas, ao lembrar que estava com um felino, desisti de entrar e segui viagem. Como estava uma hora adiantada por causa do fuso horrio, dirigi mais quatro horas at Saint Louis, no estado do Missouri.

Estava exausta.

Encontrei um albergue que aceitava a presena de animais. Paguei um quarto duplo e privado (com banheiro compartilhado) somente para mim e meu gato, mas no me importava. Gatos so timas companhias. O que me atrai neles  justamente a sinceridade. Eles vm at voc quando realmente querem, e no para agradar. Ao mesmo tempo, so amveis e carinhosos. Tudo o que Alan no estava sendo para mim.

Entrei na internet depois do banho e antes de dormir.

Antes no tivesse entrado para no perder o sono.

Casal ganha o prmio de melhor reportagem de Turismo do ano era o ttulo da matria. A escolha havia sido feita por rgos de imprensa de pases da Amrica Latina, a premiao oficial aconteceria no comeo do ano seguinte e eu no consegui ler mais nada. Todas as partes do meu corpo tremiam de raiva. Aquela era a minha matria! A matria que eu entreguei para Cristiano no pen drive e que j havia recebido um prmio. Mas aquilo era demais, Sara Lara estava abraada a Cristiano na foto com a legenda Os autores Sara Lara e Cristiano Flix comemoram a vitria e a unio. O casal aproveitar o prmio em dinheiro para a lua de mel. Que vitria? A minha vitria? E que lua de mel?

Eu sabia que no deveria ter entregado a matria no pen drive para Cristiano e que naquele momento ele poderia fazer o que quisesse, mas acreditei, sinceramente, que eles apenas queriam manter o arquivo no jornal. Nunca imaginei que algum pudesse se apoderar de algo que no  seu com a cara mais dura que pau de macarro.

E a histria da lua de mel foi comovente.

Lembrei de Cristiano entrando em meu apartamento com flores e dizendo aquelas mentiras. Era tudo para conseguir uma matria? Eu no podia acreditar que aquilo estava acontecendo, parecia roteiro de filme Z. E era a minha vida! Droga, a minha vida era quase um roteiro de filme Z. Mas eu era a mocinha, Sara Lara, a bandida, e Cristiano, o vilo, ento a guerra estava apenas comeando.

Telefonei para casa e Samantha atendeu.

- Sam? O que voc est fazendo em casa?

- U, Mel, voc se esqueceu de que me pediu que cuidasse da Lady?

- Como est minha gatinha? - apressei-me em perguntar.

- tima. Parece que ela sabe que  voc no telefone e est se enroscando em minhas pernas.

- Sam, peguei um gatinho novo,  o Ozzy.

- Melzinha, voc j mandou fotos dele por e-mail... Sua memria est um pouquinho pior do que o normal - disse minha amiga, dando risada.

- Antes que eu me esquea por que liguei, pode chamar Michel para mim, por favor?

- Se cuida, amiga, e quando volta? Voc j est h mais de dois meses longe de casa! - E foi s naquele momento que eu percebi quanto tempo havia passado desde que eu sara do Brasil. Nos dias em que estava em Ohio, o tempo voava. Eu ia a lojas, mercados, shoppings, cinema e escrevia muito. Escrevia tanto quanto nunca havia escrito em toda a vida. Adorava ir a cafs, sentar sozinha em um dos bancos, pedir um cappuccino e ler ou escrever em bloquinhos. s vezes levava Lesma. Contei para Samantha que havia comeado um curso de ingls em uma escola para estrangeiros em Mason. Sempre que estava na cidade, ia s aulas. Quando estava viajando, estudava com os livros e pela internet. E recordar como estavam sendo os ltimos meses me fez sentir, naquele momento, que a saudade estava cada vez mais forte.

- Fala, fofa! - Michel atendeu.

- Preciso da sua ajuda, fofo. Uma matria minha ganhou um prmio importante, e a notcia est na internet e em vrios jornais.

- Mas isso  timo!

- No, Michel, no  timo. Em todos os lugares eu no apareo como autora da matria.

- Mas como isso foi acontecer?

-  uma histria chata e comprida, ento explico por e-mail. S preciso que leia com ateno e me ajude.

- Como posso te ajudar?

- Voc  advogado!

- Ah,  mesmo.

- Por favor, me ajude. No quero ganhar nada, entenda, s no quero que outras pessoas sejam parabenizadas por algo que no fizeram. Fui eu quem fiz! Eu at coloquei no meu blog!

- Voc tem um blog? E a matria est l h quanto tempo?

- Eu coloquei no ar quando cheguei aos Estados Unidos e, pelos clculos de Samantha, isso aconteceu h mais de dois meses.

- Acho que sei como eu posso te ajudar. Mas depois nos falamos. Estou ocupado.

- Com a filha do chefe do escritrio? - brinquei.

- Agora sou um homem srio, fofa. Beijo, fui - e desligou. Por que todos os irmos mais novos no conseguem dialogar por muito tempo? E como ele poderia me ajudar? Agora, o mais intrigante era ele dizer que estava ocupado e que era um homem srio.

Naquela noite, recebi uma mensagem no celular e no respondi. Desliguei o telefone e dormi.

Mel, o que est acontecendo que voc sumiu? Sinto sua falta. Beijo de marshmallow.



Saint Louis


Cidade do estado de Missouri que tem como smbolo
 o Gateway Arch, arco tambm conhecido como portal
 para o oeste.  o monumento mais alto dos Estados
 Unidos e pode-se subir na sua estrutura e visualizar a
 cidade de cima. O zoolgico e o teatro municipal so
 outras atraes importantes em Saint Louis.

Das memrias que no tenho, as mais perdidas so sobre a morte. No sei como algum pode simplesmente apagar do pensamento, no a data da partida de um ente querido, mas o fato de que essa pessoa morreu. Havia momentos em que mame me dizia: Mas Mel, tia Quitria j morreu h dois anos, voc no se lembra?. Mas no, eu no me lembrava. No era um mtodo consciente de esquecer a dor, era apenas a memria fazendo brincadeiras das quais nem sempre eu queria participar. Eu no s no lembrava que tia Quitria havia morrido como, para mim, era como se ela estivesse viva e ainda oferecendo bolos de cenoura para minha me pelo muro do quintal, como a melhor vizinha que algum pode ter. A nica morte que eu no conseguia esquecer era a de Marcos.

O esquecimento sobre as datas se estendia s pessoas que eu no conhecia. Nunca pude acreditar que Jos Saramago havia morrido. A sensao de que eu o conheceria algum dia era to forte que em alguns momentos os mecanismos de busca da internet pareciam mentir para mim. Eu chegava a me perguntar: Ele no morreu, no  mesmo?, porm no eram tentativas de me enganar. Eram perguntas sinceras, porque eu no sabia respond-las. Poderia jurar que ele ainda estava vivo. To vivo quando tia Quitria.

No  difcil imaginar que, assim como no lembro as datas de partida e nem se elas realmente aconteceram, nunca consigo lembrar um aniversrio importante. J tentei apelar para os sites (que sempre param de funcionar em algum momento e me deixam na mo) e anotaes em agenda que nunca so lidas. Mame passou a me enviar torpedos pelo celular a cada aniversrio que eu no deveria esquecer.

Mas ela no poderia me avisar quando era o seu prprio aniversrio. Geralmente a data era avisada por algum da famlia ou ela mesma acabava me telefonando dando risada. Tudo se transformava em uma grande brincadeira e eu dava parabns, finalmente. Minha me sabia que no era maldade e que, de alguma forma, o meu pensamento parecia ser estruturado de forma diferente das outras pessoas.

Mas, naquele dia, ela no me avisou. Nem meu pai, Michel ou meus amigos que sabiam de seu aniversrio. O dia passou invisvel pelo calendrio e eu s percebi quando olhei a data no celular no dia em que estava em Saint Louis. Trs dias depois do aniversrio da minha me.

O que estava acontecendo que ningum me avisou? Samantha sempre lembra as datas e no me telefonou, e Michel poderia ter me mandado um e-mail.

Me, parabns e desculpe pela demora, mas a senhora conhece minha memria. Estou com saudade... Aconteceu algo? Beijos da sua filha.

E por que Alan no havia me telefonado desde que eu viajei? Comecei a pensar seriamente na histria da traio. Minha me poderia no estar bem (o que era claro  que ela no estava normal) e ter dito alguma bobagem sem sentido pela primeira vez em suas previses. Ou o problema no era com Tho, mas com Alan. Eu no havia pensado em Alan porque ele era um moo to... correto! O fato de ele parecer no querer assumir o namoro no tinha nada a ver com sua ndole. Ele era um rapaz trabalhador e honesto, no era? No era como interrogao no me deixou tranquila. Eu tinha dvidas.

Quando pensava sobre o que poderia ter acontecido, ainda na cama e com Ozzy dormindo nos meus ps, fui surpreendida por um barulho na porta. Olhei no relgio e realmente era tarde. Dormira demais, j era hora do almoo. Ser que limpariam o quarto? Mas aquele albergue era to chinfrim que no deveria ter servio de limpeza. Quando cheguei s precisei mostrar o passaporte, paguei antecipadamente e fui para o dormitrio, que estava com uma poa de leo no cho que eu no tenho ideia de como foi parar l, mas que tenho certeza de que era herana do hspede anterior.

O quarto cheirava a almndegas. Parecia que algum havia fritado bolinhas de carne l dentro. Ozzy lambeu o cho, que nojo! E criei um jogo imaginrio em que, cada vez que eu pisasse no cho sem chinelo, perdia um ponto. No podia deixar uma pea de roupa tocar em nada a no ser minha mala, seno era perda total. O gato j havia perdido o jogo no primeiro momento, porque lamber o cho era game over.

O barulho que vinha da porta aumentou. Gritei algo como no precisa arrumar o quarto, porque imaginei que a limpeza no faria a menor diferena a considerar o estado que encontrei o lugar justo quando deveria estar limpo. Mas a moa berrou LOCK OUT. Coloquei a cabea para a fora da porta e ela apontou o relgio. No entendi nada. Ela disse Lock out until 5 p.m. e saiu. Lock out? Mas era meio-dia! Entrei na internet e pesquisei. Droga! Eu precisaria sair naquele momento. Quando cheguei, ningum havia me dito nada, e agora eu era obrigada a sair do albergue e esperar l fora? Descobri que, alm do lock out, que  o perodo em que os hspedes no podem ficar no albergue (e se a desculpa era limpar o local, era furada), o estabelecimento ainda tinha curfew, ou seja, toque de recolher. Eu poderia voltar depois das 17h, mas somente at 23h30. Depois disso, eu ficaria para fora at o dia seguinte.

No havia sido uma boa escolha parar naquele lugar. Eu precisaria de outro albergue para perder o medo deles. Um albergue bem bonito, limpo e agradvel. Theodoro s ficava nesses hostels em viagens de trabalho e passeio e diz que h albergues melhores que hotis. Ento eu dei azar. Era hora de sair.

Troquei de roupa e abri a porta. A moa ainda estava l, esperando. Quando ela viu Ozzy em cima da cama, apontou e disse que ele no poderia ficar ali. As malas, sim, mas no o gato. E como  que eu vou levar o gato para passear comigo, criatura?, pensei. Mas s consegui dizer And now? How?, algo como E agora, como?, o que era um grande avano para o meu ingls. A funcionria do albergue levantou os dois ombros juntinhos e quase pude ouvir um O problema  seu.

E como o problema era meu e de Ozzy, levei um papo com ele assim que samos do albergue. Gato, comporte-se, porque estamos nos Estados Unidos, certo?, e s depois eu me lembrei que ele era americano. Como, ento, eu levaria o gato para o Brasil? Deixaria o problema para depois. Ser que Ozzy entendia portugus?

Meu companheiro estava dentro de uma pequena bolsa de transporte azul marinho, com tela na frente. Coloquei uma mochila nas costas com minha carteira (documentos, dinheiro e carto de crdito), uma garrafa de gua, um saco com rao para Ozzy Osbourne e um pequeno pote para colocar gua. Deixei uma blusa minha dentro da casinha, porque o frio do outono no era exatamente o melhor tempo para passear com um gato na rua.

Alis, no era o melhor tempo para nada. Uma brasileira como eu s poderia sentir frio e desejar estar na frente da televiso, com um cobertor quente e uma pilha de marshmallows recm-sados do fogo. Como os de Tho. Do jeito que ele faz e que s ele sabe fazer.

Mas uma cidade me espera e vou desbrav-la, disse a mim mesma, Melissa Indiana Jones. J podia ouvir a msica ao fundo como em um filme t t n t... t t n... t t n t... t t n N NÔ. Com a diferena de que minha vida parecia uma comdia, e no uma aventura. s vezes, um suspense e, naquele momento, um romance policial.

Eu s queria saber onde estavam minha me e todas as pessoas que no me davam mais notcias, por que Alan havia sumido e se Tho era culpado das denncias das cartas de Madame Marcela - mame no gosta quando eu a chamo assim, mas  uma brincadeira que Michel comeou e que no conseguimos evitar.

O passeio por Saint Louis foi surpreendente e agradeci mentalmente o fato de ter sido colocada para fora do quarto, assim pude conhecer a cidade do arco. Visitei o famoso Gateway Arch, em primeiro lugar. Depois de tirar muitas fotos, descobri que podamos entrar no arco, dentro daquela estrutura de metal gigantesca. Subimos em uma espcie de cpsula, que parece um minielevador misturado com carrinho de trem fantasma de parque de diverses. A vista l de cima era muito bonita. Cobri Ozzy para que ele no entrasse em desespero e nem fizesse algum entrar.

Passei pelo Museum of Westward Expansion, gratuito e muito bonito (Ozzy ficou no lugar em que se guardam as bolsas), e depois visitei a Old Cathedral, construda em 1830, e a Old Courthouse, que contm diversas salas antigas de julgamento. A viso em sua frente  perfeita: o arco, a casa e a fonte. Imagem de porta-retrato. Para encerrar o passeio fui ao Forrest Park, uma das maiores reas verdes urbanas dos Estados Unidos - maior, inclusive, que o famoso Central Park de Nova York.

Ozzy parecia um Lord dentro de sua casinha. Meus braos j doam por carreg-lo, mas me senti feliz por ter companhia. Conversava com ele, e as pessoas deviam me achar uma doida. Mas maluco, para mim,  quem vive a vida sem se divertir.

A verdade  que eu s estava seguindo meu sonho por causa de Tho e nunca me esqueceria disso.

Resolvi ir ao cinema. A noite havia chegado, e eu no poderia voltar ao albergue apenas para deixar o gato, porque estava longe. Passava um filme de Garfield. Entrei na fila para comprar o bilhete. Uma mulher de coque e cabelos bem loiros chegou perto da casinha de Ozzy. Pensei: Acabou meu passeio, mas ela comeou a brincar com o felino e me contou que tinha trs gatos em casa, todos resgatados de abrigos. Na verdade, quando percebeu que eu no entendia tudo, comeou a misturar palavras em espanhol macarrnico, o que foi perfeito (porque eu tambm no sabia nada de espanhol), assim pudemos conversar.

Contei que encontrei Ozzy na rua em Washington e resolvi adot-lo. Tambm falei de Lady Gaga, a gata que foi adotada e que morava em So Paulo. No consegui explicar como havia parado ali em Saint Louis, mas contei a histria de como encontrei Lady Gaga, pequena, mas maior que Ozzy Osbourne. Tinha ido visitar meus pais e encontrei aquela gata preta de olhos bem amarelos virando o lixo ao lado da escola. Alguns garotos saram da aula com pedaos de pau para jogar na gata e no pude acreditar no que estava vendo.

- Essa gata  do mal, moa,  gata preta de filme de terror, s traz coisa ruim pra vida das pessoas -, disse um adolescente com as calas que caam e deixavam a cueca aparecendo.

Olhei bem para a cara do cidado e respondi:

- Do mal aqui  voc que seria capaz de bater em um animalzinho que no te fez nada. E o que s traz coisa ruim para a vida das pessoas  o preconceito, seu molequinho de merda - o rapaz me olhou com medo, os amigos comearam a tirar sarro dele e eu completei: - no dia em que voc entender que os animais merecem respeito, sua vida vai melhorar muito, porque voc vai compreender que olhar s para o prprio umbigo no leva a nada.

Peguei a gatinha preta e a levei nos braos at a casa dos meus pais. L, dei banho e comida. Eles sempre gostaram de animais e, desde a morte do ltimo gatinho, o Tot, e do cachorro, o Miau (os nomes eram trocados e eles eram melhores amigos), meus pais ainda no tinham adotado outros bichos. Tot e Miau morreram com uma semana de diferena depois de 17 anos de amizade. O gato amarelo no suportou a falta do cachorro vira-lata marrom. S depois que levei Lady para So Paulo meus pais adotaram, com minha ajuda, Madonna e Cher.

E eu sentia falta de cada animalzinho que havia tido e agradecia aos meus pais por terem plantado em mim a semente do carinho pelos animais. Levei Lady ao veterinrio, que constatou que ela deveria ter cinco meses. Um ms depois, ela foi castrada em So Paulo, em uma campanha de castrao gratuita. A castrao  a melhor maneira de evitar a superpopulao de bichinhos na rua e ainda prolonga a vida do animal.  um ato de amor ao amigo. Naquele dia em que Ozzy passou a fazer parte da minha vida tambm, Lady completava um ano.

Contei tudo isso para a atendente do cinema em Saint Louis. Foi a primeira experincia treinando meu ingls, e vez ou outra misturava as palavras em portunhol, mas conseguimos nos entender.

Comprei o ingresso e na entrada a moa que deveria apenas me entregar os culos 3D para ver o filme olhou dentro da casinha, fez cara de desprezo e perguntou ao senhor que estava ao lado com cara de quem-manda-aqui-sou-eu: Animal pode entrar?. Como animal  animal mesmo, entendi o que aquela boboca estava dizendo. O senhor disse apenas NO e seguiu. Comentei que Ozzy queria muito ver o filme porque Garfield era seu dolo (nossa, que ideia brilhante, deveria ter me enfiado no primeiro buraco), e ele perguntou quem havia permitido que eu comprasse os ingressos.

Ento a loira de coque chegou novamente mandando beijinhos para meu gato amarelo.

Foi ela quem disse que autorizou a entrada do gato, e eu, sem saber o que se seguiu na conversa, fiz cara de paisagem quando o homem disse que eu poderia entrar desde que o gato no fizesse barulho. Ou voc ter de sair, explicou. Mas o felino estava to quieto no passeio durante todo o dia que eu sabia que no haveria nenhum problema.

Mas eu no sabia que havia um inimigo de Ozzy dentro do cinema. Isso eu no sabia mesmo.

Sentei na primeira fileira aps o corredor que separa dois grandes blocos de fileiras no cinema. Ali eu teria mais espao para deixar a casinha de Ozzy nos meus ps sem atrapalhar as pessoas. O cinema estava cheio, mas ningum sentou ao meu lado. O filme comeou, as crianas berravam, os super-heris animais lutavam e eu bocejava. Resolvi dar comida para o gato. Abaixei-me, abri a casinha e ele estava deitado l no fundo, quieto, com os olhos fechados. Coloquei o pote de rao e o de gua. E depois disso, tudo foi muito rpido.

AU, AU.

Eu escutei AU, AU?

O barulho vinha de fileiras prximas  tela. Mas cachorro no podia entrar no cinema, podia? Tudo bem que gatos tambm no deveriam frequentar esses locais, mas aquele era um filme de gatos. Era o Garfield, oras. Entre gatos e cachorros, certamente os primeiros tinham prioridade.

MIAU.

Ozzy saiu correndo da casinha, subiu pelo meu colo, foi parar na fileira de trs e saiu pulando como um macaco na selva de cadeira em cadeira em direo ao projetor, enquanto um cachorro maluco saa correndo pelos corredores do cinema e um rapaz ruivo gritava: Bob, come here!, ao que o cachorro parecia no obedecer. Fiquei segundos olhando para a cena como se aquilo fosse o filme e ento comecei a correr atrs de Ozzy tambm, que naquele momento derrubava um pacote de pipoca de uma menina de uns seis anos, que comeou a chorar. A me gritou perguntando o que aquele gato estava fazendo no cinema, o pai se levantou e veio em minha direo berrando palavres (foram as primeiras palavras que aprendi em ingls), enquanto o cachorro e o rapaz continuavam correndo.

Era uma cena de cinema. No cinema.

Quando consegui agarrar Ozzy, eu j estava descabelada, as luzes acesas e o rapaz de cabelos vermelhos segurava o labrador cor de creme. Ao meu lado estava o gerente, que mandou todo mundo para fora. Quando sa, a moa que recolheu os culos deu uma risadinha de vitria. Dei o brao para o ruivo (que era um gato) s para provoc-la. Ela me olhou brava e eu segui de braos dados com aquele estranho de estatura mediana, magro, com sardas no rosto, um nariz perfeito e olhos verdes.

- Sorry - disse. Eu queria dizer desculpas por tudo: pelo gato, pela baguna e por ter dado o brao para ele, mas ns comeamos a rir.

- Where are you from? - Ele quis saber de onde eu era.

- Brazil - respondi, com aquele sotaque de Brasil com Z.

- No acredito! - devolveu o ruivo.

Quem no acreditava era eu. Mais um brasileiro no era possvel. Mas ele no tinha sotaque de...

- Sou de Portugal! - completou. E tudo estava explicado. - Nasci em Lisboa e vim para os Estados Unidos h um ano. Trabalho como pesquisador em uma empresa qumica e logo devo voltar ao meu pas. Estou a visitar vrias fbricas, mas moro em uma casa alugada em Memphis. E o que te traz aqui?

O ruivo havia me dado mais informaes sobre ele do que Alan nos ltimos meses desde que nos conhecemos. E Memphis, puxa, ele morava na cidade do Elvis!

- Nasci em Bady Bassitt, no estado de So Paulo, mas moro na capital. Sou jornalista e vim passar alguns meses aqui para escrever algumas matrias para uma agncia de notcias brasileira. Estou morando em Mason, Ohio.

- Agora que sei que voc no quis matar o Bob, quero saber por que trouxe o gato para o cinema.

- S se voc me contar por que trouxe o cachorro.

O portugus me contou que o cachorro era de um colega de trabalho de Saint Louis que participava de um programa para auxiliar a treinar ces-guia. So famlias voluntrias que ajudam os programas que treinam os ces. Depois de um tempo com a famlia, os ces voltam ao treinamento. Nem todos se tornam ces-guias para auxiliar deficientes visuais, mas o trabalho das famlias  muito importante. Esses cachorros tm o direito de frequentar todos os lugares e passam um ano com a famlia justamente para que possam aprender as regras da sociedade e de comportamento.

O ruivo me explicou detalhes do programa, e eu fiquei fascinada. Era lindo saber que existiam tantas pessoas em busca de maior mobilidade e liberdade para os cegos.

Mas o fato  que Bob no parecia exatamente preparado para o trabalho. E ento demos risada da situao inusitada que havia acontecido no cinema. Foi quando expliquei como Ozzy foi parar dentro da sala de projeo e quais eram minhas prximas viagens. Enquanto conversvamos, sentamos nos pufes vermelhos do lado de fora da sala de cinema. O gato dormia dentro da casinha e o cachorro estava deitado no cho. Misteriosamente, o jogo de polcia e ladro deles havia acabado.

Quando percebi, era hora de voltar para o albergue, ou eu correria o risco de ficar presa do lado de fora.

Antes de ir embora o ruivo me deu um papel com seu e-mail anotado e eu escrevi o endereo do meu blog para que ele acompanhasse minhas viagens: www.melissamoya.wordpress.com. Ele dobrou o papel sem ler e colocou no bolso de sua camisa.

- Ei - ele me chamou, e eu virei.

- Oi.

- Qual  o seu nome?

- Melissa Moya, e o seu?

- Daniel Dias - e sorriu. - Da prxima vez, vamos deixar os animais em casa.

Acenamos e eu fui embora. Prxima vez? No saberia se haveria prxima vez, embora sentisse falta de ter mais amigos na Amrica. Eu estava sozinha, meu namorado parecia no se importar comigo, meus amigos tinham sumido e meus pais pareciam estar escondendo algo de mim.

Theodoro ligou, mas eu no quis atender. Sabia que estava agindo de maneira estranha, mas nem eu mesma conseguia explicar o que acontecia entre mim e Tho. Ele era meu melhor amigo, mas no estava agindo corretamente com Viviane. O que eu esperava dele? Meu vizinho no havia feito nada de errado e eu estava julgando? No atendi mesmo assim, e ele me mandou uma mensagem.

Mel, tenho uma surpresa para voc e espero que goste. Conto depois de amanh! Beijo de marshmallow com brigadeiro, Tho.

Quis ligar de volta, mas s o que consegui fazer foi enviar outro torpedo.

Alan, gostou do brigadeiro? Volto amanh, no se preocupe. Beijos, Mel.

Mas ele no deveria estar preocupado, assim como minha me, porque naquela noite eu dormi sem respostas.



Gatlinburg


O Parque Nacional Great Smoky Mountains National
 Park transformou Gatlinburg, no Tennessee, em um
 destino para turistas de todo o mundo. A vista do parque
  linda, e a cidade  um atrativo para casais apaixonados,
 com ruas estreitas e natureza por todos os lados.

Eu no deveria ter tomado banho antes de sair do albergue.

Acordei, fui ao banheiro comunitrio e a situao no era nada animadora, s perdia para o banheiro do posto de gasolina em que fiz ioga para resolver meu problema. Havia fios de cabelo na pia, papel no cho e embalagens vazias de xampu dentro dos quadrados dos chuveiros. No eram bem locais apropriados para tomar banho, apenas uma sala quente e fedida com trs chuveiros separados por cortinas e com ralos entupidos.

Mas o pior ainda no havia chegado: o sabonete.

No h nada de que eu goste menos que resto de sabonete. Aquele finalzinho pequeno que fica seboso e que muitas pessoas insistem em juntar com outro pedacinho seboso (e ainda mais antigo) para formar uma bola de sabonete velha. Uma bola de sebo sem perfume, amorfa e de cor duvidosa, j que  uma mistura das cores de todos os restos ali prensados. Aqueles pedaos de sabonete me fizeram lembrar meus pais, l em Bady. Porque papai  perito em juntar sabonetes, ele jura que h alguma utilidade no processo, e mame faz artesanato com sabonetes - so flores em que as ptalas so finas fatias de sabonete de glicerina cobertas com gliter no final. Como nem todas as ptalas so usadas, mame as une e coloca para uso.

Resto de sabonete.

Papai dizia que era para economizar, que no poderamos desperdiar, mas, se era para economizar, eu preferia tomar banho com sabo em pedra, e no com toco de sabonete!

Pior que aquilo s sach de gaveta, que fica anos escondido nas meias e, quando  encontrado, tem cheiro pior que naftalina. Mame tambm faz sachs.

Tomei banho de chinelo, usei meu prprio xampu e sabonete, escovei os dentes e troquei de roupa. As malas estavam prontas no quarto, esperando para uma viagem de mais de seis horas. Sa do albergue s 9h e cheguei pouco mais de 16h em Mason, contando com as paradas para o almoo e para dar comida e gua a Ozzy.

Liguei o notebook e respondi alguns e-mails, entre eles um simptico de Daniel. Contei que iria para Memphis em alguns dias - pelo menos era a programao enviada pela agncia. Depois da mensagem de Theodoro (qual surpresa ele me contaria no dia seguinte?), ele no enviou mais nada. Samantha mandou um e-mail perguntando como estava a viagem e Michel me fez exatamente a mesma pergunta, mas no mencionou o aniversrio de nossa me.

Papai, por favor, pode me dizer o que est acontecendo que mame no me responde? Ela precisa conhecer a incluso digital e me mandar e-mails. O MSN e o Skype tambm funcionam bem melhor que o telefone, pai. Ela recebeu meu recado de feliz aniversrio? Voc est em casa? Voc saiu de casa? Se voc no me escrever, vou falar com o delegado. Beijos, Mel.

No  difcil conhecer o delegado em cidade pequena e, embora a ameaa parecesse infantil, eu no tinha alternativa, j que eles no atendiam ao telefone.

Quando ia entrar na internet para tentar encontrar Tho e perguntar sobre a surpresa, uma mancha preta comeou a aparecer em Lesma. A mancha comeou no canto inferior direito, apagou o que eu poderia ver do relgio do computador e eu percebi que ele estava quente. Fechei a mquina, reiniciei e o problema estava ainda pior. Da segunda vez que desliguei e tentei ligar, o notebook no respondeu. Quer dizer, ele estava ligado, mas a tela estava totalmente escura.

Bem que eu fui alertada de que comprar eletrnicos usados pela internet no era um bom negcio.

Fui  rea comercial mais prxima que conhecia em Mason com uma loja especializada em notebooks, que estava fechando quando pedi que me atendessem. Deixei Lesma para arrumar sem previso de retorno e guardei o papel com o telefone para saber notcias nos prximos dias. Eu estava deixando um amigo no hospital.

De volta ao apartamento, liguei o computador antigo e amarelado, que eu s havia usado algumas vezes antes de comprar o meu notebook. Deixei a mquina ligando enquanto fui ao banheiro. Quando voltei, uma luz do MSN piscava. Viviane deve ter deixado seu programa com senha e programado para entrar automaticamente da ltima vez que esteve em Mason. Era s desligar e conectar com o meu login, senha e...

Cac - Gatona, j chegou?

Qu? Gatona? Cac?

Viviane - Oi!

Digitei apenas oi para explicar que eu no era Viviane.

Cac - Voc disse que chegaria hoje, mas eu pensei que seria mais tarde.

No respondi. O que estava acontecendo?

Cac - Sobe aqui para matarmos a saudade, gata.

Cac - Vivi, para de frescura e responde.

Viviane - Cheguei bem, estou muito cansada.

Respondi como Viviane mesmo sem ser Viviane, mas, afinal, eu no estava mentindo na resposta.

Cac - Isso no  desculpa. No te vejo h muito tempo... Quanto... Um ms? Da outra vez que voc veio foi muito rpido, mas pelo menos a namoradinha do Alan no estava em casa. Voc quer que eu desa? Ah, coloca aquela calcinha vermelha da ltima vez?

Uma lmpada acendeu em minha cabea como nas histrias de desenho animado.

Tudo fazia sentido e Madame Marcela no estava errada, embora eu nunca pudesse imaginar. Eu s precisava confirmar.

Viviane - Caio, pode me fazer um favor?

Cac - Claro, gata.

Ento era mesmo Caio, ele confirmou.

Viviane - Me espere, vou tomar um banho antes e subo a mais tarde, o que acha?

Cac - Perfeito. Jante comigo e durma aqui. O Alan no est, e acho que vai passar a noite fora de casa.

Como assim, o Alan vai passar a noite fora de casa?

Viviane - Que bom!

Cac - Te espero.

Mas eu ainda precisava saber de um ltimo detalhe.

Viviane - O Theodoro comentou que uma caixa chegaria aqui e pedi que entregassem no apartamento dos meus vizinhos. Voc sabe, n?

Cac - T aqui louco de saudade e voc vem falar do bundo do seu namorado? Olha, Vivi, no me interessa se as famlias de vocs so amigas l no Rio, sabe? Termina com esse cara logo. Mas no quero falar dele, estraga qualquer clima. Que merda, hein, Viviane? Sobe aqui depois. Vou desligar.

Traio. Era disso o que minha me falava!

Viviane tinha um caso com Caio, o roommate de Alan, meu vizinho e suposto namorado.

Famlias amigas, namorado bundo, Alan fora de casa. Tudo ainda no fazia sentido, mas Alan parecia o menor dos problemas. Mesmo assim, fiquei desesperada. Com tanta preocupao, eu s sentia cime de Alan. Queria saber com quem estava, onde estava, por que no havia me telefonado. Liguei e deu caixa postal. Liguei de novo e deixei recado. Oi, sou eu, me liga. S isso. Eu tremia como se estivesse l fora sem casaco, naquele frio que congelava meus ossos e meus pensamentos. E ento comecei a chorar.

Chorei com medo de perder Alan. Com medo de nunca ter tido algo real com ele. De tudo ser resultado da minha imaginao apaixonada. Se  que aquele sentimento poderia ser chamado de paixo.

Chorei com medo de perder Theodoro. Com medo de eu no conseguir falar para ele. De tudo ser interpretado como imaginao frtil de amiga. Se  que aquele sentimento poderia ser chamado de amizade.

Tomei um banho de banheira demorado e minhas lgrimas se misturaram  gua. Eu no poderia contar para ningum. No tinha como contar com ningum. Se eu contasse a Tho, ele poderia achar que era intriga. Eu talvez no tivesse o direito de me intrometer na vida dos dois. Mas tambm no me sentia confortvel em esconder esse segredo. Se eu decidisse contar o que havia descoberto, telefone ou e-mail no eram as melhores maneiras de denunciar uma traio.

Como contaria voc est sendo enganado se eu no podia olh-lo nos olhos e pegar em sua mo para dizer que tudo ficaria bem, j que estvamos to longe?

Talvez no pegar nas mos, mas olhar nos olhos, j era bem melhor que telefone ou e-mail. Eu poderia encontr-lo no Skype ou no MSN com cmera e microfone. E justo agora que ele me prometeu uma surpresa e parecia to feliz. Primeiro eu o deixaria falar e contar as novidades e depois eu diria tudo o que aconteceu no apartamento. Mas talvez eu no devesse me importar tanto, afinal, ele estava saindo com Samantha e traa Viviane tambm.

Justo eu, que sempre falei tudo o que me passava pela cabea, estava com medo de contar ao meu amigo que ele estava sendo trado - e, alm de medo, ele tambm no merecia minha preocupao - e de falar o que sentia para Alan. Eram medos diferentes, mas ambos me calavam.

Dormi na banheira e consegui relaxar depois de um dia cansativo e revelador. Acordei com um barulho de salto alto na sala.

- Melissa! Voc est em casa?  a Viviane, cheguei!

No. No! NO! Tudo o que eu no queria era falar com algum naquele momento. E Viviane era a ltima pessoa que eu queria ver. De repente, silncio. O que eu deveria fazer? Contaria a ela que sabia de tudo ou fingiria que nada estava acontecendo? Eu poderia sair dali e morar em um albergue, sabia que encontraria timos lugares, j at tinha comeado a pesquisar nos sites de notas de hospedagem para no cair em uma nova roubada. A propsito, o albergue em Saint Louis recebeu apenas uma estrela no site. Eu deveria ter ficado atenta a isso antes de conhec-lo, mas pelo menos agora sei que os mochileiros foram sinceros, embora ele merecesse somente meia estrela.

O pior naquele momento no era sair do apartamento, mas contar para Tho o motivo pelo qual eu sairia de l.

A porta abriu, e eu j estava enrolada em uma toalha quando Viviane colocou a cabea dentro do banheiro. Posso entrar?, perguntou. Eu afirmei com um movimento leve de pescoo e ela veio em minha direo e me abraou. Viviane era uma mulher bonita, alta, magra (grande coisa, ela era modelo) e tinha a boca da Angelina Jolie. Era simptica e usava um vestido de corte reto e na altura dos joelhos cor de vinho. To elegante. A bolsa era de marca - uma mulher sabe reconhecer uma bolsa de marca mesmo quando no tem nenhuma, o que era meu caso. Viviane era exuberante, parecia sada de uma propaganda de xampu, com os cabelos esvoaantes e a maquiagem perfeita. E eu, envolta na toalha, quem era?, pensei. Uma jornalista no incio da carreira, sem dinheiro, que tenta viver em So Paulo, uma das capitais mais caras do mundo, e est em temporada nos Estados Unidos para um trabalho que nem sabe ao certo como ser divulgado. Uma mulher comum, com memria ruim, que fala o que pensa, mas que est em crise porque no consegue fazer isso com todas as pessoas.

Mas eu conseguiria com Viviane.

- Estou to feliz por conhecer voc, Melissa! - Ela parecia sincera. Traidoras podem ser dissimuladas.

- Eu teria dito isso h algumas horas, Viviane.

- O que aconteceu? - perguntou assustada.

- Eu no aprovo o que voc faz com o Theodoro. Ento, me desculpe, mas no posso ficar feliz por conhecer voc - disse enquanto caminhava em direo ao espelho e comeava a pentear meus cabelos molhados.

- O que est acontecendo? - Viviane perguntou com nfase em cada palavra e voz nervosa.

- Eu sei do seu caso com o Caio. Ou sei l o que voc tem com ele, no me importa. Mas no aprovo, porque voc est enganando o meu amigo, a pessoa mais bacana que eu j conheci.

- O que est acontecendo? - repetiu ela, mas dessa vez irritada.

- Viviane, por que voc engana o Tho? Por que no acaba logo o namoro se no gosta dele?

- Voc no tem nada a ver com isso. Alis, deve ter, no ? Pela foto no seu quarto, deve ter muito a ver com o meu namoro com o Tho - disse Viviane. A foto em que Tho me beija no rosto e eu olho para a cmera, aquela foto que tiramos antes de eu viajar. Ela s podia estar doida! Eu e Tho ramos s amigos. Quando nos conhecemos, foi identificao instantnea, um daqueles encontros que sabemos que vai mudar nossa vida inteira. Era amizade. Louca.

- Voc foi bisbilhotar o meu quarto? - questionei com as sobrancelhas arqueadas de raiva.

- Seu quarto? Essa casa  mais minha que sua. As pessoas vo e vm, mas eu passo muito mais tempo aqui que qualquer um.  praticamente minha casa.

Ento era daquele jeito que ela queria. Baixar o nvel. Tenho medo das pessoas que no gostam de ouvir a verdade. Porque parece que as verdades sempre machucam e voc passa a ser a vil da histria. Vtima  quem ouviu aquela monstruosidade que, de fato, foi o que fez a cagada. Eu tenho jeito para dizer o que penso para as pessoas que amo, mas no tenho nenhum motivo para medir palavras com quem no se importa comigo.

Naquele momento, eu era a vil porque contava a verdade.

E a verdade era que Viviane traa Theodoro. Tudo bem, para ela poderia no ser nada, para muitas pessoas no h nenhum problema em sair com outras, mas tenho certeza de que Tho confiava na namorada e se sentiria mal principalmente por perder a confiana nela. Por perder a confiana em sua melhor amiga havia tantos anos.

- Voc mudou de assunto, Viviane. No quer falar sobre Caio?

- O que eu tenho com o Caio no  da sua conta. Voc nem sabe como  minha vida com Theodoro. Voc no me conhece, no  minha amiga, no tem direito de opinar - Viviane aumentou o volume da voz.

- Voc tem razo. No te conheo, no sou sua amiga e no quero te conhecer nem ser sua amiga. Voc j afirmou o que eu queria, e no se preocupe, porque amanh cedo vou embora - disse, fechando a porta do banheiro e deixando Viviane l dentro. Entrei no meu quarto e comecei a arrumar as malas. Dessa vez, no para uma viagem, mas para sair de vez daquele lugar. Eu iria para Gatlinburg, no estado do Tennessee (adoro essa palavra), e depois decidiria onde iria morar. Talvez um pouco em cada canto em que pudesse escrever uma matria at voltar ao Brasil.

Retirei as fotos da parede e guardei na mala com as roupas. Separei sapatos e embalei em sacos plsticos, guardei livros que havia comprado com desconto na Barnes & Noble - a livraria prxima ao condomnio, imensa e com livros maravilhosos e a preos timos -, coloquei em uma pequena caixa minhas bijuterias e verifiquei se os documentos estavam na bolsa. Quando o celular tocou, desejei que fosse mame para me dar uma palavra de carinho. Mas no era.

- Mel, tudo bem? - disse Alan.

O que ele iria me contar? Que estava sumido por todo o tempo em que viajei e nem retornou minhas ligaes? Mas no, em vez de eu perguntar tudo o que queria, fiquei quieta. Alan tinha um poder sobre mim, uma fora que me fazia ter os melhores e piores sentimentos do mundo. Paixo e cime. Amor e raiva. Carinho e carncia. Submisso involuntria.

- Tudo bem, Alan. Amanh viajo para Gatlinburg, quer ir comigo? - perguntei. Ele aceitou e eu logo tive uma ideia incrvel. No era uma ideia que meus pais aprovariam e talvez eu me arrependesse muito depois. Tinha certeza de que me arrependeria. Mas a minha situao naquele momento era ainda pior. Eu me sentia sem rumo.

Ento decidi que iria morar com Alan.



Nashville


A capital do Tennessee  Nashville, apelidada de Music
 City (Cidade da Msica) por ser um importante polo da
 indstria discogrfica, assim como Memphis. O Ryman
 Auditorium  uma das mais famosas salas de concerto
 na histria da msica country, e o RCA Studio B  onde
 gravaram nomes como Elvis Presley e Dolly Parton.

No contei nada a Alan sobre a minha deciso de morar com ele. Durante a nossa conversa eu me senti muito culpada por ter sumido durante todos aqueles dias. Eu sabia que havia deixado o brigadeiro e um recado, mas mesmo assim ele me disse que fui eu quem viajou e o deixou sozinho em Mason. Comentou que estava chateado, e eu senti uma culpa que doa meu peito, bem onde deveria estar meu corao. Alan foi carinhoso comigo e disse que sentia saudade. E eu posterguei a informao de que me mudaria no dia seguinte.

Viviane no estava mais na sala. Liguei o computador amarelado da casa e encontrei Blanda conectada. Tnhamos voltado a nos falar desde que recebi o convite para a sua festa  fantasia de aniversrio e no pude comparecer. Eu me arrependo de ter perdido tantas datas importantes por causa do jornal depois do que Cristiano e Sara Lara aprontaram comigo, mas s de saber que voltara a falar com minha amiga j era uma alegria. Na verdade, foi Teca, uma amiga nossa, quem nos convidou para a festa. Nem Blanda sabia e seria uma surpresa. Ela s ficou sabendo que eu fui convidada dias depois, quando escrevi um e-mail me desculpando por no ter ido e perguntando como estavam as coisas.

Foi quando Blanda me contou que estava noiva e que ia se casar. Prometi que no faltaria dessa vez, porque j estaria de volta ao Brasil. Nem sei por que paramos de nos falar, mas foi um pouco antes de eu me mudar para So Paulo. Eu s pensava em sair de Bady Bassitt e fazer faculdade na capital. Estudei muito e me distanciei de amigos. S Samantha, que tinha o mesmo sonho, suportou tamanha convico. Talvez eu no tenha sido justa com alguns amigos, talvez eles no tenham sido compreensivos comigo.

Blanda - Melissa, que bom te ver online!

Mel - Quanto tempo!  to estranho nos falarmos depois desses anos todos. H quanto tempo no nos vemos? Eu devia ter uns 16 ou 17 anos? Senti sua falta.

Blanda - Eu tambm senti sua falta, Melzinha. J sei que se tornou jornalista e adorei quando me contou desse projeto Amrica sobre rodas. Segui o caminho do Direito que minha me queria, voc lembra?

Mel - Eu me lembro! Quando eu me afastei, voc j estava na faculdade de Direito. Eu te admirava tanto!

Blanda - Que bobagem, Mel! Eu nem queria ser advogada!

Mel - E agora, voc  feliz?

Blanda - Como eu te contei no e-mail, agora eu me descobri. Eu sei do que gosto.

Mel - Voc tambm saberia dizer como descobrir quando algum te faz feliz?

Eu no entendia por que estava desabafando com uma amiga com quem no falava havia tanto tempo, mas sempre confiei na Blanda. Ela tinha um jeito atrapalhado, mas era uma pessoa confivel. Quando ramos bem menores e nossas mes se encontravam, ela me ajudava a fazer a lio de casa, mas dizia que meu maior problema era no conseguir decorar a matria. Minha memria no foi feita para decorar nada! Ento ela me explicava tim-tim por tim-tim. E as lies de educao artstica ela praticamente fazia por mim.

Blanda - Mel, antes de gostar de algum, descobri que precisava gostar primeiro de mim mesma. Voc precisa pensar que o cara no pode te fazer se sentir mal. Se voc se sente mal, h algo errado. - Ela contou sobre o seu futuro casamento e como tudo comeou de uma maneira que ela no esperava, mas que estava feliz. A conversa durou mais de uma hora, quando olhei para o relgio e disse que precisava dormir porque ia me mudar no dia seguinte.

O ms de novembro comeou muito frio, e a casa estava com o aquecedor ligado. Mesmo assim, eu me cobri com dois edredons e fiquei quietinha embaixo das cobertas com Dilin, o meu boneco que acende a cabea. Ligava, desligava e pensava como tudo era mais fcil quando eu era criana e Marcos ainda estava comigo e com Michel. Uma perda sempre muda tudo.

O sol entrou por uma fresta da cortina azul clara, e eu sentia um cheiro diferente no ar. Quando sentei na cama, l estava ele. L estavam eles, em um castelo, amontoados.

Theodoro me aguardava sentado na cama sobre uma perna. Sorriu e me estendeu uma bandeja com uma torre de marshmallows quentinhos. Fiquei to feliz por v-lo que no pensei em sujeira, em nada. Dei um pulo e ca em seu abrao. Derrubei Tho na cama e o apertei forte. Como era bom ter um amigo ao meu lado!

Quando levantamos, nossas blusas estavam melecadas com marshmallows. Rimos e comeamos a lamber as mangas. Tho pegou meu Dilin e encheu sua boca de plstico com doce. Ozzy subiu na cama com curiosidade e comeou a comer a meleca que estava no edredom.

- Eu estava com tanta saudade!

- Eu tambm... do seu brigadeiro!

- Seu interesseiro!

- Essa era a minha surpresa: eu! Gostou?

- Adorei.

- Vamos acrescentar dicas gastronmicas aos roteiros que voc escreve, ento adivinha quem vai junto com voc em suas aventuras para fotografar as comidas deliciosas? - disse ele, j apontando os dois indicadores para seu peito estufado. Demos mais um abrao e comemoramos com um brinde indito de marshmallows esmagados.

- O prximo roteiro  Gatlinburg e Memphis, em Tennessee. Depois vamos conhecer o Arkansas. Sei que estamos em uma poca fria, mas o trabalho no para - comentei como uma jornalista experiente. - Ei, mas e Funk? O que voc fez com o seu cachorro? - perguntei com preocupao.

- Voc no vai acreditar, mas ele est na sua casa.

- Na minha casa? Mas como voc conseguiu isso? Ah, j sei: Samantha, n? - disse, com cime.

- De certa forma, tambm. Samantha me ajudou a falar com Michel e ele aceitou que Funk ficasse l at eu voltar. Fiquei mais tranquilo por saber que cuidaro bem dele, mas agora ele e Lady tero de se entender.

Em seguida, Theodoro ficou srio, e eu sabia que ele perguntaria o que eu no queria responder. No naquele momento.

- Viviane me contou que voc vai sair do apartamento da agncia, mas disse que voc no explicou o motivo.

Que raiva daquela garota! Mentirosa, falsa, traidora! E ainda queria me colocar contra Tho. Eu no podia falar a verdade naquele momento, na casa de Viviane e com ela na sala ao lado. Queria conversar com ele quando estivssemos sozinhos, para que ela no pudesse interferir. Queria que ele pensasse no assunto sem que Viviane estivesse por perto para tentar convenc-lo de que eu estava mentindo. No era a hora, e eu no estava preparada para ver Tho sofrendo.

- Vou morar com Alan - respondi.

- Mas vocs namoram h to pouco tempo! Por que vai fazer isso?

- Gosto dele, Tho - disse. Era verdade. Talvez fosse verdade.

- Mas voc ainda pode ficar aqui... - s que eu no deixei que ele completasse a frase. Coloquei um marshmallow em sua boca e ele mastigou sorrindo. Sabia que eu no queria continuar o assunto. E eu sabia que ele tambm no queria.

Foi quando Viviane entrou no quarto. Sem bater na porta. Disse bom dia com um sorriso (falso) simptico e abriu as cortinas completamente, para que o sol pudesse entrar. Chegou perto de ns na cama, abraou Tho por trs e, quando ele virou o rosto, ela o beijou. Viviane o beijou! Eu tive vontade de afastar Theodoro e enfiar pimenta na garganta daquela dissimulada.

Levantei da cama e fui para o banheiro. Tive vontade de vomitar de tanto nojo daquela mulher. Nem quando Sara Lara aprontou comigo no jornal tive essa sensao. De alguma forma, s achei que ela era babaca. Tive raiva,  verdade, mas nada comparado a ver Viviane beijando Tho. No consigo assistir a uma injustia sem fazer nada! Naquele momento, consegui. Minha vontade de gritar a verdade era enorme, mas eu precisava do momento certo para contar tudo ao meu amigo.

Era hora de sair daquele apartamento.

Quase tudo estava arrumado, faltavam apenas os itens de higiene pessoal, que eu guardei em uma sacola. Coloquei os materiais de escritrio na mochila menor, que estava quase vazia sem meu notebook, e acomodei Ozzy Osbourne em sua casinha. Foi quando ouvi o celular tocar em cima da cama. S podia ser minha me, que era uma das poucas que depois de tanto tempo de viagem ainda telefonava em vez de mandar mensagens de texto ou conversar comigo pela internet. E eu precisava tanto falar com minha me, ouvir sua voz e saber se tudo estava bem.

- Filha?

- Me, que alvio falar com a senhora! O que aconteceu, me? Por que no ligou, mandou mensagem ou respondeu os e-mails? Est tudo bem? Todos esto bem?

- Filha, eu estou grvida.

h? Minha me estava falando de quem?

- Quem est grvida, me?

- Voc no ouviu errado - disse ela, com a voz suave.

O que se diz para sua me quando voc descobre que ela est esperando um beb?

- Parabns, me!!! - gritei. - E parabns duplo, pelo beb e pelo aniversrio! - lembrei.

Ela tinha apenas 44 anos. Sempre achei mame muito nova, e  claro que ter um filho no passava pela cabea dela, mas naquele momento eu achei to lindo! At hoje eu acho muito bonito saber, na verdade, que o milagre da vida no  algo que s ns podemos decidir. A gravidez de minha me ela no escolheu, mas como dizia tia Clara, Deus ri enquanto o homem planeja a prpria vida. As surpresas do destino podem ser melhores que os nossos prprios planos.

Mame me contou que descobriu a gravidez quando j estava com mais de dois meses de gestao. Ficou nervosa, teve uma crise de depresso e no sabia o que fazer. Tudo porque seu medo de perder um filho voltou. Ela imaginava que aos 44 anos no pudesse gerar uma criana saudvel, e que o beb morreria. No culpo minha me, a vida lhe mostrou caminhos tortuosos. Em vez de nos contar a novidade quando soube, pediu ao meu pai que no dissesse nada a ningum, e ele - que no consegue guardar segredos - preferiu no conversar conosco enquanto no pudesse revelar a notcia de que seria pai novamente.

Talvez uma pessoa de fora no entendesse a escolha de mame. Mas eu entendia. S quem conhece a morte de perto, em sua traioeira inverso da ordem natural da vida, quando leva uma criana antes dos pais, pode entender uma me cautelosa.

Quando completou trs meses de gravidez, o medo comeou a ir embora como uma nvoa que se dissipa. Foi naquele dia que mame me telefonou. Era por isso que meus pais estavam to estranhos!

Mas nada justificava o sumio de Michel, j que ele no sabia de nada ainda. Esperei alguns minutos para que minha me telefonasse para contar a ele, como ela me pediu, e enviei um torpedo para o celular do meu irmo.

Fofo, vamos ter um irmozinho! Agora me diga: por que voc est sumido? Beijos, Fofa.

Eu sentia como se todos da minha famlia estivessem me escondendo segredos.

Contei a novidade a Tho, que me abraou e deu parabns pelo novo irmo. Ele abriu a porta para eu sair e me ajudou com as malas at o andar de cima. Pedi que voltasse para o apartamento de Viviane antes de tocar a campainha. Ele no perguntou o motivo, mas eu sabia que era porque ainda no havia contado nada a Alan. Combinei com Tho que nos encontraramos em uma hora na porta do condomnio, porque viajaramos juntos no carro que a agncia alugou para ns. Seria bom t-lo como companhia.

Bati na porta e pude ouvir o barulho do meu corao. As batidas eram fortes e rpidas.

Alan apareceu, disse Bom dia, honey, como se nada de ruim tivesse nos acontecido, e fitou as malas no cho. Desde que eu havia comeado a viagem, comprei mais sacolas e mochilas para colocar tudo o que acumulava nos Estados Unidos.

- Preciso viajar de novo e no tenho onde deixar essas coisas. Sero poucos dias e eu nem vou ficar por aqui - tentei me explicar.

- Tudo bem, no ficarei por aqui tambm - respondeu, enquanto pegava uma mala em cada mo e levava para dentro do apartamento. Eu o segui.

- Voc vai viajar? - perguntei hesitante.

- Com voc - respondeu ele, seguro. - O apartamento s tem dois quartos, como o de Viviane, mas voc pode ficar no meu, porque o outro  do Caio. Como vamos viajar agora, voc pretende levar tudo ou quer fazer uma mochila menor?

- Acho melhor arrumar algumas roupas na mochila pequena, voc tem razo - comentei. Alan era to carinhoso quando queria. Atencioso, preocupado e gentil. Ele sorriu daquele mesmo jeito que eu notei no dia em que nos conhecemos, no passeio de barco e nos dias seguintes em Cincinnati. O mistrio nos olhos de Alan era uma mistura de perigo e envolvimento que me atraam. Mas eu no conseguia me sentir segura nem mesmo no dia em que ele estava amvel.

Caio estava no apartamento e me disse que adorava gatos e que poderia cuidar de Ozzy para mim. Deixei casinha, comida, potes de rao e gua e uma reserva de cinco quilos de rao em um pacote. No me agradava a ideia de deixar meu felino com o amante de Viviane, mas Caio pareceu gostar realmente de gatos, e assim Ozzy teria companhia. Alm do mais, Caio no sabia que eu havia descoberto o seu segredo. Na noite anterior ele poderia ter visto Viviane, porque me fechei no quarto e, se ela saiu, no vi. E no tive coragem de perguntar a Alan se ele realmente no havia dormido em casa.

Alan colocou algumas roupas em uma pequena mala preta e seguimos para o carro. Eu estava na direo e estacionei na sada do condomnio. Avistei Theodoro, acenei e avisei Alan de que iramos viajar todos juntos. Eu sabia que corria o risco de que um dos dois desistisse, mas preferi dizer na ltima hora. Se eu contasse antes, poderia perder a companhia de Alan, o homem de quem eu gostava. Ou podia ficar sem meu amigo Tho e prejudic-lo no trabalho com as fotos. Quando Alan percebeu que Tho iria conosco, disse somente Voc devia ter me dito que seu amiguinho ia junto. Tho estava sorridente at chegar ao carro. Abriu a porta de trs, entrou e nos cumprimentou. Oi, Mel. Eu no sabia que ele vinha. O que no foi exatamente um cumprimento a Alan. Nunca havia visto Tho daquele jeito, mas mesmo bravo ele continuava lindo.




A viagem at Gatlinburg teve quase seis horas de durao. Chegamos  noite. Durante todo o percurso eu vivi as horas mais constrangedoras da minha vida (pelo menos dentro de um carro). Dois homens e eu. Nunca havia me sentido to Dona Flor como naquele dia. Era possvel sentir quando algum respirava mais alto ou engolia em seco. Ningum falava nada.

Decidi parar em Knoxville para dormir. Em um albergue. Na recepo, pedi aos dois rapazes que buscassem minha mala, porque havia esquecido os documentos nela. Era uma desculpa para ficar alguns segundos a ss com o atendente e pedir No me faa perguntas, por favor, s diga que possui trs quartos individuais e nenhum quarto duplo. Ele deu uma risadinha como quem diz J entendi tudo e repetiu as mesmas palavras quando Alan e Tho voltaram. Tive uma noite tranquila e somente na companhia do meu boneco rosa que acende a cabea.

No dia seguinte, para piorar a situao, quando chegamos a Gatlinburg, notei que a cidade era perfeita para lua de mel, como Campos do Jordo, em So Paulo, ou Monte Verde, em Minas Gerais, no meio das montanhas. Deixamos tudo no carro e fomos para o Great Smoky Mountains National Park. O nome devia vir da camada branca que era possvel ver no parque todo. Subimos uma pequena trilha, e Tho tirou fotos para mim, enquanto eu anotava algumas impresses em um bloquinho e Alan resmungava em volume baixo.

Decidimos seguir viagem para Memphis naquele mesmo dia e parar quando o cansao chegasse e nenhum de ns pudesse mais dirigir. Mas no foi preciso escolher. Quem decidiu parar no foi um de ns trs. Foi o carro.

- O que aconteceu? O carro parou! - disse, desesperada, quando notei que no andava mais.

- Calma, vou descer para ver o que pode ser - comentou Tho.

- Pode deixar que eu entendo de carros - retrucou Alan.

Desci do carro, notei pelo GPS que estvamos em Nashville e minutos depois os dois me olhavam com uma cara no muito feliz. Ento Alan disse:

- Estamos sem gasolina, motorista.



Memphis


Maior cidade do Tennessee, Memphis  conhecida
 como a cidade de Elvis Presley. A manso em que o
 astro morou de 1948 a 1977  chamada de Graceland
 e hoje  um museu visitado por cerca de 600 mil
 pessoas todos os anos. No Sun Studio, que tambm 
 aberto para visitas, Elvis foi descoberto e gravou seu
 primeiro disco.

- Como voc deixou a gasolina acabar, Melissa? - Alan me questionava.

- Mas ningum mais viu a gasolina? Eu no vi, estava com mais dois motoristas e esqueci... Ou seja, esquecemos todos, no ?

- Voc estava dirigindo, honey - mas no era uma afirmao carinhosa. Era de culpa.

- Calma, cara, no fale desse jeito porque no vai ajudar nada - disse Tho para meu namorado. - E Mel, tudo bem, acabou mesmo, no podemos produzir gasolina, todos esquecemos, ento de que adianta ficarmos aqui brigando? Vamos ver se o GPS nos mostra algum posto de gasolina por perto?

A ideia era boa, e o resultado foi que o posto mais prximo estava a trs quilmetros. Como estvamos sem gasolina, tnhamos algumas opes que a matemtica poderia calcular para mim. 1) Eu iria at o posto sozinha (essa opo estava descartada, pois eles poderiam se matar); 2) Tho iria at o posto sozinho; 3) Alan iria at o posto sozinho; 4) Tho e Alan iriam ao posto juntos (mas eu no queria ficar sozinha); 5) eu iria ao posto com Tho; ou 6) eu iria ao posto com Alan. S nos restava uma ltima alternativa: 7) Irmos todos juntos ao posto de gasolina.

Fora do carro, em uma estrada deserta, a temperatura devia ser de menos de cinco graus, o que parecia um pouco abaixo da mdia mnina para o ms de novembro segundo o que eu havia pesquisado na internet. Senti falta do casaco que esquecera em New Jersey, mas consegui um novo na loja prxima ao condomnio em Mason por sete dlares. Parecia mentira que um casaco to quentinho custasse somente sete dlares, menos do que custaria um lanche. Mas aquilo me fascinava nos Estados Unidos. Promoo era realmente sinnimo de preos muito baixos.

Sa do carro com meu casaco cor-de-rosa beb com flores pink (custava sete dlares, no podia escolher a cor) e vesti meu kit-frio: touca e luvas da mesma cor das flores do casaco para combinar. Um pouco chamativo, disse Alan quando me viu. Tho balanou a mo como quem diz ele no sabe nada e dei risada. Alan no deve ter visto, mas me puxou pela mo no mesmo instante.

Caminhamos.

Caminhamos.

Caminhamos.

E eu me lembrei que estava com uma bota de bico fino cor-de-rosa lindssima que havia comprado na mesma liquidao. Quando compro algo, quero tudo para combinar com aquela pea. Sou capaz de compor um look completo a partir de um brinco e no final das contas nem usar o brinco depois (porque provavelmente eu o esqueci). Quando comprei o casaco barato, precisei comprar as luvas, a touca e as botas. O casaco me esquentava, era verdade, mas no muito, porque eu no havia colocado nada por baixo dele alm de uma fina blusa. E as botas acabavam com o meu p.

- Melzinha, da prxima vez, no esquece mais a gasolina. Voc pode fazer uma anotao em um caderno para no se esquecer dessas coisas bsicas - disse Alan antes de me beijar na bochecha. Ele me deu uma piscadinha e eu pisquei de volta. Alan era lindo. Era misterioso e lindo.

- Podemos tentar pegar uma carona no posto de gasolina para voltarmos mais rpido - sugeriu Tho.

- tima ideia! - concordei.

- Se o Mr. Simptico conseguir uma carona e tiver coragem de aceit-la, pode ir buscar o carro que eu fico com minha gata no posto. Ns podemos esperar.

- Ns podemos voltar todos juntos - disse a ele.

- Ns podemos esperar, no podemos? - repetiu Alan. E eu, estpida, em vez de dizer o que estava pensando de verdade (no, ns podemos ir com Tho, nunca o deixaria ir sozinho com um desconhecido at o carro s para me buscar, que coisa mais machista), eu apenas sorri e confirmei com a cabea.

- Isso me lembrou uma piada de um macho que queria... - mas Theodoro foi interrompido por Alan.

- No precisamos de piada agora. Estamos andando, temos muito para andar ainda e voc quer contar piada para descontrair? No vai ajudar em nada.

- Bom humor sempre ajuda - respondeu Theodoro, e o assunto parecia ter terminado.

Andamos por um tempo que eu no sei quanto foi, mas que senti como horas. Cheguei com o casaco emprestado de Theodoro e ainda tremia de frio. Fiquei com d de deix-lo com um casaco a menos, mas ele me garantiu que estava aquecido o suficiente. Alan tirou sarro com Obrigado, Mr. Gentleman em tom de ironia, como se dissesse um desaforo.

Chegamos ao posto, compramos a gasolina e conseguimos carona com uma moa que trabalhava no caixa e se prontificou a nos levar ao carro. Mas s havia um lugar. No tive dvidas: escolhi voltar sozinha e deixar os dois me esperando. Quanto ao perigo de os crianes se matarem na minha ausncia, era uma escolha s deles. Naquele momento eu s queria chegar logo a qualquer lugar que tivesse chuveiro e uma cama. Entrei e achei aquele carro azul espaoso, apesar de no comportar mais pessoas. A moa me disse que era um Chevy El Camino 1969 herdado do pai. Senti saudade do meu pai em Bady Bassitt. Meu pai que ia ser pai novamente!

Ficamos em Nashville mesmo, em um quarto triplo - contra a vontade dos rapazes, que s concordaram quando ameacei que, se falassem algo a mais, eu sairia berrando que havia sido sequestrada por eles, e queria ver como se explicariam para a polcia. A ameaa de escndalo os manteve quietos por pelo menos algumas horas de sono. A viagem de trs horas e meia at Memphis no dia seguinte foi feita por Theodoro, enquanto eu dormia no banco do carona e Alan dormia esticado no banco de trs. Desde Mason, foram sete horas de estrada, contando que paramos na metade do caminho por causa da falta de gasolina.

Valeu a pena chegar a Memphis! A cidade era encantadora. E tudo o que eu mais queria era conhecer a casa de um dos meus cantores preferidos.

Deixamos as malas em um hotel. Ficamos separados. Alan pegou um quarto para ns dois e um separado para Theodoro. No queria aquilo, mas ele me lanou um olhar de reprovao, em seguida me disse que havia preparado uma surpresa para ns e eu no resisti. Quando cheguei ao quarto, imaginava que haveria algo  minha espera, com uma cama com ptalas de rosa e chocolates. Ele era to doce quando queria e podia ter preparado algo sem que eu percebesse.

- Onde est a surpresa? - perguntei ansiosa.

- A surpresa sou eu, honey - disse Alan, enquanto desabotoava a cala.

- Pode parar agora com isso. Vamos descer, Theodoro est nos esperando (verdade) e tenho de entregar um relatrio sobre essa cidade hoje (mentira), alm de que precisamos parar para almoar (mais uma verdade). - Deixei Alan sozinho no quarto e bati a porta. L embaixo, eu e Tho esperamos Alan descer - o que s aconteceu 20 minutos depois -, almoamos na lanchonete ao lado do hotel e fomos ao primeiro ponto de interesse. Os trs calados. Alan dirigindo, eu ao lado e Theodoro no banco de trs.

Chegamos  regio de Graceland - a manso de Elvis Presley. Era tudo lindo, e eu realmente no achei que fosse ficar to surpresa. Ficamos horas l na casa, depois visitamos o museu do cantor, os avies que ele tinha e o museu de carros, j que ele fazia coleo de automveis. Ainda estava com o mesmo casaco rosa do dia anterior, com outra blusa, e quando Tho viu o cadillac rosa, no resistiu e pediu para tirar uma foto minha com o carro.

A casa do Elvis  linda, parece uma exibio de mentira, e no um lugar em que algum realmente morou. A sala com tecido escuro e colorido no teto e uma mesa de bilhar bem no centro foi uma das minhas preferidas.

Quando chegamos a uma sala em que todas as roupas do astro estavam expostas, Tho fez cara de pensativo e disse:

- Eu escolheria aquela branca com pedras coloridas para fazer um show, e voc?

- Eu escolheria a mesma roupa! - e dei risada. - E voc, Alan, qual roupa prefere?

E ele, sem entrar na brincadeira, s disse:

- So todas bregas.

Bregas?

Alan disse que Elvis Presley era brega? Eu no podia acreditar. Elvis  um mito; fico imaginando como deve ter sido quebrar barreiras naquela poca, em que nenhum cantor bonito como ele fazia rock. Ele criou um estilo, foi descoberto pela secretria da gravadora. Era um talento incontestvel. Em vez de responder, Tho fez um convite que parecia provocar Alan. Ele queria visitar o estdio de Elvis. E eu gritei Obaaaaa, vamos!. Alan era voto vencido.

Fomos ao Sun Studio, o local que revelou no somente Elvis Presley mas tambm outros cantores da poca. O tour foi feito por um rapaz simptico que parecia amar o seu trabalho, o que nos deu a sensao de estarmos entrando no melhor estdio do mundo. A visita foi incrvel, a no ser pelo fato de que Alan parecia preocupado com algo que eu no sabia o que era. Cheguei perto dele e perguntei:

- Est tudo bem? Voc quer ir embora?

No sei como propus ir embora se estava gostando tanto, mas ele s disse:

- Tudo bem, divirta-se.

Theodoro gostava de Elvis tanto quanto eu, mas no era s isso que o motivava a estar alegre. Parecia que ele admirava a raiva que Alan estava sentindo. Uma espcie de provocao de machos. A National Geographic poderia explicar melhor.

Theodoro comeou a cantar as msicas de Elvis no microfone antigo (desligado). O mesmo microfone que Elvis usara.

E eu era sua tradutora simultnea. quela altura, o meu ingls j estava bem melhor. Tudo o que Tho-Elvis cantava, eu traduzia em um microfone invisvel ao lado dele. A ideia no era ter plateia, mas aos poucos as pessoas se juntaram em volta de ns e comearam a tirar fotos, provavelmente sem entender uma palavra do que eu dizia em portugus, mas muito possivelmente encantadas com o lindo brasileiro.

Were caught in a trap, comeou Tho. Fomos pegos em uma armadilha, traduzi, como se estivssemos naqueles programas cafonas de rdio durante a madrugada. I cant walk out, because I love you too much, baby, cantava meu amigo, olhando diretamente nos meus olhos. Eu no posso sair, porque eu te amo muito, querida, e ento Theodoro comeou a danar. Um casal que estava na plateia deu risada e eu logo percebi que eles entendiam portugus. Todos danavam, provavelmente contagiados pelo clima do lugar, com aquelas fotos de Elvis e imaginando que um dia o astro realmente havia cantado naquele estdio.

Cantamos a msica inteira, que era uma das minhas preferidas de Elvis e que Theodoro sabia a letra sem erros, at o fim. Eu j no traduzia tudo, mas danava ao seu lado como uma Chacrete. Ao trmino, todos bateram palmas, e o guia brincou que deveria dividir as gorjetas conosco no final do tour. Alan estava em um canto com os braos cruzados, esperou que a msica acabasse e me puxou. Ficamos parados at que todos sassem do estdio. Nesse momento, Tho saiu com o guia e ficamos somente eu e Alan.

- Melissa, eu no gostei. No gostei nem um pouco - Alan no disse mais nada, mas eu percebi que era cime.

- Alan, o Tho  s meu amigo, no precisa ficar assim - disse com voz calma e um sorriso que ele no retribuiu.

- Tudo o que eu sei  que ele no quer ser seu amigo. Sou homem e no sou cego - completou Alan, deixando-me sozinha no estdio.

Voltamos para o hotel com Theodoro na direo e eu ao lado. Ele ligou o rdio em volume mximo, e Alan, no banco de trs, s faltou voar no pescoo do motorista. Com a msica bem alta e Alan irritadssimo com a cabea para trs, encostada no banco do carro, Tho comeou a cantar baixinho a msica de Elvis. No rdio tocava Lady Gaga, e eu me lembrei da minha gata em So Paulo e do meu gato em Mason, mas no pude deixar de notar a expresso sorridente do meu amigo quando cantava baixinho para que s ns dois pudssemos ouvir. Era uma verso s dele, com as frases em sua ordem prpria. Why cant you see, what youre doing to me, because I love you too much, baby.

No pude ignorar a traduo e senti que fiquei vermelha.

Pedi que Alan comprasse fio dental em uma farmcia prxima ao hotel porque eu precisava de fio dental, era neurtica por fio dental e no poderia esperar at mais tarde. No era exatamente verdade, mas como o discurso de Alan de que precisamos escovar os dentes blblbl era sempre muito presente, ele no suportaria a ideia de sair com uma namorada que no tivesse usado o bendito fio. Claro que ele levou o dele na viagem e eu joguei fora para que ele pensasse que o havia esquecido em Mason. E assim, enquanto ele ia  farmcia, eu tomava banho tranquilamente e me trocava.

Quando Alan voltou, eu estava pronta e aguardando sentada no sof da recepo do hotel. Usava um vestido vermelho de mangas compridas e um casaco de couro falso marrom, porque eu no tinha coragem de comprar couro. Um animal morreu para fazer uma blusa para mim? No, obrigada. Meus casacos eram lindos, e aquele marrom eu consegui por um preo especial na mesma loja do casaco rosa com flores pink. No exatamente por um preo to camarada, mas foi um presente antecipado de Natal para mim mesma. Puxa, o Natal seria em pouco mais de um ms e aquela era a primeira vez que eu pensava na data.

Onde passaria o Natal? Com quem? Ser que eu ficaria sozinha?

Alan me entregou o fio dental e eu disse que esperaria l embaixo lendo um livro, assim ele poderia tomar banho sossegado. Ele no pareceu gostar, mas olhou para os lados, viu que Theodoro no estava comigo e disse: Deso em poucos minutos, hon, a abreviao de honey que ele tanto gostava de usar. s vezes eu me incomodava com algumas expresses em ingls e tinha vontade de dizer Alan, sou brasileira, fale em portugus, mas como as palavras eram to lindas, havia momentos em que eu achava encantador. Ou eu era bipolar, ou ele, ou ns dois. A quarta opo era que nossa relao no era um namoro to comum como sempre imaginei. Apenas isso.

Esperei uns 15 minutos fazendo anotaes em um bloquinho para mais tarde escrever um post no meu blog. Quando olhei para cima, dois homens lindos me esperavam. Parecia cinema. Theodoro, alto e com braos fortes, sorriso encantador, cabelos castanhos e olhos daquela cor que parece brigadeiro com s um pouco de chocolate. Tambm vi Alan, com aquele rosto quadrado, furinho no queixo, cabelos pretos e olhos verdes, sorriso sem mostrar os dentes, misterioso e sedutor. Cada um me puxou por uma mo e eu levantei.

- Vamos, rapazes? - perguntei descontrada.

No carro, Alan dirigiu e eu estava ao lado. Ele apertava a minha coxa com a mo direita, enquanto segurava o volante com a esquerda. No gostei. Parecia que ele queria mostrar para o passageiro do banco de trs: Olhe s, essa mulher  minha. Eu tentei tirar a mo dele do meu colo e ele acariciou meus cabelos.

- Voc est uma gata, Melissa.

Fomos ao B.B. Kings Blue Club, na Beale Street. A Beale  a rua mais movimentada de Memphis, com diversos bares de rock e blues, j que a cidade  considerada a casa do blues e o bero do rock. Theodoro levou sua cmera para que pudesse fotografar os lugares (e assim eu estava descansando da minha posio de fotgrafa enquanto ele estivesse comigo) e as comidas. Falar sobre a culinria era um dos pontos de interesse da agncia, e eu gostava daquilo.

Comeamos pelas Memphis Wings, prato conhecido nos Estados Unidos como Buffalo Wings, asas de frango apimentadas e com molho de blue cheese, um queijo delicioso e que no tenho a menor ideia se possui equivalente no Brasil. Antes de atacarmos os pratos com as mos, Tho fez suas fotos, sempre com o bar como cenrio. Ficaram lindas!

Enquanto Tho fotografava, percebi que a noite no seria fcil.

- Seu trabalho  fotografar comidinhas, Mr. Simpatia? - provocou Alan.

- Alan, por favor, no seja rude com o Tho.  um trabalho lindo e ele  muito talentoso.

- E voc faz exatamente o qu aqui no pas, Mr. Arrogncia?

- Tho, por favor, no provoque. O Alan  professor, j te contei.

- E pode ficar viajando com a namorada sempre que quer? Ainda sugere locais distantes como Roanoke Rapids? Voc conhece gente no pas inteiro, por acaso? - disse Tho.

- Se eu disser que sim, voc no vai acreditar, mas sim. E no  da sua conta - devolveu Alan.

A conversa continuou durante todo o tempo em que comemos nossa entrada, o prato principal e a sobremesa (que eu no esqueo, porque era um delicioso Hot Fudge Brownie Sundae). Enquanto Tho fotografava, Alan apenas caoava, e eu imaginava que nada podia ser pior que aquilo.

Mas no dia seguinte eu descobri que podia.



Pine Bluff


Cidade do Arkansas, Pine Bluff est localizada a 71km
 de distncia da capital, Little Rock. Possui o Band
 Museum, considerado o nico museu do pas dedicado
 a instrumentos de bandas. J o Delta Rivers Nature
 Center proporciona um passeio pela natureza. Cidade
 pequena e com povo simptico e acolhedor.

- Samantha, calma. Respire fundo e tenha calma. Pare de chorar ou eu no vou conseguir entender o que voc quer me dizer. - Enquanto eu segurava o telefone, Alan me chamava, e eu me tranquei no banheiro.

- Muito bem, o que aconteceu? Primeiro voc some, deixa de responder meus e-mails, parece que finge que eu no existo mais e agora voc me liga chorando? O que voc fez?

- Eu sabia que no podia ter te ligado antes porque voc agiria dessa forma - disse Samantha, certamente segurando o choro por alguns minutos.

- Que forma, Sam? Eu s falo a verdade. Qual o problema das pessoas em ouvir verdades? - Mas eu nunca deixei de estender a mo a ningum, nunca. Eu no me importo se estou com problemas e as pessoas me ligam para pedir conselhos para seus prprios problemas sem perguntar se estou bem. - Ento por que voc acha que no poderia ter confiado em mim agora, depois de tantos anos de amizade? - desabafei.

-  que eu... estou muito confusa, Mel. No contei para ningum, s para uma pessoa.

- Para quem? - disse, com cime de algum que eu nem sabia quem era e por algo de que eu no tinha a menor ideia.

- Eu... estou... - e chorando ainda mais que no comeo da conversa, com soluos - grvida!

Eu tenho certeza de que os roteiristas de televiso colocam cmeras escondidas nos lugares que eu frequento para depois escreverem novelas baseadas na minha vida. Nada podia ser to surpreendente quanto receber duas notcias de gravidez em to pouco tempo, sendo que as grvidas so sua me e sua melhor amiga. Quer dizer, neste ltimo caso, havia algo a mais. E eu no conseguia dizer Parabns, como fiz com minha me. Porque com minha me eu j sabia quem era o pai da criana.

- Voc nem me contou que estava namorando e agora est grvida? - Eu me senti trada.

- No queria te contar para que voc no se sentisse trada - disse Sam, o que quase me fez rir. Trada por me contar? Eu estava me sentindo trada por ela no ter me contado.

-  que h dois meses eu praticamente me mudei. Mas ainda no deixei meu apartamento de vez.

E ela estava morando com o rapaz!

- Que mania a sua de ir morar com o primeiro cara que voc conhece, Samantha! - disse, j arrependida por ter sido cruel. O ex-namorado de Samantha a traiu com uma garota da faculdade e todos ficaram sabendo do episdio. E assim que decidiu que no queria mais nada com minha amiga, espalhou fotos dos dois em momentos ntimos nos murais da faculdade. Cretino. O caso foi um problema na poca, logo depois ele saiu do apartamento e ela ficou morando sozinha, at ento. Quer dizer, at dois meses antes de ela me contar que...

- Voc vai ser tia - ouvi de Samantha.

Eu sabia que seria tia porque Sam era minha melhor amiga, mas... tia?

- O pai do meu filho  o Michel - confirmou ela.

Minha me estava grvida do meu pai e minha melhor amiga estava grvida do meu irmo.

- Eu... eu no sei o que falar - ainda estava desnorteada.

- Que tal comear com vai dar tudo certo?

E ento eu comecei a chorar. Nos 40 minutos seguintes ns choramos e imaginamos como seria bom se estivssemos juntas para conversarmos sobre tudo aquilo, para nos abraarmos e sabermos que tudo iria, mesmo, dar certo. Percebi que estava sendo egosta em sentir cime e que Samantha tinha suas razes de ter escondido de mim o fato de estar morando com Michel l no nosso apartamento. Mesmo assim, no pude deixar de ficar triste por no ter participado mais do comeo daquele namoro.

S que tudo comeou a fazer sentido. Por isso Samantha estava sempre em casa quando nos falvamos e Theodoro estava sempre com ela. Os trs ficaram muito amigos e saam sempre juntos. Eu devia ter percebido que no dia em que Michel comentou do namoro de Caroline e Lauro, Samantha respondeu com indignao. Eles j estavam um a fim do outro e se provocando!

Dei um sorriso quando imaginei como tudo havia comeado. No fundo, eu gostava da ideia de ser tia duplamente, alm de ganhar um irmo. Meu irmo teria um novo irmo e um filho, e meus pais seriam pais novamente e avs.

Sa do banheiro com o rosto vermelho de tanto chorar e Alan me esperava deitado em sua cama. Ele sorriu para mim, mas no perguntou por que eu estava daquele jeito. No era possvel que os homens no tivessem o menor interesse por nada. Nem um interesse de mentira, para agradar e ser simptico? Ou, ainda, para ser solidrio?

Deitei na minha cama e virei para o lado oposto. No queria conversar. De repente, senti a mo de Alan percorrendo as minhas costas. Os dedos passavam lentamente sobre o caminho da espinha e chegavam ao pescoo, que aguardava um beijo calmo. Virei o rosto e Alan me deu leves beijos na bochecha, mordidas na orelha e um beijo longo na boca. Eu me cobri com o lenol e o abracei. Alan me olhou profundamente nos olhos, passou a mo pelos meus cabelos e me beijou novamente. Aquilo estava me tirando o juzo. Alan tinha uma covinha que no me permitia deixar de prestar ateno  regio dos seus lbios, e os olhos pareciam duas esmeraldas. Senti Alan debruando seu corpo sobre o meu. Eu no queria que fosse daquela forma, mas o que mais eu desejava? Alan segurou as minhas duas mos e as colocou para trs da cama, como se tivesse a inteno de me amarrar, e me disse baixinho: Voc  muito, muito quente mesmo.

Foi quando eu percebi.

No queria um namorado que falasse comigo daquele jeito em uma noite que deveria ser importante para mim. E era. Mas para ele eu parecia uma mulher qualquer que ele havia acabado de conhecer. Senti o desejo de no pensar em nada e seguir os instintos de gata que toda mulher tem, mas essa mesma gata que queria arranhar e morder desejava primeiro ser acariciada e ganhar colo. As garras viriam depois. Ento eu afastei Alan, sa da cama, coloquei meu casaco rosa com flores pink por cima e sa para caminhar.

- Vou andar pelo hotel. Boa noite, nos vemos amanh.

Cheguei  recepo do hotel e pedi para falar com o quarto 514.

- Tho, sou eu. Pode vir  recepo?

- Mel, o que aconteceu? - perguntou ele. Tho sempre se preocupava.

- Nada, no aconteceu nada. S queria companhia.

Theodoro desceu rpido. Estava com cala de moletom, camiseta e chinelo. Ele me abraou e perguntou o que estava acontecendo, mas nem eu sabia explicar o que sentia.

- No sei o que est acontecendo comigo, Tho. No sou a pessoa que costumava ser - desabafei.

- Acho que alguma coisa te impede de ser quem voc . Algum te impede de ser aquela moa cheia de sonhos que quer conquistar o mundo - disse Theodoro balanando a cabea. - O que voc faz com esse Alan? Ele te trata to mal, Mel!

Eu entendia a preocupao do meu amigo, mas ele no tinha o direito de se intrometer no meu namoro. Porque ele no tinha ideia do que a namoradinha linda e perfeita dele fazia em sua ausncia.

- Alan  um cara muito bacana, ele s  diferente - tentei argumentar.

- Diferente como, sem educao? Melissa, ele  grosseiro e estpido com voc, acha que no vi? Isso me incomoda, tenho vontade de tirar satisfaes com ele, mas  voc quem precisa acabar com isso, seno ele vai te tratar cada vez pior, voc no percebe?

Mas ele no percebia que estava sendo trado! O pior  que eu no podia contar, seno ele diria que eu estava inventando mentiras por despeito.

- Viviane no te trata bem, voc no tem o direito de falar do meu namoro!

- Namoro? Voc acha mesmo que o Alan  seu namorado? Ele no mostra o menor compromisso com voc. Ele no est nem a para o que voc pensa, no tem educao e no me inspira confiana - dizia Tho, quase sem parar para respirar. - E o que voc est falando da Viviane? Ela viaja muito, sim, porque  o trabalho dela. Somos amigos h muitos anos, ela nunca faria nada de mal para mim.

- Amigos, voc disse? Pode ser. Mas namorada de confiana no acho que ela seja - disse.

- Voc est com cime da Viviane, Mel? Eu s quero te ajudar, e voc me ataca com frases sem sentido. Voc no quer ser ajudada? Tudo bem, ento. No h nada que eu possa fazer para te mostrar o que est bem na sua frente: esse cara no gosta de voc!

- Boa noite, Tho - cortei a conversa antes que o respeito que conquistamos acabasse. Subi para meu quarto esperando que Alan estivesse dormindo, mas ele estava sentado na cama lendo um livro.

- Voc s pensa nesse seu amiguinho, no , Mel? Quantas vezes voc dormiu com ele? - perguntou Alan.

Talvez Tho estivesse certo. No respondi, mas me senti impotente por ouvir o que eu no merecia e sentir que no podia fazer nada. Apaguei a luz e dormi, aguardando que o dia seguinte fosse melhor.




Acordei antes de Alan e desci depois de me arrumar em silncio. Deixei um recado na recepo para os dois rapazes, caso perguntassem por mim, e enviei um torpedo para o nmero que havia recebido por e-mail dias antes, j que estava em Memphis.

Acho que preciso de um amigo para no tomar caf da manh sozinha. Mel.

Um minuto depois: Pela hora, ser um brunch. Espere-me na porta do hotel. Daniel.

Mais um minuto de espera: Por favor, no leve seu gato hoje. A lanchonete no vai deix-lo entrar. Depois desse recado, desliguei o telefone.

Fiquei com Daniel apenas uma hora, mas foi como uma continuao do dia em que nos conhecemos no cinema. Ele falou de Lisboa, contou sobre as viagens em Portugal e que sonhava em conhecer o Brasil, explicou como era o seu trabalho. Falei sobre o jornal, a gravidez da minha me e da minha melhor amiga e da briga que eu havia tido com meu suposto namorado.

-  por isso que eu estou sozinho e no quero namorar ningum agora. Compromisso exige muito, e acho que prefiro minha liberdade - comentou Daniel com simpatia.

E lembrei que meu maior desejo, de viajar pelo mundo, tambm implicava o medo de me relacionar com algum, j que eu no queria casar cedo como minha me e talvez assim no poder realizar meus sonhos. Naquele momento, por que eu estava com Alan? Por que as pessoas ficam com outras mesmo quando no se sentem bem, felizes, realizadas e completas?

O brunch estava delicioso, com panquecas americanas e syrup, um xarope extrado da seiva de algumas rvores, bem docinho. Tambm tomei suco de ma, que era diferente do encontrado no Brasil. Era translcido como guaran. Delicioso. Daniel me convidou para conhecer Portugal, e eu disse que um dia iria. Eu sabia que cumpriria aquela promessa. Fiquei feliz por ter conhecido um amigo. Voltei  Beale Street sozinha para olhar as lojas e apreciar os msicos tocando nas caladas em plena luz do dia. Andei enquanto pensava na minha vida e voltei horas depois.

Quando cheguei ao hotel, Theodoro e Alan estavam prontos e com as malas na recepo. Perguntaram onde eu tinha ido, por que o celular estava desligado e vrios blbls. Alan me puxou pelo brao para nos afastarmos de Tho e me contou que havia alugado um carro e que iramos separados do meu amigo. No entendi nada. Na verdade, compreendi tudo. Ele estava morrendo de cime e resolveu bancar o namorado protetor, mas havia um problema. O carro que levamos foi alugado por mim. Eu quem deveria dirigir at Pine Bluff - cidade, alis, escolhida por Alan.

- Voc vai comigo, Melissa. Deixe seu amiguinho dirigir seu carro - sentenciou Alan, pegou as malas e levou para o carro alugado.

Viajamos quase trs horas at o estado do Arkansas, mais especificamente uma cidade minscula chamada Pine Bluff, a cerca de 45 minutos de Little Rock, a capital do estado. E o que se seguiu foi um show de crianas de 11 anos brincando de carrinho de corrida. Eu e Alan estvamos no carro da frente e Tho nos seguia.

J era inverno, o dia escureceu rapidamente e estvamos na estrada  noite. Alan deixou Tho passar na frente e comeou o jogo. Ele acelerava e colava na traseira do carro de Theodoro, que acelerava ainda mais.

- Babaca - disse Alan baixinho, como se eu no pudesse escutar.

- Alan, o que est acontecendo? Para com isso,  um perigo brincar na direo - falei em seguida, mas ele pareceu no ouvir nenhuma palavra. - Alan, por favor, mantenha distncia do carro! - mas aquilo parecia provocar Alan para acelerar ainda mais a mquina alugada. Theodoro tentava fugir de ns, mas em certo momento desacelerou e os dois carros ficaram lado a lado. Alan aproveitou a oportunidade para quase bater no outro carro e acender e apagar os faris. Tho, ento, apagou completamente as luzes do carro  frente e Alan, em alta velocidade, tambm acelerou.

- Ns vamos bateeeeeer! -gritei.

O que aconteceu era inexplicvel, quase uma cena de filme, mas com muita testosterona e pouco crebro. Meu medo da morte chegou ao limite e comecei a gritar e pedir que Alan parasse o carro, mas ele no parou. Tho tentava escapar e desviava, mas eu quase podia ver os dois capotando na estrada deserta.

Nessas horas agradeo por saber que existe um comando maior, porque, se dependesse daqueles dois, um teria jogado o outro ribanceira abaixo. Para qu? Provar quem era mais macho? Naquele momento eu no queria ver nenhum dos dois nem que aparecessem com caixas de quilos de chocolate. Eu queria sumir. Melhor: eu queria que eles sumissem.

Alan atendeu meu desejo secreto e, assim que chegamos ao hotel, ele foi embora. Subimos juntos, mas quando sa do banho, notei que sua mala no estava mais no quarto e havia uma agenda em cima da cama com um bilhete.

A agenda  para voc no esquecer mais nada de importante, como colocar gasolina no carro. Te espero em Mason.

Eu no sabia se poderia interpretar o bilhete como um gesto de carinho ou de desprendimento e ironia. Naquela noite Alan voltou para Ohio com o carro alugado e sozinho. Senti uma mistura de alvio com tristeza, mas sabia que nossa histria no havia terminado.



Hot Springs


Hot Springs, no Arkansas,  conhecida pela gua
 que nasce da terra a uma temperatura de 64 C.
 A cidade termal possui 47 nascentes e o Garvan
 Woodland Gardens, um jardim botnico que faz parte
 da Universidade do Arkansas e  local, inclusive, de
 casamentos exticos e belos em meio  natureza.

Acordamos em Pine Bluff e telefonei para meu pai pelo Skype instalado no celular.

- Parabns, papai, por ser papai mais uma vez! - brinquei.

- Filha, que saudade! No vou falar que voc sumiu porque sei que a culpa foi nossa. Voc nos desculpa? - perguntou. Mas no havia dvidas de que eu no estava magoada, apenas queria ouvir sua voz para me confortar.

- Como est Madame Marcela? - perguntei em tom de piada.

- Voc sabe que sua me no gosta quando a chamam assim... - disse ele, soltando uma risadinha no final da frase. - Mas a Madame Marcela est bem.

- Voc no resiste, n, pai?

Falei com mame e perguntei se ela j sabia o sexo do beb.

- No  assim to fcil. Precisamos esperar mais um pouco...

- Pergunte para as cartas, vai! Estou curiosa e quero comear a comprar presentes para meu irmo ou minha irm.

- Voc sabe que no  para isso que as cartas existem! - mame retrucou. E brava. Ela sempre dizia que ajudava as pessoas, mas no conseguia ajudar a si prpria. No havia nada nas cartas que pudesse mostrar-lhe o caminho ou dar uma resposta em momento de dvida.  por isso que, quando descobriu que estava grvida, no conseguiu a certeza de que precisava. Porque as cartas s lhe mostravam os caminhos para os outros.

Lembrei-me, ento, de outra grvida e telefonei para Samantha.

- Fofa, que saudade!

- Seu besta, por que no me ligou? Mandei mensagens no celular, e-mails e nada! Voc nem se lembrou de me avisar do aniversrio da mame! - reclamei com meu irmo.

- Aniversrio da mame?

E ento comecei a rir. Porque daquela vez havamos sido os dois que esquecemos o dia dela. Mas considerando a situao em que ela estava, creio que podamos dar parabns com atraso.

- Eu estava aqui to na correria com a Samantha que me esqueci de tudo, at do aniversrio da - e disse com voz de locutor de rdio AM - Madame Marcela! - e rimos. Ele prometeu que ligaria para mame em seguida, para parabeniz-la pelo beb e pelo aniversrio. Ele e Samantha estavam planejando viajar para Bady Bassitt para contar para nossos pais pessoalmente que Sam estava grvida, mas como o Natal estava muito prximo, provavelmente aguardariam o feriado para viajar. Eu queria estar l para assistir a essa cena. E ver as minhas duas grvidas preferidas.

Perguntei se Michel tinha alguma notcia sobre o meu caso no jornal, mas eu sabia que depois de tudo o que a vida havia lhe mostrado certamente ele tinha esquecido de todo o resto.

- Preciso do seu contrato de trabalho com o jornal, voc sabe onde est?

- Est naquela pasta vermelha que eu guardo na estante de livros, fofo. Voc lembra quando um amigo seu me ajudou a acrescentar umas clusulas quando entrei l, porque na poca a Caroline me aconselhou a mudar o contrato-padro? - ento eu recordei que Carol, que era minha amiga da faculdade de jornalismo e que entrou no jornal um pouco antes de mim, havia escutado boatos. No me lembro quais eram os boatos e o que aconteceu de verdade, s que mudei o contrato-padro. Se eu no tinha ideia do que estava em meu contrato, provavelmente meus ex-chefes tambm no sabiam disso.

- Vou ler tudo atentamente e depois peo ao Lauro que me coloque em contato com a Caroline, assim ela me explica melhor essa histria, se ela lembrar. Com isso eu devo saber como podemos agir no seu caso. Fique tranquila, fofa - e eu ficava orgulhosa quando ouvia meu irmo caula falar. Marcos ficaria orgulhoso dele tambm.

- Mais um detalhe, Mel. Chegou uma carta do jornal.

- Detalhe? E voc no abriu para ver o que era?

- Claro que abri, por isso sei que  um detalhe.

- O que eles querem comigo... por carta?

- Que voc renove a assinatura do jornal, oras! - e Michel riu. Eu no podia acreditar. Como assim, renovar a assinatura do jornal? Quando eu trabalhava l, recebia o jornal de graa todos os dias em casa e no porque eu queria (j que eu o lia no trabalho), mas porque parecia um procedimento-padro e comearam a enviar. E depois de eu ser demitida, meses depois, recebo um boleto para pagar a assinatura do jornal? S pude rir. Era a melhor piada do ano.

- Pique, jogue fora, queime. Pode escolher o que fazer com a carta - disse ao meu irmo antes de desligarmos.

Arrumei a mala e o pouco que havia tirado dela na noite anterior, quando Alan foi embora. Ele no mandou nenhuma mensagem, nem mesmo depois que eu enviei um Est tudo bem? Chegou bem? s quatro horas da madrugada, quando acordei preocupada com ele. No consegui dormir direito o resto da noite pensando em Alan e no que aconteceria conosco.

Desci e encontrei Theodoro tomando caf da manh. Ele sorriu quando me viu, levantou-se e puxou a cadeira para eu sentar.

- No se fazem mais amigos assim. Voc deve ter vindo do passado - brinquei.

- Se depender de mim, a nossa viagem, daqui por diante, ser maravilhosa - disse ele. No respondi e ele continuou, quando pegava as minhas duas mos sobre a mesa. - Peo desculpas por tudo at agora. Eu no devia ter provocado o seu namorado e ter dito as coisas que eu te disse. Desculpa, Mel, ns vamos trabalhar juntos e precisamos ter dias divertidos, caso contrrio as fotos vo ficar uma merda.

- Ah, eu sabia, seu interesseiro! Voc est preocupado com as fotos, n? Quer que eu fique bem feliz para no te atrapalhar? - fechei os olhos lentamente e pressionei os lbios com cara de bem que eu desconfiava. Mas no fundo eu sabia que no era o que ele me dizia. Tho pedia desculpas, mas no era culpado de nada. Ele s revidou as provocaes de Alan. Na estrada, tinha desviado de quase todas as tentativas de Alan para colidir os carros. - Tudo bem, eu desculpo. Mas aquele negcio de apagar os faris foi cruel. Isso no se faz, voc deveria ter sua carteira de motorista cassada. No, pensando bem, no, ou eu no teria com quem dividir a direo.

Enquanto eu mordia um pedao do croissant que estava em seu prato e tomava um gole do seu suco de laranja, ele me disse que havia pensado em tudo o que eu dissera sobre Viviane e chegou  concluso de que o namoro deles tambm no estava bem. Eu sabia que ele estava se referindo  minha relao com Alan, mas no comentei nada.

- Viviane no me recebeu com a mesma alegria que voc quando me viu no apartamento -disse ele e deu uma mordida no croissant que pegou de volta de mim.

- Mas, Tho, as pessoas no tm as mesmas reaes para aes iguais. Ela deve ter ficado feliz e no soube como agir. Porque ningum  igual a mim, baby - e dei uma piscada para arrancar um sorriso daquele rosto lindo. Mas por que estou defendendo a crpula da Viviane se ela est traindo Tho? Preciso contar pra ele agora o que eu descobri, pensei na hora. - Tho, eu queria te contar umas coisas... No  nada muito legal, mas acho que voc precisa saber disso agora.

- Mel, se  alguma coisa chata, vamos deixar para depois? Agora no quero pensar em mais nada ruim. Vou falar com a Viviane quando voltarmos para Mason. Ela devia estar cansada, e voc est certa. As pessoas nunca so iguais. Para hoje, tenho uma surpresa. Descobri uma cidade aqui perto de que sei que voc vai gostar - disse Tho empolgado. - Alis, por que mesmo seu namorado quis vir para Pine Bluff?

- No sei - disse, ainda pensando em quando falaria para ele o que eu havia descoberto sobre Viviane.  noite, talvez. Eu no queria estragar sua surpresa. - E eu no sei se ele  mais meu namorado - completei.

Notamos que as pessoas em Pine Bluff eram diferentes. Estvamos no sul. Apesar do frio que fazia l fora, o calor da recepo e o jeito doce e de cantiga das palavras me deixavam  vontade naquele lugar. Os funcionrios do hotel conversavam conosco, e a simpatia do povo me fez sentir como se estivesse no Brasil, mas com traduo simultnea para o ingls.

Seguimos a viagem. Hot Springs ficava a pouco mais de uma hora de Pine Bluff. A previso de Tho era dormirmos l e seguirmos para a capital do Arkansas, Little Rock, no dia seguinte. Vesti meu kit rosa com casaco, luva e touca, porque o frio era intenso. E ento vi uma cidade linda. Tho saiu do carro, abraou-me e juntos contemplamos nosso novo destino.

As melhores fotos de Tho no dia foram feitas no Garvan Woodland Gardens. Apesar do frio, o lugar era estonteante. Lago com peixes, pontes sadas de desenhos animados romnticos e poucas flores em boto. Um casal passou por ns e comentou que na primavera o lugar  incrvel, com o jardim mais lindo que eles j viram, segundo a traduo de Theodoro e um pouco do que eu j entendia de ingls. Os norte-americanos nos mostraram a Anthony Chapel, uma capela extica construda no meio das rvores. Era ali que eles se casariam no ano seguinte, contaram enquanto estavam abraados.

- And you? - perguntou a moa para mim. E eu o qu? O que ela queria saber?

- Me?

- Ela quer saber quando ns nos casaremos, Mel - disse Theodoro com um sorriso divertido nos lbios. Apertei a boca em um gesto de E agora? Responde voc, mas no disse nada. Tho ento continuou a conversa com o simptico casal do Arkansas.

- We still dont know. But thats a great place! - disse Tho para os dois, que sorriram e pareceram felizes com a resposta. Tho pegou na minha mo, e o casal disse Congratulations antes de acenarem Bye. Que vergonha. Eu entendi que ele havia respondido que ainda no sabamos quando iramos nos casar, mas que aquele era um timo lugar.

Quando o casal se afastou, soltamos as mos, e ele comentou:

- Acho que os dois gostaram da resposta. S entrei na brincadeira...

- Seu bobo, casamento no est nos meus planos - disse, cruzando os braos e levantando o queixo. Ele caiu na risada, mas ficou intrigado.

- Srio mesmo?

- Srio mesmo.

- Nunca?

- Nunca agora.

- O que significa nunca agora, Mel?

- Eu ainda tenho muitos sonhos para realizar. No acho que casamento seja prioridade. Sou muito nova, nunca pensei nisso e sinceramente acho que um casamento poderia me impedir de ser quem eu quero ser.

- E quem voc quer ser?

- Quem eu sou exatamente agora.

Tho sorriu. Talvez ele soubesse que fazia parte daquilo porque havia me ajudado a realizar meus sonhos. Eu tive vontade de perguntar se ele queria se casar com Viviane, mas a minha raiva dela era to grande que no quis estragar o momento. Preferi ficar em silncio e contemplar a capela de madeira. Os bancos eram posicionados na diagonal, para que vistos por quem entra na igreja formassem quase um V. As paredes eram estacas de madeira e vidro. De l de dentro pode-se ver as rvores do parque, e imaginei um casal l na frente com a luz do sol iluminando a cena.

Quando percebi, Tho havia feito vrias fotos minhas na igreja. A luz brilhava em meu rosto, que estava sorridente. Um sorriso de quem olha para o futuro com esperana.

Deixei que me fotografasse entre os botes de tulipas ainda sobreviventes e fiz fotos dele tambm. No sabia mexer naquela cmera enorme e com uma lente que pesava mais que a minha cmera fotogrfica inteira. Chegamos  cachoeira, ento Tho se posicionou atrs de mim, ambos voltados para a queda-dgua e suas mos sobre as minhas, que seguravam a cmera.

- Primeiro voc precisa definir o que quer fotografar. E o que quer passar com a foto.

- Um sentimento?

- Sim. Se voc fotografa somente com os olhos, ter uma foto boa. Se fotografa com o corao, ter uma foto especial.

- Quero fotografar essa cachoeira - comecei dizendo - e a felicidade, o movimento, a gua correndo, a energia.

- Enquadre a cachoeira e aqui voc vai determinar a velocidade do obturador. Como quer movimento, vamos deixar a velocidade baixa. Voc ver uma foto em que a gua parece correr na montanha. Se quisesse uma foto com a gua detalhada, colocaria a velocidade alta - disse Theodoro, afastando-se de mim. ramos s eu e a cmera naquele momento. - Tire quantas fotos quiser. Vou observar sua primeira aula.

Depois de fotografar a cachoeira de diversas maneiras, pedi que ele colocasse a cmera no modo automtico e fizemos uma sequncia de fotos juntos com a cachoeira como cenrio. Abrimos os braos, como se estivssemos voando, depois Tho me pegou no colo, subi em seus ombros e finalizamos as fotos com uma imagem parecida com aquela que fizemos no meu apartamento em So Paulo. Tho beijou meu rosto e eu, sorridente, bati a foto afastando a cmera e clicando.

- Depois vamos aprender sobre abertura do diafragma, mas adianto: nenhum conceito  to importante quanto o primeiro. Fotografe com amor, mesmo com uma cmera sem ajustes manuais, e voc ter fotos lindas.

Terminamos o dia na Mountain Tower, uma torre que nos proporcionou uma vista maior da cidade. L ns vimos o sol se despedir em um tom avermelhado no fim da tarde. Fizemos mais algumas fotos, anotei minhas impresses no bloquinho e senti que nunca havia tido um dia como aquele. Nada me fez falta. Eu tinha tudo de que precisava para ser feliz.

- Mel, o que voc ia me contar que no era muito legal?

- Deixa para l, esqueci - menti. No podia estragar aquele dia perfeito, que terminou em um restaurante. Comi vrios itens do cardpio s para Theodoro poder fotografar mais pratos, e rimos a noite toda. Contamos histrias da infncia, lembramos a adolescncia, conversamos sobre Samantha e Michel, contei sobre meus irmos e s estranhei o fato de ele falar pouco sobre sua famlia. Queria saber tudo, conhecer todos. At aquele momento, ele s havia falado sobre a me, que parecia ser a pessoa mais importante. A ligao deles devia ser muito forte, mas ele no falava sobre mais ningum. S depois percebi que no sabia nem se ele tinha irmos.

Naquele dia, Tho disse que gostava de fotografar comida porque havia poesia nos detalhes do dia a dia que as pessoas no observavam.

- Poesia em comida, Tho?

- Poesia nos detalhes da vida, Mel.

Fiquei em silncio pensando em tudo o que havamos passado naquele dia, e uma lgrima caiu.

- Vamos atacar a sobremesa? - sugeri com as mos em forma de garra.



Little Rock


O nome Little Rock (Pequena Pedra) surgiu da
 formao rochosa prxima ao rio Arkansas, que foi
 muito utilizada para o trfego fluvial. O Market District 
 um mercado  beira do rio, e a Manso do Governador
 tambm  um importante ponto de visita, localizado no
 bairro Quapaw, com casas histricas da cidade.

Eu tinha medo de abrir os olhos embaixo dgua. No conseguia. Perdia apostas com meus irmos, mas nunca fui capaz, porque o medo me impedia. Naqueles dias, comecei a sentir que poderia abrir os olhos embaixo dgua e no sentir nada, nem medo. E mesmo que fosse dito que no se via coisa alguma, eu sabia que teria uma viso ntida. Tudo comeava a fazer sentido.

S havia um detalhe que eu no tinha programado. E saa do meu controle. Eu no queria me apaixonar.

Estvamos em Little Rock, capital do estado do Arkansas e a pouco menos de uma hora de Hot Springs. Durante a viagem, revi as fotos do dia anterior e tive a certeza de que eu e Theodoro ramos uma parceria e tanto. Na verdade, cada vez mais eu percebia que no s me sentia bem ao seu lado - viva, feliz, autntica - mas tambm queria produzir mais. Era como se ele me inspirasse a ser, a cada dia, quem eu realmente queria ser, fazer o que eu amava fazer e ser livre. E justamente porque eu era livre  que eu queria estar com ele.

Nossas fotos estavam lindas. Theodoro me fotografou nos momentos mais singelos, e eu sempre estava com um leve sorriso no rosto. Inegavelmente feliz. Nas fotos em que aparecamos juntos, meu sorriso era to maior que s vezes meus olhos ficavam pequeninos. Eu sempre soube que com ele me sentia bem, mas nunca associei amor ao bem-estar. Talvez no tivesse muita experincia ou apenas sentisse medo de me entregar. Porque isso significava fim. Fim de uma vida antiga. E eu tinha medo de mudar minha vida naquele momento exato, quando tudo estava como eu sempre desejei.

E o mais estranho  que eu desejava tambm estar com ele.

No hotel em Hot Springs, utilizei o computador da rea comum para enviar e-mails para Sam, Michel, meus pais, Caroline, Brbara, Blanda e ainda atualizei meu blog. No contava tudo, porque a reportagem completa sairia no material divulgado pela agncia de notcias.

Era Thanksgiving, Dia de Ao de Graas, feriado celebrado sempre na quinta-feira da quarta semana do ms de novembro. No Brasil, embora a data exista, nunca havia comemorado, mas descobri que nos Estados Unidos as pessoas celebram nesse dia o bom ano e agradecem a Deus pelas conquistas.

Eu tinha muito para agradecer.

A cidade estava vazia porque provavelmente todas as pessoas estavam em suas casas, comemorando com sua famlia. Deixamos as malas em um hotel de beira de estrada e no questionamos sobre os quartos. Apenas pegamos um quarto com duas camas de solteiro e samos em busca de um restaurante que estivesse aberto. Encontramos apenas um e vimos uma placa de Southern Comfort Food, o que significava uma comidinha caseira do sul. Pelo o que entendi nos meses em que estava fora de casa, tudo o que era comfort era uma comida que dava a sensao de proteo e conforto, quase comida da mame.

Conversamos com a garonete e brindamos com ela - que nunca deve ter visto clientes brincando dessa forma. Mas quando percebemos todos os funcionrios do restaurante estavam em volta de nossa mesa e fazamos um brinde coletivo pelo bom ano, agradecendo pela comida e por mais algumas coisas bonitas que eles disseram. Os sulistas so to calorosos que no havia como no nos sentirmos em casa, mas com uma comida um pouco diferente, como o baby lima beans, uma espcie de feijo cremoso. Comemos o feijo verde, que foi o prato mais fotografado do almoo.

 noite, dormi antes mesmo de Tho sair do banho, e no dia seguinte bem cedo, como combinado, samos para as compras na Black Friday, que  a sexta-feira seguinte ao Thanksgiving e que marca o incio das compras de Natal. Mas o melhor  que os preos so incrivelmente baixos, como tnhamos lido nos jornais. Tambm sabamos que as filas comeavam na madrugada em algumas lojas e fizemos uma lista do que queramos comprar para nos orientarmos.

Eu queria um notebook novo. Lesma seria um presente para minha me, depois que sasse do conserto, afinal, mame precisava descobrir a incluso digital. E eu precisava de um novo computador para continuar escrevendo as matrias. Tho queria um aparelho de Blu-Ray e uma nova cmera fotogrfica.

Chegamos s cinco horas da manh, quando tudo ainda estava escuro e com uma fila enorme. Eu no sabia o que estava fazendo ali, mas Tho me convenceu de que eu pagaria muito menos pelo notebook. A loja abriria horas mais tarde, mas pelo menos eu estava em boa companhia. Na verdade, eu at no me importava se a loja abrisse muitas horas mais tarde.

- Se ao menos voc tivesse trazido um pacote de marshmallows, nossa espera no seria to chata - provoquei.

- Se voc tivesse trazido alguns brigadeiros, eu esperaria at amanh - devolveu Tho. - Mas vai ser timo, voc vai ver. Trouxe o seu carto de crdito internacional?  mais fcil comprar assim e no  to perigoso quanto sair com dinheiro. Quando a porta abre,  uma verdadeira baguna dentro da loja, eu estive na Black Friday em Mason no ano passado - mas eu no perguntei se era com Viviane, porque desconfiava que ela no iria a uma liquidao assim.

- No trouxe dinheiro, apenas o carto de crdito e meu passaporte - respondi.

- Tome cuidado com o passaporte,  o documento mais importante que temos aqui - lembrou-me.

Enquanto algumas pessoas dormiam na fila e um casal se beijava atrs de ns, conversamos. O tempo com ele passava depressa, porque eu no me sentia pressionada nem precisava fingir um personagem para impressionar algum. A diferena com Alan  que eu queria conquist-lo. Quando estava com Tho, queria que ele cuidasse de mim. E queria cuidar dele tambm.

- Quero saber qual  o seu cantor preferido, mas no vale Elvis Presley, porque essa seria a resposta de ns dois.

- Quando eu era adolescente, anotava as letras do Bon Jovi nas capas dos meus cadernos da escola. E h pouco tempo eu me lembrei do quanto gosto dele quando passei por New Jersey - contei.

- Bon Jovi? O Jon Bon Jovi? - perguntou ele, e eu confirmei com a cabea. - Voc est de brincadeira?

- No, eu gosto dele mesmo!

- S mulherzinha gosta dele - disse Tho, rindo.

- Eu sou mulherzinha, Theodoro.

Ento rimos juntos. Ele ainda imitou Jon cantando Blaze of Glory, o que mostrou que sabia pelo menos uma msica, mas depois emendou que a conhecia de um filme. Ento perguntei qual seria um cantor realmente bom, e ele me respondeu: Cantor no... cantora  a Shakira, o que foi suficiente para que eu risse ainda mais alto e comeasse uma imitao perfeita do antigo sucesso Estoy aqui. Parecamos dois loucos danando na fila da loja de eletrnicos em plena madrugada fria na capital do Arkansas.

A msica j fazia parte da nossa histria. Assim como o Dilin. S faltava inventarmos um Dilin danante.

- Vamos combinar que continuaremos com Elvis Presley e no brigaremos mais? - disse ele, e eu apertei sua mo como sinal de trgua. Tho apertou meu nariz e eu sorri.

Antes de a porta se abrir, combinamos que, se nos perdssemos, o ponto de encontro seria o hotel. Mas eu no pretendia passar nenhum segundo longe de Tho. Havia muita gente para entrar na loja. No, havia muita gente mesmo para entrar naquele lugar.

Entramos correndo, parecia gincana de programa dominical de televiso. Tho e eu fomos para a rea de Blu-Ray e ele logo colocou uma caixa embaixo do brao. Em seguida fomos para a rea de notebooks. No foi to fcil, mas eu escolhi pelo preo menor. Theodoro me disse que o outro, um pouco mais caro, era bem melhor, e tive de analisar rapidamente a configurao. Decidi levar. Era praticamente o preo do Lesma, meu notebook usado que estava no conserto. Foi tudo muito rpido, logo fomos ao caixa. Tirei meu carto de crdito internacional para pagar quando notei que havia esquecido a bolsa.

- Voc viu minha bolsa? - perguntei a Tho.

- Estava com voc na entrada da loja, voc disse que no trouxe muita coisa.

- O carto est comigo. Apoiei a bolsa para colocar o notebook no balco do caixa e...

Uma voz tentava ser ouvida pela multido ensandecida. No microfone, disseram alguma coisa que eu pude identificar como bolsa perdida. Theodoro ouviu meu nome. Eles no deveriam anunciar meu nome! Como poderiam me identificar quando eu buscasse a bolsa? Que sistema falho, assim qualquer um poderia pegar a bolsa no meu lugar.

- Vamos agora buscar a bolsa - puxei Tho pelas mos, que me acompanhou com o Blu-Ray. Eu tambm estava com o notebook. Fui perguntando aos atendentes at chegar ao local em que uma moa de cabelos castanhos cacheados me disse: Mas a bolsa foi entregue para a dona agora mesmo. Era ingls, mas eu entendi. Ou o meu ingls estava perfeito ou o meu desespero me fez compreender que algum havia levado a minha bolsa! Com o meu passaporte!

Avistei a pequena bolsa creme. Eu sabia que era minha porque havia sido um presente de Dona Amaralina, me de Blanda, quando eu era adolescente. E era uma bolsa pequena, prtica, mas horrvel. Dona Lina era muito, muito brega. A bolsa tinha uma ala dourada e um fecho com uma borboleta roxa com gliter. Ningum mais tinha uma bolsa daquelas naquele lugar. Eu tinha certeza.

- Tho, a minha bolsa! Ali! - apontei e continuei puxando seu brao em direo a uma mulher que se parecia comigo. Mas que amadores, eles entregaram uma bolsa para uma pessoa que se parece comigo? Que raiva!

A ladra andava calmamente no meio da loja abarrotada de pessoas, com gente correndo de um lado para o outro. No queria ser descoberta, mas deve ter ouvido quando gritei, mesmo que no entendesse portugus. Ento ela saiu correndo.

De filme policial, para encontrarmos a bolsa perdida, o roteiro se transformou em uma aventura. Um filme de ao. Ento eu e Tho comeamos a correr atrs da moa desconhecida pela Chenal Parkway.

- Help!!!

Mas quem gritou ajuda no fui eu. Foi a mulher que corria na minha frente.

Sim, a ladra tinha bom humor e queria confundir as pessoas, que pensariam que ela estava sendo assaltada. Eu e Tho continuamos a correr e eu iniciei meus berros de Help ainda mais altos que os dela. Eu gritava e corria, corria e gritava. E ento percebi que outras pessoas estavam atrs de ns dois. Eu e Tho estvamos sendo perseguidos por atendentes uniformizados da loja de eletrnicos.

Porque eu e Tho havamos levado as caixas sem pagar.

- Estamos perdidos!!! - gritava para ele enquanto corria.

Mas a verdade  que nos esquecemos de pagar quando vimos a ladra com minha bolsinha creme com a borboleta. No podamos perd-la de vista, e no a perdemos, mas o problema  que ns ramos alvos de outras pessoas naquele momento. Alm de que parecamos estar correndo atrs de uma inocente.

Foi quando um carro de polcia parou. Como nos filmes norte-americanos, com guardas norte-americanos. E todos pararam. Fomos cercados na Chenal Parkway desde a ladra de bolsa at os funcionrios da loja, comigo e Theodoro no meio. Eu me senti em um programa policial.

No sei exatamente como e em que momento perdi o sentido, e minha memria sempre me ajuda a esquecer um pouco alm. Os fatos podem ter colaborado: sem nada no estmago por algumas horas, sem dormir direito, madrugada na fila para a promoo, calor humano de sardinha em lata na loja, bolsa roubada, corrida, policiais perseguindo e eu cada na avenida. Acordei no hotel, com Theodoro dormindo em uma cadeira ao lado da minha cama.

- Oh my God! - gritei quando acordei.

- J est sonhando em ingls? Isso  bom sinal. Significa que voc j est imersa no idioma.

Demorei a entender o que estava acontecendo. Olhei para a minha roupa, a mesma que usei para ir  loja na Black Friday, mas estava sem sapatos. Meus cabelos estavam soltos no travesseiro, e eu estava coberta. Tho sorria e veio em minha direo. Sentou na ponta da cama, como fez no dia em que me acordou em Mason com marshmallows. Mas no havia nenhum doce, apenas carinho. Ele pegou a minha mo direita com suas duas mos e a apertou. Levou  boca, apertou e disse:

- Graas a Deus voc est bem.

Mas o que aconteceu? Por que eu no me lembrava de nada? Quer dizer, de quase nada. Eu me recordava de correr atrs da moa que roubou minha bolsa e tambm dos policiais chegando.

- Voc caiu no meio da avenida. Os policiais pensaram que se tratava de uma tcnica para fugir deles, mas logo perceberam que no era fingimento e acionaram a ambulncia. Mas no foi preciso levar voc ao hospital, porque voc acordou antes e disse que estava tudo bem.

- Eu disse que estava tudo bem?

- Disse, voc no se lembra?

Como algum pode dizer algo e simplesmente esquecer? Eu devia estar muito tonta... Por que no me levaram ao hospital? Ah, sim, porque eu disse que estava tudo bem.

- Tho, eu s me lembro de os policiais chegarem... e, depois, de mais nada.

- Voc disse que estava bem, mas os mdicos te examinaram. Enquanto isso, os policiais conversaram com a mulher que estava com a bolsa e fizeram algumas perguntas para mim. Logo perceberam que a bolsa era sua. Seus documentos estavam l e fomos liberados, mas antes eu tive de passar na loja para pagar os equipamentos que trouxemos. Coloquei voc no carro, resolvi tudo e voltei com voc para o hotel.

-  tudo to confuso... H quanto tempo estou dormindo?

- No muito. Desde a ltima vez que voc acordou e me perguntou: Como a gente sabe quando est apaixonado por algum? e voltou a dormir em seguida, j se passaram trs horas.

Como? Eu acordei e perguntei aquilo? Que vergonha.

- Voc est inventando coisas, no ? - perguntei, hesitante.

- Sobre a sua pergunta? Tudo bem, Mel, fique tranquila. No  porque eu no gosto daquele seu namorado que voc precisa esconder seus sentimentos. Mas, sinceramente, voc deveria repensar o que sente por ele. No d para gostar de um cara que no d a mnima para voc... - mas eu o interrompi.

- Eu no estava falando dele.

E no disse mais nada. Minutos depois, continuei a conversa.

- De qualquer forma, como a gente sabe quando est apaixonado por algum? - repeti a pergunta, dessa vez sentada na cama.

- Voc nunca se apaixonou, Mel?

- Talvez no pra valer at agora. Me conta como  estar apaixonado pela Viviane - instiguei. No me importava, naquele momento, o quanto eu detestava aquela menina. S queria saber como era estar apaixonado por ela. O que ele sentia. Como ele reagia. Mas, afinal, estar apaixonado no deve ser algo to simples. Pelo menos no para ns dois.

- Eu gosto da Viviane - disse Tho e parou. Olhou para baixo, colocou a cabea entre as duas mos, levantou da cadeira, foi at a janela e continuou, mas dessa vez no mais olhando nos meus olhos. - Eu gosto da Viviane como sempre gostei, e meu medo  que esse sentimento tenha se transformado em amizade. No sei como  estar apaixonado.

Naquele momento percebi que, se sua paixo pela namorada pode ter se transformado em amizade, como acontece com muitos casais, era possvel que amizade se transformasse em paixo.

Como se tivesse adivinhado o meu pensamento e visivelmente desnorteado, Tho saiu do quarto e me deixou sozinha com a dvida que era de ns dois. Ele tambm parecia ter aberto os olhos debaixo dgua.



Montgomery


Muitas pessoas que trabalham em Cincinnati
 moram nessa pacata cidade do estado de Ohio,
 Montgomery, que no outono encanta com suas rvores
 coloridas. Seu centro histrico possui muitas casas
 do sculo XIX e a populao  de cerca de 10 mil
 habitantes, em uma rea total de 5,3 km.

Durante todo o tempo em que Theodoro dirigiu, fingi que dormia no banco ao lado. Quando foi a minha vez na direo, ele usou a mesma tcnica. No queramos conversar, mas no estvamos brigados. Talvez a confuso em sua cabea fosse to grande como a que havia se instalado em meus pensamentos dias antes. Ou meses antes. Nem eu mesma me conhecia.

Passamos por Memphis novamente s 10 horas da manh, j que acordamos muito cedo. O sol nem havia aparecido quando samos da capital do Arkansas. Enviei um torpedo para Daniel um pouco antes de sair, pedi desculpas pelo horrio e disse que estava passando pela cidade em que ele morava em algumas horas. Eu s queria conversar com algum, mesmo que fosse por mensagens no celular, mas ele fez melhor. Fui convidada para tomar caf da manh na terra do Elvis. S contei para Tho uma parada antes de chegarmos, a nica at aquele momento - s ele havia dirigido. No me fez perguntas nem foi contra, apenas disse Tudo bem e pediu o endereo para colocar no GPS.

O caf na casa de Daniel foi divertido, e Tho no parecia bravo comigo. De fato, no estvamos bravos um com o outro. Talvez com a situao - no sabamos o que fazer com aquele ar denso que existia entre ns. Com um sentimento estranho que no parecia certo.

Depois do caf reforado e da parada de duas horas, no tivemos almoo. Nada foi combinado. Paramos algumas vezes em rest areas para ir ao banheiro e comprar gua e somente na ltima parada comemos um lanche. Chegamos a Mason por volta das 21 horas. Mesmo sem ter a menor vontade de ver Alan, lembrei que estava morando em seu apartamento. Pelo menos era l onde estavam minhas coisas e meu gato. E eu queria muito ver Ozzy.

Entrei com uma cpia da chave que eu tinha desde algum momento da minha relao com Alan de que eu no me lembrava. Como eu havia esquecido o dia em que ele me deu a cpia da chave? Deveria ser um dia importante para mim, mas esqueci. Assim como, naquele momento, fiz fora para lembrar qual era a data de seu aniversrio, mas no sabia.

O apartamento estava na penumbra. Na sala, s o abajur aceso, mas algum devia estar em casa. Dentro do armrio que escondia as mquinas de lavar e secar roupas havia barulho. Ambas estavam ligadas. Deixei minha mala na cadeira da sala de jantar e joguei as chaves no balco da cozinha. Tirei o casaco e percebi que estava quente dentro do apartamento. O aquecedor tambm estava ligado. Comecei, ento, a desconfiar que algum queria sossego e no fiz barulho. Pensei se Alan estava em casa e onde eu iria dormir. Como falaria com ele. O que diria a ele.

Nada fazia sentido. Estar ali era a atitude mais nonsense desde minha chegada aos Estados Unidos.

Notei que uma bacia com roupa suja estava no canto da porta de um dos quartos. Mais roupa seria lavada naquele dia.

Entrei nos quartos, mas no havia ningum. Nem no banheiro. Um dos quartos estava em desordem, como se um furaco tivesse passado por Mason, mas somente naquele cmodo. Recolhi papis do cho, coloquei na bacia algumas roupas que estavam jogadas e dobrei algumas camisetas sobre a cama. Enquanto as dobrava, olhei uma pilha de documentos em cima do criado-mudo. Peguei tudo com cuidado para colocar na gaveta quando percebi.

Eram green cards. O documento de permanncia nos Estados Unidos. Quem havia conseguido?

Mas no era somente o de uma pessoa. Eram de vrias. Documentos de desconhecidos estavam no criado-mudo do rapaz que poderia, um dia, ter sido o meu namorado. Quando um ponto de interrogao imaginrio saa de minha cabea, Alan - que havia sado para comprar mais sabo em p - entrou no quarto e me viu com os documentos na mo. Deu um grito e pediu que eu largasse tudo.

- Eu s estava guardando - retruquei com raiva.

- Voc no devia mexer nisso, no  seu! - gritou ele mais uma vez.

- E nem seu pelo jeito, no ? - provoquei. Eu queria saber o que era aquilo.

- Francamente, Mel, isso no diz respeito a voc - sentenciou Alan. Era quase como dizer voc no tem nada a ver com a minha vida e o que voc ainda est fazendo aqui?. Mas eu no me satisfiz com a resposta.

- O que  isso? - perguntei.

- No diz respeito a voc, eu j disse! - berrou Alan como eu nunca tinha visto antes.

- Se voc no quer me contar,  porque  ilegal - disse, mas no mesmo momento levei a mo  boca, porque percebi do que se tratava. No era possvel que aquele homem honesto, correto e ntegro estivesse recebendo dinheiro para conseguir green cards para as pessoas. Sim, era possvel. Por que quem me disse que ele era honesto, correto e ntegro alm dos meus olhos? Eu acreditei no que eu queria acreditar.

Fiz uma pausa, virei o corpo para outro lado e me voltei para Alan.

- Como? Por qu? - quis saber, mas dessa vez com a voz baixa e desapontada.

- Eu preciso trabalhar, e essa gente precisa ficar aqui - respondeu Alan, como se fosse a ao mais honesta do mundo.

- Isso  errado - falei como uma me diria  filha que est roubando balas na loja de departamentos. S faltou eu acrescentar a lio de moral e tica.

- No estou matando ningum, Melissa. Estou ajudando as pessoas!

- Voc acha, mesmo, que est ajudando esse pessoal? Voc se sente bem fazendo isso?

- No importa.

- Voc no precisa disso. Pode trabalhar no Brasil - tentei convenc-lo de alguma coisa que eu no sabia muito bem.

- No quero trabalhar no Brasil, Mel. Para dar aulas de ingls? E ganhar uma merreca? E receber cuspe na cara de aluno no colgio pblico? Ou, ainda, dar aula pra riquinho filho de papai em escola particular? E continuar ganhando a mesma merda? Sai dessa, Melissa.

Aquele no parecia o Alan que me levou para jantar no barco em um dia que eu achei que havia conhecido um prncipe.

- Voc no pode generalizar. Muitos alunos de escola pblica so timos e nem todos os alunos de escola particular so nojentos. Muitos querem aprender mesmo, em qualquer escola que voc estiver no mundo. A nica verdade  que professor ganha mal no Brasil, mas voc pode ter trabalhos paralelos. Voc  to inteligente! - dizia, empolgada e quase acreditando que poderia mudar tudo com algumas palavras.

- Esquece isso, Mel, e voc pode ficar aqui numa boa.

Esquecer? Ficar ali numa boa me parecia um favor sem a menor vontade de ser feito.

- Quem te ajuda nisso tudo? - fiz a ltima pergunta.

- Um amigo norte-americano. Assunto encerrado!

Tudo estava encerrado, no s o assunto. Comecei a pegar as poucas coisas que ainda estavam em seu apartamento para juntar com as malas que havia acabado de trazer e percebi que no tinha quase nada. Viajar como mochileira, com a indicao de Tho e como se fosse ficar apenas uma semana fora de casa e no Uruguai, foi o maior exerccio de desapego da minha vida. Comprei algumas roupas de frio para suportar o inverno norte-americano, mas vivia com pouco. Com quase nada. E deixando meus sentimentos de lado, a experincia de conhecer outros lugares era a melhor que j havia acontecido para mim.

Foi quando lembrei que faltava o mais importante: Ozzy.

- Alan, onde est Ozzy? - perguntei, ofegante.

- Onde voc pediu que ele ficasse - respondeu Alan, com expresso de quem no compreende.

- Eu pedi que ele ficasse aqui. Caio ia tomar conta dele, no se lembra?

- Viviane passou aqui, disse que voc tinha telefonado e pedido que ela levasse o gato l pra baixo. Acho que est com ela, ento.

- Mas eu no telefonei! No pedi nada disso! - disse, nervosa, j saindo para descer as escadas. Esqueci o casaco, sa no frio e desci correndo at o apartamento da agncia. Larguei minhas coisas com Alan, que foi atrs de mim. Quando saamos do apartamento, encontramos Caio chegando e ele no teve tempo para perguntar o que estava acontecendo. S me viu correndo e nervosa com Alan tentando me alcanar. Ento Caio correu atrs de ns.

Quando entrei no apartamento em que Viviane morava, um odor de urina de gato tomou conta de minha narina. Vi os potes de Ozzy dentro de uma gaiola de passarinho, mas estavam vazios. Tho estava com o gato no colo e desligava o telefone.

- Mel, ainda bem que voc chegou! - disse ele, como se no tivssemos passado mais de 10 horas dentro do carro sem nos falar, como se tudo aquilo no tivesse mais importncia. - Eu cheguei e vi Ozzy trancado na gaiola cheia de fezes e urina, sem comida nem gua, magro e desse jeito aqui - e estendeu o gato que parecia desmaiado.

Agarrei meu gato, chamei pelo seu nome e comecei a chorar de desespero. Ento Tho me explicou que na hora procurou um veterinrio na internet, mas s depois de ligar para trs lugares conseguiu um profissional para nos atender quela hora em Montgomery, uma cidade prxima. Samos todos para a clnica no meu carro alugado. Tho dirigindo, eu e Ozzy no banco do passageiro e Alan e Caio, que, sabe-se l por qual motivo, acabaram indo conosco.

Se eu no estivesse to nervosa naquele dia, teria notado como Montgomery  uma cidade linda. Como voltei l dias depois para o veterinrio ver Ozzy mais uma vez, percebi o que naquele dia no fez sentido para mim: era uma cidade pequena, linda, organizada, parecia sada de um filme antigo. No sabamos por que Tho escolheu um telefone de l e no de Cincinnati, a maior cidade da regio, mas nada foi questionado naquele dia. Eu s queria que Ozzy ficasse bem.

Esqueci as palavras do veterinrio, mas sei que ele disse que meu gato ficaria timo e que eu no precisava me preocupar. Se eu fosse vocs, ficaria preocupado com quem fez isso com o animal, comentou o mdico. No falei, mas pensei em qual teria sido o motivo de Viviane para maltratar Ozzy. Por que ela trancou o gato em uma gaiola to pequena? Se colocou comida, ela sabia que no seria suficiente. Ela sabia o que estava fazendo!

Afinal, o que ela pretendia com aquele plano to idiota? Vingar-se de mim porque eu descobri que ela traa Theodoro? E eu nem havia tido coragem de dizer nada. Com Caio ali na sala, a situao parecia ainda mais inacreditvel. Eu, meu ex-namorado, meu melhor amigo e o amante da namorada do meu melhor amigo. Todos juntos esperando pelo atendimento do meu gato.

Foi quando pensei no momento em que contaria que Viviane era muito mais que uma cretina que maltratava animais. Que ela era, tambm, desonesta e mentirosa. Porm, com tudo o que eu sentia por Tho, ficava difcil no misturar a raiva que eu tinha de sua namorada com o cime, e, ao mesmo tempo, eu me sentia mais tranquila at que ele descobrisse a verdade. Porque enquanto ela continuava sendo a Viviane que ele conhecia, ele poderia descobrir o que sentia por mim. Se eu contasse quem ela era de verdade, ele poderia confundir tudo. E eu no queria ser apenas o ombro no momento de dificuldade.

Tive vontade de trancar Viviane em uma gaiola pequena, sem comida nem gua, para que ela sentisse o que Ozzy sentiu. Lembrei de Lady e tive a pssima sensao de que ainda passariam muitos sculos at que as pessoas percebessem que os animais merecem ser tratados com o carinho que eles nos do, porque so criaturas de Deus tambm. Mas se os homens matam os prprios homens, o que eu poderia esperar da relao com os animais?

Voltamos para Mason comentando sobre Ozzy, o quanto ele era forte e iria superar tudo aquilo. O telefone de Tho tocou e ele dizia palavras soltas como sim, no e no acredito em voc. Desligou sem beijo e tive a impresso de que ele falava com Viviane. Quando chegamos, cada um foi para um lado. Alan e Caio foram os primeiros a sair do carro. Paramos na porta do apartamento da agncia, onde Tho estava hospedado, e ento percebemos que as luzes estavam acesas.

- Desculpe, Mel - disse Tho.

- Voc no fez nada. Alis, fez. Voc encontrou um veterinrio para o meu gato, e eu s posso agradecer. Obrigada por tudo - disse com sinceridade. - Mas acho melhor voc entrar, porque acredito que sua namorada tenha chegado - comentei. No dissemos mais nada depois disso. Ele parecia estar envergonhado por causa do que Viviane havia feito, e eu no me sentia  vontade desde a nossa conversa em Little Rock. Quase o abracei, mas recuei. Abri a boca para dizer alguma coisa, mas no consegui. Ento virei e continuei andando em direo s escadas. Virei a cabea e disse boa-noite.

Foi quando eu percebi que teria de pensar onde passaria a noite. Subi para o apartamento de Alan e Caio imaginando o que eu faria nos prximos minutos. Poderia fingir que nada daquilo tinha existido e que a conversa com Alan era uma alucinao. Mas no era. Eu sabia exatamente o que ele fazia e no concordava com seu comportamento. Alm disso, Alan no era mais a mesma pessoa, ou era quem sempre foi e eu nunca havia percebido.

Ser que era sempre assim em um relacionamento? Voc s descobre a pessoa com quem est depois que deixa de estar com ela?, questionei-me. Procurei apagar a ideia da minha mente, porque seria como atestar que nunca conhecemos quem est ao nosso lado. E, sinceramente, depois de tantos anos, eu acho que meu pai e minha me se conhecem muito bem e, se ainda esto juntos, deve haver algo especial que eu no sei definir. Talvez seja amor mesmo.

Pela primeira vez pensei na possibilidade quase certa de que meus pais estavam juntos porque se amavam. De alguma maneira, quando pequena, sempre pensei que deveria existir algum outro motivo, porque estar juntos em uma cidade pequena com pouco dinheiro e mesmo depois da morte de um filho no devia ser uma vida muito boa. Pensando por outro lado, se eles passaram por algo difcil e ainda continuavam juntos, devia ser um amor bem maior do que eu podia imaginar.

Voltei meus pensamentos para a minha situao. Estava sozinha mais uma vez e no sabia o que fazer.

A ideia de passar a noite com Alan era repugnante. No podia pedir abrigo para Tho com Viviane em Mason e nem que ela no estivesse eu no dormiria mais naquela casa. Os motivos eram muitos, mas eu resumia em dois: ela traa Theodoro e maltratou Ozzy. Eu tinha vontade de denunci-la, mas meu maior desejo era que Tho descobrisse tudo sem que eu precisasse fazer nada. Medo. Covardia. Eu devia contar, mas ainda no era o momento.

Peguei minha mala e sa da casa de Alan. Ele e Caio estavam em seus quartos e no viram quando entrei e sa. Sentei na escada do prdio. Com a construo aberta, era possvel ver o estacionamento de onde eu estava sentada. Estava frio, muito frio. Ao olhar para o cu, vi quando pequenos flocos de neve comearam a cair. Eu nunca tinha visto neve na vida! Olhei para Ozzy, que estava quieto em sua caminha, e sorri.

Larguei tudo e fui para o meio do estacionamento. Levantei os braos e senti os flocos em minhas mos. Era como gelo ralado caindo das nuvens. Abri a boca, desejei que ningum estivesse olhando e pensei que nos prximos dias eu faria um boneco de neve com nariz de cenoura como o cinema havia me mostrado que existe. Peguei o celular e telefonei para minha me.

- Como esto meus pais e meu irmozinho? - perguntei.

- Filha, o que aconteceu? - perguntou minha me, preocupada. Eu expliquei que havia esquecido o fuso horrio (era madrugada no Brasil), mas que estava tudo bem, que apenas havia sentido saudade. - E vocs, esto bem?

- Estamos timos. Minha barriga quase no aparece, mas j  meu quarto filho, n - porm, pela primeira vez desde que Marcos nos deixou, no senti constrangimento de mame ao dizer isso. Parecia que o beb a ajudava a fechar uma ferida que eu imaginei que nunca cicatrizaria. - E voc, Mel?

- Eu nunca estive to feliz, mame. E tudo vai ficar bem - respondi. Dizendo alto, pude ouvir minha prpria voz com a certeza de que tudo ia melhorar. Foi quando pensei que havia uma alternativa. Poderia falar com a nica pessoa que eu conhecia alm de todos com quem no podia contar naquele momento. Ento, quase meia-noite, bati na porta da sndica.



Duluth


 beira do lago Superior - maior lagoa de gua
 doce do mundo - e de outros grandes lagos est
 Duluth, cidade charmosa ao norte de Minnesota. Possui
 outro ttulo de mais do mundo, j que l  onde se
 concentra o maior nmero per capita de milionrios.
 Tem 129 parques municipais e estrutura para compras
 e gastronomia.

No estava nos meus planos bater na porta da sndica to tarde pela segunda vez. Mesmo depois do brigadeiro, no podia esperar que seria bem atendida quela hora, mas no havia alternativa. Se ela me expulsasse, eu teria que dormir em um motel de beira de estrada, mesmo no sendo uma boa opo.

Bati na porta, mas ela no atendeu. Pensei que, se batesse com mais fora, como no outro dia, ela atenderia de mau humor, mas depois eu poderia explicar e tudo ficaria bem. Eu s precisava de um lugar para dormir. Porm, ela no abriu. Fiquei encostada  porta de seu apartamento quando um vizinho passou por mim e disse: Emilys not at home. Ela no estava em casa, ele confirmou. Agradeci, peguei as malas e Ozzy e fomos para o carro.

Liguei o aquecedor, cobri a casinha de Ozzy com o casaco cor-de-rosa e abaixei o banco do motorista. O que eu faria? Mas no tive tempo de pensar. Estava exausta pelo dia longo e maluco. A viagem estranha com Tho, a chegada ao apartamento de Alan, descobrir que ele estava envolvido em atividades ilegais no pas e o pior de tudo: ver meu gato sofrendo. O cansao pesou nos meus ombros, e dormi sentada no banco do carro.

Acordei algumas vezes durante a noite pelo desconforto. Do lado de fora, havia pouca neve e algumas luzes acesas nos apartamentos. Luzes de Natal. Voltava a dormir em seguida, aquecida e com Ozzy perto de mim. No dia seguinte eu decidiria nosso rumo.

Toc, toc, toc.

Abri o olho direito, depois o esquerdo e me senti como um gato que acaba de ser acordado. O nico felino do carro estava com as patas na janela, olhando para fora. O vidro estava embaado, limpei-o com a manga da minha blusa e virei a cabea para enxergar melhor.

O que ela estava fazendo ali?

Emily estava do lado de fora batendo na janela do meu carro. Olhei no relgio, que marcava sete horas da manh. Abri o vidro e pensei que provavelmente receberia uma advertncia por dormir no carro. Ela ainda no devia ter esquecido o episdio daquele dia em que eu a incomodei porque havia esquecido a chave do apartamento em New Jersey.

- Est tudo bem? - perguntei, com medo da resposta.

Emily me olhou assustada. Era um olhar estranho, de quem reconhece um amigo no meio de uma multido. Foi quando eu percebi que havia feito a pergunta em portugus.

- Sorry, I... - pedi desculpas e ia comear a explicar quando ela me interrompeu.

- Tudo bem.

Eu no sabia se Tudo bem era a resposta para a minha primeira pergunta ou para as minhas desculpas. Mas o fato  que a sndica respondeu em portugus. E antes que eu descobrisse o motivo, ela emendou uma pergunta na outra. Est com frio? Quer entrar? Por que dormiu no carro? Vamos para o meu apartamento?, tudo junto, com um sotaque to bonitinho que parecia uma criana aprendendo portugus. Era interessante perceber como os norte-americanos provavelmente me escutavam. E o meu ingls no era ainda nem a metade do portugus de Emily.

Acho que o brigadeiro fez efeito. No pensei duas vezes, porque o que eu mais queria era entrar em um lugar que tivesse banheiro. Levei apenas Ozzy, meu casaco e a bolsa. Lavei o rosto e percebi que em cima da pia havia uma vela perfumada em formato de rvore de Natal com um pequeno Papai Noel ao lado. E ento me lembrei das luzes dos apartamentos de madrugada e de que a data chegaria em duas semanas.

Quando voltei para a sala, percebi que Emily preparava caf na cozinha. Seu apartamento tinha apenas um quarto e um banheiro com duas portas - uma levava  sala e a outra, pelo que percebi, ao seu quarto, que se transformava em sute. A pequena sala era dividida em duas: estar e jantar, com uma bancada para a cozinha. No sabia se ficava em p ou sentava. Se falava ou fugia.

- Do you need some help? - perguntei se ela precisava de ajuda.

- Pode falar brasileiro - respondeu, emendando em seguida - portugus, I mean. - A mistura de portugus com ingls ficava charmosa naquela mulher que ainda no devia ter 35 anos, era bonita e elegante, e que um dia me atendeu  porta com um olhar de que iria me matar por acord-la. Naquele momento, na cozinha, Emily parecia mais feliz. E ento me lembrei de mame, quando me disse que havia visto nas cartas que uma pessoa improvvel iria me ajudar.

- Voc quer coffee? - perguntou. Respondi com a cabea e ela trouxe uma xcara de caf para a mesa de jantar, que ficava ao lado da bancada da cozinha aberta.

- Por que me ajudou? - quis saber. Ela s sorriu, mas no respondeu.

- Como voc aprendeu a falar portugus? - continuei, ainda cheia de dvidas e questes.

- Fui casada com brasileiro - disse ela, levantando os ombros, como se, de alguma forma, aquilo no fosse exatamente uma histria interessante para ser lembrada.

As estruturas diferentes de suas frases e a docilidade no jeito de falar me encantaram. Ela falava to bem!

- Voc fala muito bem minha lngua - elogiei.

- Obrigada, no quero esquecer. Trs anos de casamento  coisa bastante. S oito meses que ele voltou para o Brasil - disse ela.

- No sei se devo dizer que eu sinto muito...

- Acho que sim. Eu sinto muito. Ainda sinto.

E foi assim que comeou minha segunda conversa civilizada com a sndica do condomnio. Tomamos caf juntas, comemos donuts, conversamos por horas e eu soube que ela me encontrou no carro porque estava voltando para casa quela hora. Era um sbado, e na sexta-feira Emily havia sado com as amigas em Cincinnati. Depois que todas foram embora acompanhadas, ela ficou sozinha vendo o dia nascer. E lembrando a vida que tinha antes da separao.

A sndica do condomnio era diretora de teatro. Nasceu em Duluth, estado do Minnesota, muito mais prximo do Canad que de Mason. Seus avs moravam em Sartell, a trs horas de distncia, e a infncia e adolescncia parecem ter sido felizes.

- Duluth  uma cidade linda, com lagos muitos e o maior chamado de Lake Superior - contou. - No Minnesota h muito verde e cidades no meio mato escondidas. Minha melhor amiga, Maggie, nasceu em um desses lugares perdidos, com 16 habitantes. Thats it, uma cidade com 16 pessoas. Well, essa era a conta da ltima vez que eu fui a Roneby, em 2004.

Durante algum tempo visitei virtualmente Duluth pela voz de Emily. Imaginei como seria o Great Lakes Aquarium, um aqurio de gua doce que era um dos lugares preferidos de seus pais. E tive quase certeza de j ter estado na Glensheen Mansion, uma manso de 1908 que mantm as moblias originais e realiza visitas guiadas para mostrar a histria da famlia e de cada cmodo. Muitas memrias de Emily estavam guardadas em Two Harbors, cidade prxima.

- Aquilo tudo era muito vazio. Eu no queria minha vida toda no vazio. Queria ser vista.

Foi quando percebeu que teria de mudar. Escolheu Nova York. Na juventude, trabalhou como garonete e estudou teatro. Depois comeou a dirigir peas na Off-Off-Broadway e muitas foram aclamadas pela crtica. Logo passou para a Off-Broadway, com teatros de 100 lugares muitas vezes lotados. Seu maior sonho era chegar  Broadway. Ela chegaria, se no tivesse conhecido o marido, Gustavo, em Nova York. Ele estava de frias, foi assistir  pea e depois a visitou no camarim para dar os parabns. Trocaram telefones, saram para um date (como os norte-americanos chamam os encontros) e no foi difcil se apaixonar pelo moreno lindo de olhos escuros. Gustavo era brasileiro, mas trabalhava em uma empresa multinacional em Cincinnati. No fim das frias, depois de 15 dias, ele a pediu em casamento.

- Foi o pedido de casamento mais rpido que eu vi na minha vida - disse Emily.

Eu tambm.

A diretora de teatro no largaria seu trabalho por uma aventura, por isso decidiu no aceitar o pedido de casamento maluco e antecipado. Ele voltou para Mason, onde morava, e ela ficou em Nova York. Quando ele podia, ia v-la nas peas. Quando ela conseguia, fugia no meio da semana para visit-lo em Ohio. E assim ficaram por cinco meses, quando, em um passeio pela via de que Emily mais gostava, a Broadway, ela fez tudo ao contrrio. Ajoelhou-se e pediu Gustavo em casamento, como ele havia feito aps 15 dias de dates. Ele aceitou, mas ela teria de se mudar. Ele no sairia de Ohio.

- E eu sempre pensei que o amor era a mais importante de todas coisas - disse, com aquele sotaque norte-americano e com um sorriso triste. - Mas eu no sabia que quando o amor  de verdade, ele s quer o outro feliz.

Aquilo foi como uma flecha em meu corao. Lembrei de meus pais e pensei que at aquele momento no tinha conseguido esquecer Tho.

Emily se mudou para Ohio e comeou a dar aulas em Mason e Cincinnati. Formou grupos de teatro amador e tornou-se o que nunca imaginou que seria: uma tima dona de casa. Aprendeu a preparar pratos brasileiros e, depois de trs anos, descobriu que Gustavo no era exatamente quem ela imaginava. Ela no era a nica mulher na vida dele. Mesmo depois de descobrir a traio, ela o perdoou. Mas o casamento no era mais o mesmo, com muitas idas e vindas, at que o marido decidiu que voltaria para o Brasil. A empresa ofereceu um cargo na filial de So Paulo, e ele voltou. E deixou claro que Emily no iria junto, porque ele queria a separao.

- Ele tinha dois filhos no Brasil, no queria filhos mais. No queria filhos comigo. Ele sabia que eu queria ser me muito. E brigamos por isso.

- A culpa no  sua, Emily - disse e coloquei minha mo sobre a sua.

- O que eu tinha de ter feito para ele ter filhos comigo? Eu errei e no sei onde est o erro.

- Quando um homem no quer ter filhos, no  porque a mulher fez algo que o desagradou ou que o fez pensar no quero que essa mulher seja me dos meus filhos.  uma coisa dentro dele, e que s ele pode explicar, que lhe diz que no quer ser pai ou que no quer ser pai novamente. Muitas mulheres conseguem convencer um homem, com amor, de que ele seria um timo pai, mas, geralmente, Emily, isso no  algo que se conquista com compras ou promessas.  algo que precisa nascer na outra pessoa. E isso voc nunca vai saber se iria acontecer.

Era possvel ver Gustavo em todo o apartamento. Enquanto conversava com a sndica, percebi que havia um porta-retrato do casamento dos dois e uma foto do casal se beijando na geladeira presa com um m. Em oito meses, parecia que Emily s queria se entregar  bebida e fugir da realidade. No voltou para Duluth para no morar com os pais, no retornou a Nova York e estacionou sua vida no lugar em que o ex-marido a deixou.

- O pior foi conviver com a amante dele.

- Voc a conhecia? -perguntei em exclamao.

- Uma moa muito mais nova que eu, linda, to linda como eu nunca fui. Mas posso contar outro dia essa histria? - Ela finalizou, e eu no insisti. Havia autoestima baixa, to baixa que eu precisaria de muito alto astral para mudar aquela situao. No cogitei ir embora. No somente por mim, mas por ela tambm. Eu queria estar perto. Emily era uma pessoa adorvel, e eu... Continuava sem ter onde ficar.

- Emily, posso te pedir uma coisa? - perguntei enquanto colocava o ltimo pedao de donut na boca.

- Preciso pedir uma coisa antes - respondeu. - Quer ficar uns dias na minha casa? Voc no parece ter um lugar para ficar depois de dormir no carro - e ns rimos. Expliquei por que estava l, toda a histria de Alan e de Tho, o que eu fazia nos Estados Unidos e aceitei prontamente o convite.

- Qual era seu pedido? - perguntou ela, depois de eu dizer que ficaria.

- Papai Noel j realizou.

Fomos dormir s onze e meia da manh daquele sbado, mas combinamos que iramos ao shopping quando acordssemos. Eu queria deixar o apartamento de Emily com cara de Natal, e aquele era o pas perfeito para encontrar enfeites. A algumas semanas do feriado, muitas lojas faziam liquidaes. Ns e sua famlia brilhamos com o Natal, estava escrito, em ingls, na vitrine de uma loja no shopping Kenwood.

- Emi, olha que loja maravilhosa! - comentei, apontando para a vitrine com renas, algodo imitando neve e muitas luzes. - Acho que h uma promoo de luzes - completei, mostrando a fila para comprar piscas e enfeites luminosos com 70% de desconto. Os norte-americanos sabem fazer uma promoo que nem mesmo a 25 de Maro  capaz de superar.

Entramos na fila sem saber exatamente o que compraramos, mas com a certeza de que sairamos do shopping com muitos enfeites de Natal. Como a promoo era para luzes, j imaginei que poderamos enfeitar a pequena varanda com lmpadas coloridas e colocar piscas dentro do apartamento (depois de jogar aquelas fotos de Gustavo no lixo, claro).

Enquanto estava na fila, Michel me telefonou. Cada vez que algum da famlia me ligava, eu j imaginava o valor que pagaria de roaming no final do ms. Ao mesmo tempo, falar com um deles era tudo o que eu mais queria. Quando estamos longe de casa, a solido  algo quase palpvel, mesmo que tenhamos muitas pessoas por perto. Estar longe  sentir saudade de algum sempre. E uma vez que voc morou longe pelo menos uma vez, sempre haver saudade em seu cotidiano, de algum que ficou no seu pas ou de algum amigo que voc deixou no pas que conheceu.

- Fofa, conseguimos! O jornal vai se retratar e o prmio ir para as suas mos! - comemorou meu irmo.

- Voc conseguiu, no acredito! Fez tudo sozinho, fofo?

- Agora eu sou um homem de famlia, por favor, mais respeito! - brincou. Michel me explicou que, quando eu voltasse ao Brasil, participaria de uma cerimnia para a entrega do prmio e que, em poucos dias, o jornal publicaria uma retratao sobre o ocorrido. Eu no sabia detalhes e tenho pavor de problemas jurdicos, ento fiquei feliz por Michel ter resolvido tudo. S sabia que o fato de ter um blog me ajudou a provar que aquele texto era meu muito antes de Cristiano dizer que era dele. Pensei em Blanda e nos processos que ela havia me contado. Sua vida parecia histria de cinema.

Mandei beijo para Sam, desligamos e comemorei com Emily. Contei a histria do jornal, falei sobre Cristiano e em menos de 24 horas ela se tornou a pessoa mais prxima a mim em meses.

A fila andou e pegamos todas as luzes que pudemos. O desconto era fantstico. Escolhi lmpadas coloridas. Tambm peguei uma guirlanda para a porta de entrada, um Papai Noel gorducho que ficava iluminado para a varanda e mais luzes, j perto do caixa, porque pensei em colocar lmpadas brancas dentro do apartamento.

- Precisamos da ID das senhoras - disse a atendente, j com a tecla SAP mental ativada. Custei a entender o que era ID quando cheguei ao pas e me pediram pela primeira vez. Eu s ouvia id, mas no tinha a menor ideia de que seria identificao. Como nosso RG. Ou o meu passaporte, no caso.

Mas no adiantou. A caixa olhou para ns, entregou os documentos e disse Next, passando a prxima pessoa na nossa frente.

- Ei, o que h de errado aqui?  nossa vez! - interferi.

- Se quiserem levar alguma coisa, pagaro o preo normal - respondeu.

- Mas l fora a vitrine anuncia que  promoo.

- Qual  o nome da promoo? - perguntou bocejando.

- Ns e sua famlia brilhamos com o Natal - fiz com cara de d, voc no sabe ler?.

- Ento leia de novo e depois volte com algum de sua famlia se quiser levar tudo isso. Ou levem tudo pelo preo original. A promoo  vlida para pessoas da mesma famlia.

Aquela atendente mal-educada queria me dizer que eu no podia levar as luzes com o preo promocional porque eu e Emily no ramos parentes?

Enquanto eu misturava portugus e ingls no pensamento, Emi pediu que fssemos embora, mas eu disse s mais um minutinho. E foi tudo muito rpido, sem pensar. Sem Alan por perto, eu no tinha vergonha de dizer o que se passava pela minha cabea, mesmo as ideias malucas. Voltei a ser a Melissa que fala o que pensa e cede o lugar para a passageira do metr sentar porque pensa que ela est grvida.

- Com licena - disse, interrompendo a atendente. - Ns somos da mesma famlia, sim. E se voc no nos vender todos os pacotes de luzes prometidos na promoo, vou chamar seu gerente. No, melhor! - disse, levantando a voz - Vou processar a loja por preconceito! Ou vocs no deixam casais de mulheres participarem da promoo por algum outro motivo?

Eu me senti em Hollywood. E quase falando to bem quanto uma norte-americana. Misturei algumas palavras, mas tenho certeza de que todos me entenderam, porque eu e Emily nos tornamos o centro da ateno da loja inteira. As pessoas que escolhiam enfeites pararam para ver, a atendente ficou com a boca levemente aberta e um moo lindo que estava na fila comeou a bater palmas no alto, para chamar a ateno.

- Se elas no puderem comprar, eu tambm no compro nada aqui - disse ele.

Um pouco mais atrs, uma me com um menino no colo levantou a mo.

- Eu tambm no compro mais aqui se as duas no puderem comprar.

E assim, aos poucos, a loja inteira comeou a levantar a mo, mas o barulho tomou conta do lugar. Eram pessoas indignadas, bravas, revoltadas, e logo o gerente teve de controlar os clientes e garantir que sairamos da loja com o que queramos. Fiquei feliz com aquela manifestao contra o preconceito! No era um favor ou um presente. Ns s queramos comprar. No pude resistir e dei um sorriso para Emily, que segurou uma risada.

Quando pegamos as sacolas, praticamente apostamos corrida at o estacionamento. Dentro do carro, rimos, enquanto abramos os pacotes e exibamos as nossas compras de Natal.

- Ai, Emily, estou me sentindo um pouco mal por ter mentido.

- Aquela mal-educada bem que merecia! E ns no somos namoradas porque gostamos de homens, mas se eu fosse escolher uma namorada, voc estaria no topo da lista. - Ela riu.

- Vamos deixar para uma prxima vida, porque nessa meu corao j tem dono, gatinha - pisquei.

Naquela noite, nos divertimos montando a rvore de Natal antiga de Emily (mas com novos enfeites que compramos na loja da promoo), acendemos o Papai Noel gorducho, penduramos a guirlanda, colocamos todas as luzes pela casa e na varanda e, quando ligamos tudo, parecia que estvamos em Las Vegas.

Para completar a comemorao, jogamos fora as fotos de seu ex-marido.

- Emi, por que s havia um nico enfeite de Natal na sua casa, aquele do banheiro? - perguntei, enquanto contemplvamos nossa decorao.

- Era de Gustavo - respondeu ela.

- Ento acho que temos mais um item para o lixo - completei.

Naquela noite, revi todas as fotos que havia tirado com Tho.



Sartell


Sartell nasceu s margens do rio Mississipi e teve
 Joseph B. Sartell como um de seus primeiros moradores,
 em 1854 - da o nome da cidade. Em dezembro e
 janeiro, a temperatura mnima varia entre -15C e -18C.
 O recorde de temperatura mnima foi de -42C, em 1977,
 uma verdadeira casa para o Papai Noel.

Todo fim  um novo comeo.

Se eu no tivesse sido demitida naquele dia, talvez nunca tivesse prestado ateno em Tho no elevador e muito menos aceitado o convite para fazer um freela para a agncia na qual ele trabalhava. Na verdade, sem a demisso, Cristiano no teria feito o convite indecente para o Uruguai (mesmo com interesses escusos) e seria possvel que Theodoro no fizesse a proposta de eu viajar para os Estados Unidos. Se eu continuasse com Alan, no estaria no apartamento de Emily e existiria a possibilidade de ambas passarem o Natal sozinhas. Mesmo que eu tivesse companhia, deixaria de conhecer minha nova amiga, e esse cenrio no me parecia bom. Qualquer ao que me levasse a um lugar que no fosse aquele em que eu estava naquele momento no seria ideal. O ideal era aquele agora.

E quando tudo est perdido  que mais podemos arriscar, porque s temos a ganhar.

Mesmo sabendo que faria tudo exatamente da mesma maneira, estava angustiada. Talvez tivesse contado a Tho sobre a traio de Viviane, mas isso teria mudado tudo, e eu no queria que ele estivesse comigo s porque ela o traiu. Parecia egosmo da minha parte, mas eu no pensava em mim somente. Era nele que meu pensamento estava. Tho precisava perceber sozinho o que queria para a sua vida, ou algum dia iria me culpar pelas suas escolhas.

Na segunda-feira, acordei cedo, deixei um recado para Emily e sa para buscar Lesma, depois de tanto tempo no conserto. No valia a pena pagar para resolver o problema, e aprendi que computador deve ser novo (porque em poucos meses ele j fica velho mesmo), mas mesmo assim paguei e levei o velho notebook comigo. Passei no mercado, comprei frutas, montei uma cesta e deixei na mesa de jantar.

Atualizei meu blog. Percebi que havia dias que no contava nada, ento escrevi sobre a promoo da Black Friday e as ltimas cidades que visitara. Tambm coloquei um post sobre os lugares que gostaria de visitar nos Estados Unidos, como o sonho que eu tinha de conhecer a Disney desde a adolescncia.

Liguei para minha me pelo Skype do meu novo notebook e contei que Lesma era um presente para ela. Disse que a ensinaria a mexer nos programas e que poderamos nos ver pelo computador mesmo quando eu estivesse em So Paulo.

Contei brevemente sobre minha nova casa. Apenas disse que sa do apartamento de Viviane e estava morando com uma nova amiga.

- Voc ligou para outra coisa, no , filha?

Droga! Por que as mes sempre sabem quando estamos escondendo algo? Na verdade, eu no estava escondendo, s enrolando e esperando o melhor momento para pedir seus conselhos.

- Ah, me... Eu queria que a senhora tirasse umas cartas pra mim.

- Por que, Mel? Voc no est feliz? - perguntou com a voz calma e como se estivesse ao meu lado.

- No... Quer dizer, no  isso. Eu estou feliz.

- Minha querida, se voc est feliz, viva esse momento bom em sua vida! Voc sempre quis sair pelo mundo, viajar, conhecer novos lugares e pessoas. Agora que voc vive exatamente isso, do que tem medo?

- De tudo, me. Tenho medo dessa felicidade. Ao mesmo tempo,  meu corao...

- No precisa dizer mais nada. Voc est feliz e isso me deixa tranquila. Assuntos do corao precisam de tempo para serem resolvidos, e as cartas no mostraro o que voc deve fazer.  seu prprio corao que vai te guiar. Escuta, Mel, voc quer ver sua vida passando em um DVD s para saber o que vai acontecer e ficar mais tranquila agora? Depois  s rebobinar e ir vivendo cada cena? Que graa a vida tem desse jeito?

Pensei naquilo que mame me disse. Eu no queria descobrir minha vida antes. Queria viver. E, no fundo, no precisava das cartas naquele momento, s de uma palavra de me.

- Me...

- Fala, meu amor.

- S que DVD a gente no rebobina, t? - disse, rindo.




No domingo seguinte, Emily acordou com o aroma da comida no apartamento - pelo menos foi o que ela me disse. Quando pensou em mencionar algo sobre a comida brasileira e percebeu que falaria de Gustavo, logo interrompeu a frase e comentou apenas que sentia saudade dos sabores do Brasil. Naquele dia, preparei para o almoo estrogonofe de frango, arroz branco e batatas douradas. De sobremesa, faria brigadeiro. Mas como prefiro meu doce favorito ainda quente, decidi que poderamos prepar-lo juntas depois de almoarmos.

Minha nova amiga elogiou a comida e repetiu at no haver mais o que comer. Percebi que teria de cozinhar mais. Ao que me pareceu, ela no estava se alimentando bem havia meses, e quando vi seu rosto descansado depois de dormir bastante e o sorriso quando notou que a cortina estava aberta, e a casa, enfeitada para o Natal, senti que ter dado o meu apoio foi uma das melhores aes que fiz desde a minha chegada, meses antes, no pas.

Olhei pela janela e percebi que a neve estava mais intensa. Daquele jeito eu nunca tinha visto. Fiquei paralisada.

- Sempre quis ver neve no Natal - comentei, olhando para a varanda.

- Por que justamente no Natal? - questionou Emily.

- Por causa das roupas do Papai Noel. L no calor do Brasil ele tambm usa roupa vermelha, cinto grosso, botas pretas e gorro, alm de manter aquela barba enorme. Deve morrer de calor!

- Papai Noel deve ser de Sartell - brincou. - L faz muito frio! Recordo a infncia com meus avs, a bota na chamin para esperar o Santa Claus e a neve l fora. Muita neve... Quando voc conhecer Sartell, vai entender - disse Emily sobre a cidade no Minnesota. Sorri, e ela continuou. - Em cada lugar o Natal tem uma magia diferente. Houve uma vez que eu e o... Bom, houve um Natal que passei no Brasil, em Floria... Floriapopolis...

- Florianpolis - disse com um sorriso.

- Esse! Que lugar encantador. So beautiful... Bonito... - disse ela, mas com o olhar para o nada, como se lembrasse daqueles dias. - Era praia e depois de meia-noite todos foram para o mar. Eu no entendia comemorar meia-noite, estava acostumada ao dia 25 no almoo, mas fiquei acordada e comemorei. Aquele mar  noite, as estrelas, o calor... Era tudo demais lindo, Melissa! Nunca vi nada mais lindo.

Ento eu percebi que sentia saudade da minha terra. E que a beleza de cada lugar  ele ser como , sem artifcios.

-  mesmo, Emily. O Brasil  um pas lindo. Mas estou to feliz aqui e aprendi em menos de seis meses lies para anos. S que preciso admitir que ver essa neve toda l fora me d uma vontade de pular...

- Come on, vamos!

E ento combinamos de montar o meu primeiro boneco de neve depois da sobremesa.

Emily tirou os pratos e lavou a loua enquanto eu arrumei a mesa e separei os ingredientes para o doce. Coloquei um CD brasileiro para tocar e minha nova amiga pegou um livro para ler enquanto esperava pelo brigadeiro. Deitou no sof, e eu pude ver, pela bancada da cozinha, quando ela segurou o livro no peito, olhou ao redor e deu um sorriso. Estava feliz por ajud-la e ser ajudada por ela.

Quando todos os ingredientes estavam na panela, mas o fogo ainda estava desligado, a campainha tocou. Emily se levantou, atendeu e eu ouvi quando ela perguntou, em ingls, se ele falava portugus. Quando os dois entraram na cozinha, rindo, eu o vi.

- Mais um amigo para mim falar... quer dizer, para eu falar portugus, Melissa! - comentou, enquanto olhava para mim. Virou-se para o convidado e perguntou com simpatia: - Desculpe, voc  amigo de Mel e eu nem perguntei seu nome.

- Theodoro Brasil - disse o rapaz que carregava a nacionalidade no sobrenome. Os cabelos castanhos estavam molhados, e seus olhos de caramelo me fitavam com seriedade. Emily, ento, percebeu que aquele era Tho, de quem eu havia lhe falado, e depois das apresentaes pegou seu livro e foi ler no quarto. Eu ainda gritei que ela no escaparia de montar o boneco de neve comigo e ela respondeu que era s chamar quando o brigadeiro estivesse pronto.

- Voc vai fazer brigadeiro? - perguntou Tho com um sorriso discreto e fugindo das verdadeiras perguntas que ns dois queramos fazer. O que ele estava fazendo ali? Onde estava Viviane? Por que ele havia ficado to chateado comigo depois da nossa ltima viagem, a ponto de no me procurar mais nos dias seguintes? E, finalmente, por que no ramos mais os mesmos depois de tantos meses de amizade?

Talvez porque no fssemos mais os mesmos amigos.

- Quer me ajudar? - perguntei. - Eu prometo te ensinar o ponto certo do brigadeiro se voc preparar um marshmallow caprichado depois. No comi nem um nico marshmallow no fogo como aquele que voc fez para mim em So Paulo - lembrei.

Tho estendeu a mo direita e disse: Fechado. Em seguida, perguntou o que poderia fazer para ajudar. Eu pedi que ele pegasse um prato fundo no armrio e que cronometrasse o tempo. Expliquei que, pelo fato de o fogo ser eltrico, e no a gs, era importante ter ateno na temperatura, porque no era como estvamos acostumados, com a chama visvel.

- A temperatura tem de ser baixa para termos um bom brigadeiro - expliquei como mestra, enquanto Os Tribalistas cantavam na sala Velha infncia.

Mexia o brigadeiro com a colher de pau, e Tho cronometrava os minutos para que o doce no ficasse muito mole nem muito duro, no ponto de enrolar. Aquele era o ponto do brigadeiro de colher. Quase no final do preparo, comecei a mexer rapidamente, para que o brigadeiro no grudasse no fundo da panela. Foi quando Tho chegou perto de mim e me abraou por trs, de forma que suas mos ficassem em cima das minhas mos. Era como se fssemos um s.

Tho mexia a mo direita junto comigo e senti quando a esquerda tirou a franja dos meus olhos. Virei lentamente o rosto pelo lado esquerdo e vi que ele sorria. Aquele lindo vizinho que eu havia conhecido meses antes estava comigo, e quando olhei suas pupilas dilatadas, senti um tremor que nunca havia sentido antes. Era como se todos os sentidos tivessem sido aguados. Senti seu cheiro, o toque de sua pele macia e ouvi sua voz, que cantava com a msica da sala.


Eu gosto de voc

E gosto de ficar com voc

Meu riso  to feliz contigo

O meu melhor amigo  o meu amor...


Emily entrou na cozinha correndo, mas quando percebeu que estvamos juntos, deu passos para trs como Ozzy costuma fazer quando est com medo de alguma coisa.

- Sorry - pediu desculpas em ingls, ainda nervosa. -  o cheiro de queimado...

Ento percebemos que o ponto do brigadeiro tinha passado havia muito tempo.

- Eu adoro brigadeiro queimado - disse Theodoro, brincando.

Emily abriu a geladeira, pegou uma cenoura e saiu em direo  varanda.

- Vou comear a fazer o snowman. S vou ensinar uma vez, brasileiros! - e riu.

A brincadeira de criar um boneco de neve virou competio. Cada um criou um boneco para vermos qual ficaria mais bonito. Usei o brigadeiro queimado para fazer uma bolinha que se tornou o nariz do meu boneco. Emily usou a cenoura e Tho usou uma caneta como nariz. Fiz orelhas, coloquei um gorro de l e Emily tirou fotos nossas ao lado das obras de arte. Quando o telefone tocou, ela disse que atenderia, mas que na volta faramos uma votao - no valia votar em si mesmo.

- O seu boneco tem a barriga muito grande, mas o nariz deve ser gostoso - comentou Tho, quando estvamos sozinhos com as trs esculturas no gelo.

- Pois o seu boneco nem tem orelhas!

- Bonecos de neve no tm orelhas.

- Como voc sabe? Alm do mais, o nariz do seu boneco  muito fino.

Tho respondeu com uma pequena bola de neve em minha direo. Eu abri a boca surpresa e apontei o dedo indicador direito para ele, como quem diz Vai ter troco, e peguei a bolinha de neve que era um dos braos de seu boneco. Joguei em sua direo, e ele protegeu o rosto com as duas mos. Ento, pegou uma bola enorme e eu sa correndo em volta dos bonecos. Puxou minha cintura com as duas mos e eu me virei. Ficamos de frente um para o outro, e daquele momento em diante no houve mais riso, brincadeira, provocao ou respirao. Era como se tudo ao redor tivesse parado.

Eu nunca, em toda a minha vida, me senti como naqueles segundos.

Mas havia Viviane. E se uma terceira pessoa estava em nossa histria, ela nem podia comear. Tambm pensei que ainda no tinha contado sobre o que descobri sobre sua namorada, mas o que me preocupava, naquele instante em que nos olhvamos diretamente, era que eu no podia ser de algum que no estivesse livre.

- Tho, ns precisamos conversar.  sobre a Viviane...

- No existe mais Viviane. Eu terminei com ela antes de vir aqui. Agora somos s ns dois.

E mesmo sabendo que ainda faltava contar sobre a traio, aquilo no fazia mais parte de ns. No havia mais ningum, ramos duas pessoas sem compromisso. E sem dizer uma palavra a mais, sem que precisssemos explicar o que acontecia, Theodoro segurou meu rosto com as duas mos e eu senti seus lbios no beijo mais demorado, singelo, doce e lindo que eu podia imaginar que houvesse.


Beija eu!

Beija eu!

Beija eu, me beija

Deixa

O que seja ser...


Quando abrimos os olhos, sorrimos com a coincidncia da msica Beija eu, de Marisa Monte, que tocava na sala para ns. Tho tirou o nariz do meu boneco de neve, colocou em mim e mordeu.

- Esse nariz  realmente muito bom!

- Posso fazer narizes sempre que quiser.

- S se eu puder ter essa boca tambm - e me beijou novamente.

Pude sentir suas mos em um abrao que me envolvia e me protegia. Passamos os minutos seguintes nos olhando e sorrindo. Aquele momento no precisava ter fim, mas eu no podia nos enganar. Porque se estar com Tho era tudo o que eu mais queria, estar com ele sabendo de toda a verdade era ainda mais importante. Eu me sentia culpada! Sabia que ramos ns dois e que Viviane no fazia mais parte de nossa histria, mas como eu poderia seguir sem contar que um dia soube que ele foi enganado?

Sempre achei que o comeo de um relacionamento define como ele ser dali em diante. E queria sinceridade. Saber que podamos contar um com o outro sempre.

- Tho, desculpe insistir, mas o que aconteceu com Viviane? - perguntei, ainda sem saber como contaria, mas tambm querendo descobrir se ele j sabia da traio.

- Naquele dia em que levamos seu gato no veterinrio, eu achava que ela estava no apartamento, mas no estava. Ns deixamos as luzes acesas na pressa de sair. Ento pensei em esper-la voltar a Mason para conversarmos. Mas descobri que ela s voltar no Natal, e no pude mais esperar. Telefonei ontem e conversamos por duas horas. Terminei tudo. Li no seu blog que voc estava morando com a sndica do prdio, procurei informaes e encontrei voc. Eu no consigo mais ficar longe de voc, Mel.

- Voc contou de ns dois para ela?

- Ainda no. Eu no podia continuar o namoro, porque no existe mais amor, Mel. Independente do que acontecesse com ns dois, eu no podia mais enganar a Vivi. E quando ela chegar, quero conversar e contar sobre voc. Sempre fomos amigos, no quero que ela pense que a estou enganando.

- Assim como ela te engana? - disse sem pensar, sem medir as palavras, mas no de maneira rude, apenas como um questionamento.

- O qu?

- Eu preciso te contar uma coisa h algum tempo, Tho, mas eu no podia...

Ento contei tudo o que eu sabia sobre Viviane e Caio. Como descobri, que aquele era o verdadeiro motivo de termos brigado e eu ter sado do apartamento e tudo o que me passou pela cabea em todo o tempo que nos conhecemos. Desde o comeo, com Tho eu podia falar sobre tudo. No foi diferente naquele momento.

Tho sentou ao lado do boneco de neve e abaixou a cabea. Eu estava de p quando ele me perguntou:

- Por que voc no me contou antes?

- No queria que voc se aproximasse de mim s porque descobriu algo de ruim sobre ela. Eu ia te contar, como estou te contando agora, mas precisava ter certeza de que o que voc sente no  um sentimento disfarado por ter sido enganado. Que voc no se apegou a outra pessoa porque algum de quem gostava te fez sofrer. Que voc no transferiu o amor.

- O meu amor  s seu, sempre foi seu desde que te conheci e tentei me enganar sobre o que sentia. Na verdade, nesses ltimos dias, eu s estava tomando coragem para vir aqui e dizer o quanto eu queria voc.

Fiquei parada ouvindo ecos do verbo querer no passado.

- Mel, voc no podia ter me enganado. Voc era minha melhor amiga!

- Eu no te enganei! Eu s queria que voc estivesse comigo por mim. Pelo o que eu sou, e no por alguma coisa que outra pessoa deixou de ser.

Mas Tho parecia no estar ouvindo. Pela primeira vez, desde o dia no elevador, ele no me ouvia. Levantou-se e eu pude ver quando ele foi embora.


E no meio de tanta gente eu encontrei voc

Entre tanta gente chata sem nenhuma graa,voc veio

E eu que pensava que no ia me apaixonar

Nunca mais na vida

Por isso, no v embora

Por isso, no me deixe nunca, nunca mais...



Detroit


Maior cidade do estado de Michigan, Detroit
 situa-se entre os lagos St. Clair e Erie. De Detroit
 pode-se ver Windsor, no Canad. Sua economia
 principal vem das indstrias automobilsticas da
 cidade, o que lhe rendeu o nome de Motor City.

Quando Emily chegou, eu estava deitada na neve, de barriga para cima e chorando. Como Tho podia achar que eu tra sua confiana? Foi Viviane quem o traiu, no eu. Aquele beijo ainda estava na minha boca, e suas palavras, em meus pensamentos. O meu amor  s seu, sempre foi seu desde que eu te conheci. Por isso estvamos to diferentes um com o outro. Descobrimos um sentimento que no dava mais para ser escondido. Mas naquele momento havia muito mais que eu no queria esconder, como a minha raiva por Viviane.

No meu pensamento eu s desejava que por toda a sua vida ela usasse banheiros sujos como aquele que eu precisei usar no posto de gasolina de estrada quando viajava com Alan e Ozzy. E era um desejo bastante terrvel.

Naquele dia, foi minha nova amiga quem cuidou de mim. E mesmo com toda a sua ateno, senti falta de conversar com Samantha. Minha memria no conseguia lembrar nem mesmo de quantos meses ela estava grvida e no lembrava tambm se era ela ou mame quem teria o beb primeiro. O que aconteceria se algum deixasse um beb aos cuidados de uma tia desmemoriada como eu?

Mandei um torpedo pelo celular e pedi que ela entrasse na internet para conversarmos. Conectei pelo meu novo notebook e ver Sam me fez um bem que eu no podia imaginar.

- Sua barriga est linda, amiga!

- Quase nem est aparecendo, Mel...

- Mas voc est to bonita, radiante e iluminada! - disse, com as lgrimas escorrendo de emoo, mas um pouco pela tristeza que sentia pelo o ocorrido com Tho.

- Voc vai ser a melhor tia do mundo! - comentou Sam, certamente no se referindo ao fato de que provavelmente eu esqueceria os aniversrios do beb. - Mas agora me conte, o que est acontecendo? Estou longe, mas continuo sendo sua melhor amiga, no ? - perguntou ela, j um pouco enciumada porque sabia que eu estava morando com Emily.

- Voc sempre ser minha irm, Sam.

Ento contei tudo o que havia acontecido nos ltimos dias, desde a mudana para o apartamento de Emily (sobre o que eu tinha contado brevemente em um e-mail) at os detalhes da visita de Tho naquele dia. Chorei e recebi o apoio da minha amiga que estava em outro pas. Samantha jantou na frente da cmera e s desligamos quando j era muito tarde no Brasil.

No fundo, nem Sam e nem Emily me falaram o que eu deveria fazer. S eu poderia escolher o meu caminho. Mas saber que elas estavam me apoiando era o mais importante. Um amigo nem sempre tem a palavra certa para dizer, mas o que nos faz sentir melhor  saber que ele est ao nosso lado.  como uma frmula mgica.

Antes de dormir, recebi dois recados no meu celular e no respondi. Nas horas seguintes, durante toda a madrugada e pela manh, novos recados. Acordei e havia um e-mail. No respondi nada. No sabia o que dizer. Era eu quem me sentia trada naquele momento.

23h47: Desculpe.

23h55: Uma chamada no atendida.

00h12: Mel, por favor, me desculpe. Tho.

00h14: Voc ainda est acordada? Eu no consigo dormir.

00h19: Uma chamada no atendida.

02h39: No preciso saber de mais nada. Devia ter acreditado na sua palavra, mais nada tem importncia.

04h11: Voc continua sendo a minha melhor amiga, mas eu no vou mais conseguir ficar sem os seus beijos.

No e-mail estavam todas as frases dos torpedos daquela madrugada. Acho que ele quis ter certeza de que eu receberia. Mas no sabia como responder. Esperei que me ligasse de novo e estava disposta a atender e conversar, porque no queria continuar naquela situao. Mas ele no ligou. Esperei por uma semana e ele no ligou novamente, nem mandou novos recados ou e-mails. No tive coragem de ligar tambm, muito menos de aparecer no apartamento em que Viviane morava. E se ela estivesse l? E se ele tivesse desistido de ficar comigo?

Emily no tinha aulas nem ensaios nos trs dias seguintes e me convidou para viajar.

- Seu trabalho no  relatar viagens? Well, its time to work! - disse-me com gentileza que era hora de trabalhar. No questionei, porque sabia que, no fundo, era sua maneira de me deixar animada. E eu sabia que aquela viagem poderia fazer bem a ns duas.

Viajamos no dia seguinte pela manh para Detroit e passeamos pela cidade durante todo o dia. Visitamos o campo de beisebol e passamos pela ponte que faz a divisa de Detroit (nos Estados Unidos) com Windsor (no Canad). Foi uma sensao incrvel ver que, do outro lado, estava um pas diferente. Enquanto eu contemplava a vista, um senhor de barba branca passou por ns e disse: Bem-vindas a Detroit. Eu e Emi nos olhamos e, daquele momento em diante, brincvamos que havamos sido recebidas na capital de Michigan pelo prprio Papai Noel.

Fomos a um parque e percebemos que, na regio de Michigan, que  rodeada pelos grandes lagos, todos os parques tm um espao que eles chamam de praia - que  o lago, na verdade. No vero, as pessoas organizam piqueniques, nadam e passam o dia nessas reas. Com o inverno rigoroso, pudemos apenas deitar na grama com neve e conversar por horas, mesmo no frio.

Dormimos uma noite na cidade. No dia seguinte, visitamos a pequena Birmingham e voltamos para Mason.

Na segunda semana depois do ocorrido com Tho, decidi terminar meu projeto para a segunda viagem que faria para fora do Brasil. No contei nada a ningum, mas como a agncia me escreveu propondo uma nova aventura, percebi que seria o momento para aceitar e programar tudo. Passaria o Natal nos Estados Unidos e aquela seria a ltima parte do roteiro Amrica sobre rodas. Havia mais para fazer, mas eu no sabia como, e informei sobre o fim da viagem aos meus chefes. Passaria o Ano Novo com minha famlia em Bady Bassitt e no via a hora de ver minhas duas barrigudas.

Na terceira semana, percebi que havia sado do apartamento poucas vezes. Emily insistia, mas eu preferia ficar no casulo, com o aquecedor ligado, admirando a neve pela janela e escrevendo. Coloquei muitos posts no blog, com todos os meus sonhos de viagem. S no comentava sobre os planos para o ano seguinte.

Chorei todos os dias da primeira semana (mesmo quando estava viajando), em dias alternados na segunda e quase no chorei na semana do Natal. No porque estava feliz, mas por estar conformada.

Eu e Emily preparamos uma autntica ceia de Natal brasileira, com rabanada, frutas secas, bolo de nozes com a receita de Madame Marcela e uma mesa montada na noite do dia 24, como manda a tradio. Ozzy estava com uma touca de Papai Noel e ficou brincando com um ratinho de pelcia e seu novo amigo felino, Gil, enquanto montvamos a mesa. Deixei o computador ligado na bancada da cozinha, de forma que a cmera mostrasse a sala de jantar. Michel ligou o Skype no computador da casa de nossos pais e passaramos o Natal juntos, mesmo longe. Foi naquele dia que Michel e Samantha contaram aos nossos pais que teriam um beb.

- Voc vai conhecer meus pais, meu irmo Michel e minha amiga Samantha. Mame me adiantou por e-mail que tia Clara viajou de Salvador para Bady e deve passar a meia-noite l tambm. Um dia voc vai para o Brasil para comemorar o Natal conosco - convidei Emily.

- Mel... Obrigada.

- Imagine, ser um prazer te receber l e tambm quero te mostrar So Paulo, porque j me sinto quase uma paulistana... - mas ela me interrompeu.

- No  s por isso. Obrigada pela ceia, por estar aqui, por fazer este alegre Natal - disse ela, com o sotaque mais lindo dos Estados Unidos e suas palavras misturadas.

- Emi, eu quem tenho de te agradecer - e lhe dei um abrao apertado. Foi nessa hora que ouvi um barulho e percebi que Sam estava do outro lado da tela do computador com uma cara um pouco estranha e que eu tinha certeza que era de cime.

- Samantha, esta  minha nova amiga, Emily. E Emi, esta  Samantha, minha melhor amiga no mundo inteiro - disse, tratando de esclarecer para Sam que meu amor por ela nunca mudaria. Sa do campo de viso da cmera e pisquei para Emily, que entendeu e cumprimentou Sam.

- Melissa fala muito de voc. O tempo todo - e Sam sorriu.

- Olha quem est aqui! - e minha amiga mostrou a sala com papai, mame, Michel e tia Clara, alm de Lady e Funk.

- O que o cachorro de Tho est fazendo a? - perguntei com curiosidade e estranheza.

- Fofa!!! - gritou Michel, interrompendo a conversa com Sam - Theodoro pediu que tomssemos conta dele e achamos melhor trazer toda a bicharada aqui para a casa dos nossos pais, Mel. Imagine se amos deixar os bichos sozinhos l em So Paulo? Sem chance - respondeu meu irmo. E o mais estranho  que Funk dormia ao lado de Lady. Era s o que me faltava os dois terem se tornado amigos. Um co e uma gata conseguem se entender, mas seus donos, no. Em uma cadeira prxima estavam as gatas de meus pais, Madonna e Cher.

Mame e Sam mostraram as barrigas, e eu coloquei Ozzy na cmera para que todos conhecessem meu novo gatinho. Tambm mostrei Gil, o gato adotado por Emily. Depois de tanto tempo hospedada em sua casa e com o convvio dirio com o meu felino, ela disse que queria adotar um animal tambm. Fomos a um abrigo e ela escolheu um gato preto e branco que no tem um olho e  o bichano mais carinhoso que ela poderia ter. Fiz questo de, como madrinha, comprar sua primeira caminha, potes e um pacote de rao enorme. O nome, alis, foi uma homenagem de Emi ao cantor Gilberto Gil. Ela explicou que sempre se lembraria de mim quando olhasse para o gatinho de nome brasileiro.

As festas aconteciam separadamente, mas era um conforto ver que do outro lado estavam as pessoas mais importantes da minha vida. Menos duas: o meu irmo Marcos e Tho.

Emily telefonou para os pais em Duluth para desejar Feliz Natal, mas me explicou que a tradio era almoar com eles no dia 25, quando conseguiam se encontrar. Emi tiraria frias em janeiro e poderia passar mais tempo direto em sua cidade, por isso optou por viajar depois. Minha amiga fez uma apresentao e me colocou ao telefone para conversar com seus pais. Em seguida telefonou para sua amiga Maggie.

Um pouco antes da meia-noite, Emily apareceu com um presente para mim.

- Surprise! - Ela deu um gritinho quando entrou com um pacote pequeno e vermelho com um lao branco enorme nas mos.

- Surpresa! - Eu tambm disse alto, entregando a minha caixa.

Dei para Emi um porta-retratos novo, com a palavra Friends em metal na base. Havia escolhido uma foto nossa em Detroit e editado no computador com a traduo da palavra para o portugus: escrevi Amigas no canto superior. Ela chorou quando abriu o presente. Ganhei um gravador de voz digital. Eu tinha apenas um velho gravador de fita cassete que usava para as entrevistas na poca em que trabalhava no jornal, mas Emily me explicou que aquele serviria para me ajudar a guardar as impresses de cada cidade.

- Quando viajar, leve o gravador e conte para ele tudo o que voc viver. Os gostos das comidas, os aromas, as paisagens. Depois, ficar mais fcil para escrever as matrias - ela me explicou sua ideia. Era brilhante!

- Obrigada, Emi.  o melhor presente que eu j ganhei - disse, e em seguida notei que do outro lado da tela minha famlia trocava as lembranas do amigo da ona (todos presentinhos comprados em loja de R$ 1,99, apenas com o intuito de diverso) e repeti alto, para a cmera: - O seu presente , na verdade, uma verso moderna do melhor presente do mundo, que Sam me deu - j que o gravador havia sido presente de Samantha quando entrei na faculdade de Jornalismo.

O barulho era intenso e no ouvi ningum bater na porta nem tocar a campainha. Na verdade, nunca soube se algum realmente bateu na porta ou tocou a campainha.

Quando percebi, ele j estava ali na sala.

E segurava algo cor de rosa nas mos, com uma luz.

- Voc se esqueceu de convidar algum muito importante para a ceia - disse Tho, enquanto colocava meu boneco Dilin sentado na mesa de jantar, de frente para o prato de rabanadas. - Na verdade, eu disse a ele que deveramos vir porque era importante para mim, e ele topou. Acho que ele no est muito contente com voc por t-lo esquecido l na casa da... por t-lo esquecido - completou Theodoro.

- Ainda bem que voc o convenceu a vir, mas, por favor, no conte a ele que eu nem me lembrava que ele no estava comigo - disse com um sorriso de canto de boca.

Nesse momento, Emily no estava mais na sala. No sei dizer quando exatamente ela saiu e para onde foi, mas o fato  que ramos s ns dois, Dilin e os gatos.

- Trouxe um presente de Natal - e Tho estendeu a mo com uma caixinha embrulhada com folha sulfite. - Desculpe, eu no tinha papel de embrulho e no sou muito bom com essas coisas.

A verdade era que ele no precisava ter feito nada. Desde o momento que eu o vi naquela sala, sabia que no havia nenhum problema que nos impediria de ficar juntos. Mas abrir o presente foi inesquecvel.

- Eu achei que voc deveria treinar um pouco o ingls, mas como seu antigo professor era muito ruim, vou te dar umas aulas.

E l estavam vrios marshmallows pequeninos que formavam na caixa a frase I love you.

Tho se aproximou, pegou um dos marshmallows e colocou no meu nariz, segurando o doce.

- Deixe-me ver se esse nariz  melhor do que aquele de brigadeiro? - e ento mordeu a pontinha. - Na verdade, acho que seu nariz  bom com qualquer doce. Mas, por favor, no conte isso para mais ningum - e ento me deu um beijo na ponta do nariz, outros nas bochechas, na testa e no pescoo, at chegar  boca em um beijo quente, demorado e apaixonado.

Com as lgrimas rolando pelo meu rosto, percebi que Tho tambm chorava quando comeou a cantar a msica que marcou nossa viagem para Memphis.

Oh, let our love survive, oh, dry the tears from your eyes, enquanto eu traduzia, como no dia em que cantamos as msicas de Elvis: Oh, deixe nosso amor sobreviver, oh, enxugue as lgrimas de seus olhos. Tho continuava a cantar, com um microfone improvisado com uma colher: Were caught in a trap, I cant walk out, because I love you too much, baby.

Tho me pegou no colo, girou-me e me colocou sentada na mesa ao lado de Dilin. Depois de mais um beijo, percebemos que a cmera do notebook continuava ligada e que toda a minha famlia havia acabado de assistir a um show.

Foi quando eu ouvi um barulho vindo da porta.



Atlanta


Atlanta  a capital da Georgia e uma das cidades
 com maior crescimento populacional e econmico dos
 Estados Unidos. Nasceu com o nome de Terminus, em
 1837, foi destruda durante a guerra civil do pas, em
 1864 e recebeu os jogos olmpicos de vero em 1996.
 A cidade possui o maior aqurio indoor do mundo.

Tudo o que  ex no  bom.

Ex-chefe no  exatamente uma boa descrio para algum que foi seu chefe, porque provavelmente ex-chefe  apenas aquela pessoa carrancuda, chata, irritante e de quem voc falava mal com os colegas no horrio de almoo (j que ele nunca era convidado). Se um chefe foi bom um dia para voc, ele ser descrito como Fulano de tal, lembra? Trabalhei com ele, foi meu chefe. Foi meu chefe, e no  meu ex-chefe.

Ex-amigo no demanda comentrios, mas ex-namorado  o pior.

Porque se um ex-namorado  to amigo, ele  simplesmente amigo (talvez um caso raro que merea ser estudado por pesquisadores); caso contrrio,  apenas ex-namorado. Com toda a carga negativa que a partcula ex carrega.

Se uma pessoa sente saudade de ex-namorado,  porque quem terminou foi ele. Ou voc terminou porque ele merecia - o que faz que a saudade seja um misto de raiva que, muitas vezes,  bem maior. Provavelmente voc no vai desejar o sucesso dele. No sem que antes ele veja o seu sucesso. E, se possvel, que ele tenha uma vida mediana.

No  maldade. Faz parte da vida seguirmos, crescemos e deixarmos para trs o que no nos fez bem.  o resultado do amadurecimento. E quando estivermos maduros o suficiente para no desejarmos mais uma vida mediana para o ex-namorado,  porque no desejaremos absolutamente nada. A indiferena  a colao de grau da vida com o ex.

E era ele quem estava na minha porta naquele dia. Na porta de Emily, na verdade.

Alan entrou cantando Jingle Bells em ingls perfeito, com gorro de Papai Noel e uma garrafa de vinho na mo direita. Caio veio logo atrs, com o mesmo gorro e quatro taas, duas em cada mo (para quem seria a quarta taa, para a vizinha Emily?). Quando notaram que eu no estava sozinha, pararam a msica.

- Ah, no! - exclamou Caio.

- O que ele est fazendo aqui? - questionou Alan, como se tivesse algum direito sobre a minha vida. Mais um ponto negativo para ex-namorados. Eles quase sempre acham que tm algum direito sobre a vida da ex-namorada. Alan foi uma pessoa ausente e que pouco me ensinou. Mesmo assim, reivindicava um certo direito a algo que nem eu sabia explicar o que era.

- Ele est comigo. Eu  que pergunto: o que voc est fazendo aqui? Veio trazer uma garrafa de vinho de presente de Natal? timo, eu aceito. Deixe na mesa e v embora, por favor.

Caio olhava para Tho com um alerta invisvel de culpa, enquanto Alan deixava a garrafa em cima da mesa e Emily voltava do quarto depois de ouvir o barulho dos visitantes no convidados.

Quando estvamos todos na sala e Alan e Caio se dirigiam  porta, quem entrou com pressa foi Viviane. Tinha um papel nas mos e entrou falando, como se na sala s estivesse Tho.

- Leia esta matria.  sua queridinha com aquele Cristiano, ex-chefe dela.

Ex-chefe, sinnimo de problema.

- Viviane, ns j conversamos... - disse Tho, com o tom de voz baixo e tentando acalm-la.

- Mas voc precisa ler essa matria. Veja, aqui diz assim... Espera, vou encontrar... Eles falam que um tal prmio que o jornal ganhou era de Cristiano, mas que Melissa tomou o prmio dele... Quer dizer, parece que ela ficou com um premiozinho a que no era dela - disse, tentando encontrar uma frase no texto. - Ahhhh, aqui! Cristiano Villas-Boas, vice-presidente da empresa jornalstica, afirma que foi vtima de Melissa Moya, ex-reprter do jornal. Melissa e eu escrevemos essa matria juntos na poca em que ramos namorados. Confiei nela, mas fui roubado, disse o empresrio, que alega que o prmio pertencia, de fato,  empresa. Devolvemos o prmio por ordem da justia e sempre estaremos  disposio para esclarecer os fatos e provar a verdade, completou Villas-Boas.

Que ridculo.

Eu, namorada de Cristiano? Ele parece ter tomado uma bebida muito forte antes de dar a entrevista.

Segundo, vice-presidente da empresa? Quando? Onde? Sara Lara parecia realmente influente.

Terceiro, ele foi roubado? Mentiroso. S pensei em process-lo mais uma vez, se eu tivesse pacincia para isso.

E, por ltimo, que trecho mal escrito! No  todo mundo que pode ser jornalista mesmo.

- Ah, ento voc quer voltar com esse cara? - disse Caio para Viviane.

- Cac, no me atrapalhe - respondeu ela, nervosa.

- Cac? Que Cac? - exclamou Tho. - Quer saber, no me interessa se ele  seu Cac.

- Quanta palhaada - disse Alan, que se dirigiu  porta, acompanhado por Caio.

Emily parecia perdida no meio do tiroteio verbal e eu no sabia se devia dizer alguma coisa ou ficar quieta.

- Quanta mentira, Viviane... - foi s o que eu consegui dizer, com voz baixa.

Viviane saiu atrs de Caio murmurando algumas palavras e Tho seguiu a ex-namorada.

Parecia um pesadelo. E no estava no fim.




- Era ela, era ela! - disse Emily quando todos saram do apartamento.

- Era ela, sim, Emi. A ex-namorada de Tho.

- No.

- Sim!

- Era ela, a ex-amante do Gustavo.




No fazia a menor diferena saber que Viviane era ainda pior do que eu imaginava. Como eu pude pensar, um dia, que era Tho quem a traa? Tudo por cime. E ainda com minha melhor amiga, quando eu ainda no sabia que o amor de sua vida era, na verdade, meu irmo. Naquele momento eu percebia que, mesmo se Tho no quisesse nada comigo, eu estava feliz por t-lo livrado daquela mentirosa. Pelo menos era o que eu esperava: que ele no tivesse ido atrs dela para reatar o namoro ou pedir explicaes sobre o ocorrido no apartamento de Emily. Porque ela era uma crpula, mas to linda!

Nos minutos seguintes ao episdio de novela mexicana, despedi-me dos meus pais, Sam, Michel e tia Clara, que estavam na cmera do notebook. Lembrei-me mais uma vez de seu ditado: de que quando planejamos algo, Deus pode rir. Pela primeira vez eu no sabia o que fazer. Primeiro havia planejado voltar para o Brasil, mas quando Theodoro entrou com Dilin para passar o Natal comigo, eu seria capaz de mudar os planos em um segundo. No havia mais nada que me segurasse em nenhum lugar. E por alguns minutos eu me senti sem orientao, como um carro em uma estrada desconhecida e sem placas.

Desligamos o computador e Emily comeou a recolher os pratos da mesa.

- O que voc est fazendo? Ns ainda no tivemos a nossa ceia completa. Vamos partir o bolo de nozes e comemorar nosso Natal - disse.

- Mas voc no est...

- Triste? Estou. Muito triste. Queria Tho aqui comigo. Quero Tho aqui comigo. Mas se ele no est, o que eu posso fazer, Emi? Preciso de algum que acredite em mim, que confie na minha palavra, que no desconfie no primeiro instante que eu possa ter feito algo que eu nunca faria.

- Vamos brindar?

-  realizao dos sonhos! - levantei a taa. -  realizao de todos os nossos sonhos e ao amor.

-  realizao dos nossos sonhos e ao nosso amor - enfatizou Tho, na porta, quando entrava com sua mochila e um pesado casaco nas mos. - Emily, o apartamento tem espao para mais um? Na verdade, eu no me importo de dormir com o Ozzy e prometo no atrapalhar.

Sorri, e ele largou as bagagens e correu em minha direo. Ergueu-me em p e, quando me abaixou, beijou meu nariz.

- Voc no achou que eu deixaria de comer esse bolo de nozes de que voc tanto fala, no ? - disse Tho, com um sorriso to lindo quanto no dia em que me fez uma surpresa e me acordou em Mason. De repente, ficou srio. - Mel, nunca duvidei da sua palavra. Se eu me afastei por um tempo, e por pouco tempo,  porque precisava colocar minha cabea no lugar. Quando cheguei aqui esta noite, sabia que queria ficar. Eu vim para ficar. No tinha ideia de que Viviane chegaria com aquela mentira estpida. S voltei para buscar minha mochila. - E ento se virou para Emily. - Desculpe pelo constrangimento esta noite. - Mas Emi mexeu as mos e s respondeu No problem.

- Ento vamos celebrar. Happy Christmas, my friends! - disse Emily.

- Feliz Natal, minha amiga!

Theodoro ficou conosco, porm, no dormimos. Eu, ele e Emily passamos a madrugada conversando sobre o Natal nos Estados Unidos e no Brasil, lembrando das festas em famlia, e depois tiramos fotos para no esquecer daquele momento, embora eu soubesse que ele nunca mais sairia da minha memria.

Jogamos Stop, brincadeira da minha infncia que consistia em escrever palavras com a letra inicial escolhida. Se a rodada pedia letra M e, por exemplo, uma fruta, poderia ser morango, melo, melancia e assim por diante, com outros itens que escolhemos previamente. Quem terminasse a lista de palavras com a letra da rodada gritava Stop. O jogo ficou ainda mais engraado porque Emily escrevia as palavras em ingls e eu e Tho em portugus. Vez ou outra, Emi arriscava no nosso idioma e ns improvisvamos no ingls.

- Emi, voc est nos enganando, essa palavra no existe em ingls... ou existe? - e ramos sucessivas vezes, como quando Theodoro inventou um nome de carro e garantiu que ele existia no Brasil. Era uma grande brincadeira, e no fim acabamos confessando nossas invenes. O menos importante era ganhar.

Houve um momento em que Tho insistiu que brincssemos com a letra O e ficou por ltimo na contagem de pontos. Em cidade, eu e Emi escrevemos Orlando. Em sua vez, ele me mostrou sua planilha e me perguntou:

- Veja se voc concorda com minha resposta.

E l estava a pergunta: Voc quer ir comigo para Orlando?

E como boa aprendiz do ingls, logo respondi: OH MY GOD! S Deus mesmo podia conhecer a alegria que eu senti naquele momento. Olhei para Tho e disse:

- Sim, sim, sim!

- O que foi que ele respondeu, Mel? - perguntou Emi.

- Ns vamos para Orlando! -contei, ainda sem saber qual era o plano. Na verdade, demoraria um pouco para eu descobrir qual era o verdadeiro plano.

O jogo acabou naquele momento e comeamos a planejar a viagem. Emily, que j havia estado na Flrida por trs vezes, contou sobre os parques do Walt Disney World e dos Universal Studios e nos orientou sobre os ingressos e passeios. Ns a convidamos para ir conosco, mas ela explicou que comearia os ensaios para uma nova pea naquela semana e que no poderia viajar naquele momento, j que em poucos dias viajaria para ver os pais. Tive certeza de que ela disse aquilo apenas para nos deixar sozinhos.

Entramos na internet, programamos a viagem e decidimos que precisaramos de apenas um dia de descanso em Mason. Arrumaramos nossas coisas e partiramos no dia seguinte. Faramos uma parada em Atlanta, depois de cerca de oito horas de viagem.

- Atlanta  uma cidade muito bonita.  noite, suas luzes encantam os olhos, e gosto do Parque Piedmont. Eu j fui l com.... um amigo do passado - disse Emi, mas sem a tristeza que carregava antes quando lembrava de Gustavo. De repente, resolveu continuar, com bom humor. - Na verdade, eu estive l com meu ex-marido e, mesmo com a companhia ruim, a viagem foi tima - disse rindo. E todos comeamos a rir. Era a primeira vez que eu via Emily se lembrando do passado com leveza e sem rancor.

Afinal, passado todos ns temos. O que difere uma pessoa da outra  como lidamos com ele. Podemos manter algumas boas memrias e fazer das ruins um aprendizado. Ou uma boa piada.

- Para vocs que gostam de animais, Atlanta possui o maior aqurio indoor do mundo, dentro de um lugar fechado, sabem? - explicava Emily. - Pelo menos  o que me disseram quando fui ao Georgia Aquarium. Ozzy certamente gostaria de ir l - brincou minha amiga, referindo-se ao gato.

Continuamos falando sobre Atlanta e passamos o dia seguinte inteiro dormindo. Tho dormiu no sof da sala e eu acordei depois das trs horas da tarde. Comemos o que havia sobrado da ceia e deitamos no cho da sala para ver televiso. Lembrei-me de quando assisti ao primeiro filme em ingls e sem legendas na presena de Alan, mas logo adormeci e sonhei com Tho.

 noite, arrumamos as malas, e Emi nos convidou para jantar em um restaurante prximo ao condomnio, ainda em Mason. O sistema era coma-tudo-o-que-puder-at-cair, e nos fartamos com o caranguejo do Alasca, chamado King Crab. Nunca havia visto um to grande. Tho tirou muitas fotos de mim e Emily, depois ela tirou fotos de ns dois juntos e eu tirei algumas fotos dos dois. Pedi a um garom que tirasse fotos de ns trs juntos e, quando vi a imagem na cmera, comecei a chorar.

- Sentirei saudade, Emi!

- Essa  a palavra mais bonita no idioma seu - disse com o sotaque de que eu tanto gostava. - Saudade no tem traduo, amiga. Mas eu sei o que  e sei que vou sentir. Obrigada por ter mudado a minha vida para melhor - disse ela, com os olhos vermelhos.

Partimos cedo na manh seguinte e deixei um brigadeiro em cima da mesa com um post-it: Obrigada por tudo, minha amiga! Cuide bem de Gil!. Na bolsa, levava seu endereo e e-mail. No corao, a promessa de que nos encontraramos em breve em algum lugar do mundo.

Paramos em Atlanta e curtimos a noite na cidade. No dia seguinte, seguimos para Orlando. Tho me explicou que os planos eram passar uns dias na Flrida, depois entregaramos o carro e voltaramos para o Brasil. Por esse motivo, levamos todas as nossas bagagens. Theodoro havia informado  agncia que meus planos de voltar para o Brasil tinham sido mudados. No havia mais nada em Mason quase seis meses depois de minha chegada. No me despedi de Alan, e Tho tambm no falou novamente com Viviane.

Levamos Ozzy conosco e chegamos  noite, no dia seguinte  parada em Atlanta, a Kissimmee, uma cidade a menos de meia hora de carro de Orlando. Paramos em um hotel l por ser mais barato. Jantamos em um diner, uma espcie de restaurante que parece uma casa mvel. O local ficava aberto 24 horas e ali planejamos nosso prximo dia.

Andamos de mos dadas at o hotel e, quando chegamos, tomei um banho e deitei em uma das camas de solteiro do quarto. Tho pediu que eu o esperasse, porque queria dormir abraado comigo aquela noite. Eu garanti que no fugiria.

No fugi, mas fingi que dormia quando ele entrou no quarto. Tho me cobriu, deu um beijo em minha testa, apagou as luzes e deitou na cama ao lado.



Orlando


Localizada na regio central do estado da Flrida,
 Orlando  famosa pelas atraes tursticas: parques que
 encantam crianas e adultos de todo o mundo, mesmo
 aqueles que nunca os visitaram.  l que esto Walt
 Disney World, Universal Studios e Sea World. A regio
 recebe em mdia 50 milhes de turistas por ano.

Quando acordei, estava me sentindo com 15 anos novamente. Era como se tivesse voltado no tempo e dali a poucos minutos realizaria meu sonho. Eu no era mais adolescente, mas o sonho iria virar realidade. O que faltava, ento? Continuar sonhando, pensei.

- Acordeeeeee! - gritei na orelha de Tho logo pela manh.

- Mel? Mas que horas so? - perguntou, esfregando os olhos e tentando alcanar o relgio no criado-mudo ao lado de sua cama. - Melzinha, so oito horas da manh. O que deu em voc? - e sorriu.

- No podemos perder um segundo do dia, Tho. Vamos, por favor? - pedi com biquinho e voz de criana.

- Voc poderia, pelo menos, ter me acordado de forma mais romntica, no acha? - e fez ccegas em minha barriga.

- T bom, t bom, ento finja que est dormindo, seno s amanh ter seu bom-dia romntico.

- Roooonc - e ns dois comeamos a rir. Dei-lhe um beijo no nariz e, quando ele abriu os olhos, eu disse Bom dia, meu prncipe!. Nessa hora, Ozzy subiu na cama e comeou a ronronar. Escolhemos aquele hotel justamente porque aceitava animais e com a condio de que ningum entraria ali. Nem mesmo algum para limpar. Como eram apenas alguns dias, ns mesmos arrumaramos nossa cama e cuidaramos para que nada acontecesse de errado com o gato mais sortudo dos Estados Unidos. O gato que teria, em breve, dupla cidadania.

Theodoro se trocou e samos para o Sea World. Primeiro assistimos ao show dos lees marinhos, depois dos golfinhos e, por ltimo, visitamos a famosa baleia Shamu. Eis que Saint Peter (o controlador do tempo da jurisdio norte-americana) manda uma chuva e acaba com a festa. Sem show no momento, fomos andar pelo parque e ver outras atraes. Vimos tubares, pinguins, uma espcie de berrio para golfinhos, aves lindas, arraias e, por fim, tartarugas velhinhas. Quando criana, achava que as tartarugas eram sempre idosas. No havia tartarugas jovens na minha imaginao.

Em todos os dias, desde esse primeiro, almovamos um lanche no parque e jantvamos no diner prximo ao hotel. Comida boa, barata e rpida, porque s precisvamos de banho e cama no final da noite.

Para mim, uma cama de solteiro.

Tho era generoso durante todo o dia, cedendo os melhores lugares e os maiores pedaos de doce. Andvamos de mos dadas, parvamos na frente dos cenrios mais bonitos para tirar fotos e a cada dia eu percebia que era possvel amar uma pessoa ainda mais que no dia anterior.

Porm, mais uma vez, dormi antes que ele pudesse me dar boa-noite.

No dia 29 de dezembro, visitamos os Universal Studios. Lembrei de Samantha e do quanto minha amiga atriz gostaria de estar l. Foi nesse dia em que Sam, que sempre parecia adivinhar meus pensamentos, telefonou para me dar uma notcia.

- Mel, voc se lembra do namorado da Caroline, o Lauro?

- Amigo do Michel? Sim, eu me lembro inclusive de quando eles se conheceram na minha festa de aniversrio. Mas o que aconteceu?

- Ele  produtor de TV. E me convidou para fazer um teste para uma novela!

Eu no conseguia dizer nada porque estava to feliz por ela! E com uma pergunta que me preocupava.

- No precisa se preocupar. Sei que est pensando na minha barriga, no ?

- Mas eu no disse nada, Sam...

- Ele precisa de uma grvida! Tudo bem, eu sei que hoje em dia eles tm barrigas de mentira, mas o Lauro comentou que eles querem uma atriz que esteja grvida para fazer as cenas da gravidez mais reais, e que as gravaes comeam em duas semanas. Se eu passar no teste, claro.

- Voc vai passar, Sam. Tem alguma dvida? Confio em voc, minha amiga. Quem sabe um dia voc no contracene com o Rodrigo Santoro? Aiiiiii - e dei um gritinho, enquanto Tho me olhava e fazia crculos com o dedo indicador em volta da cabea. Eu estava muito feliz por Samantha. Ns duas estvamos realizando nossos sonhos. Desejei boa sorte e depois contei tudo a Tho.

Nesse dia Theodoro tomou banho primeiro e, quando entrei no quarto, ele estava dormindo. Deitei ao seu lado e dormi em sua cama.

No dia 30 acordei com a sensao de que meus ps no estavam comigo. Eu no tinha mais ps! Foi o que eu falei para Tho, que comeou a rir da minha situao. Levantou-se e foi para o outro lado da cama. Comeou a massagem pelo p direito e, depois de 10 minutos, eu j queria agarr-lo. Continuou a massagem no p esquerdo e senti no somente os ps mais vivos como todo o meu corpo. Olhei para ele, que sorriu e saiu da cama antes que eu dissesse uma palavra.

O que acontecia entre ns era especial e eu no precisava explicar o que sentia. Ele sabia.

- Me conta, est namorando? - perguntou Brbara, minha
 ex-colega do jornal, quando me telefonou naquele dia. Ns j estvamos no Epcot Center e passevamos pela exposio dos pases: Canad, Inglaterra, Frana, Marrocos, Japo, Estados Unidos, Itlia, Alemanha, China, Noruega e Mxico, na ordem que seguimos.

- Eu no sei, Brbara! - respondi com sinceridade. Nessa hora, Tho comprava um algodo-doce para mim e acenou de longe, apontando para o doce azul e rosa. Quando chegou no rosa, fiz sinal de positivo. Era aquele que eu queria.

- Mel, pergunte! - insistiu.

- No preciso saber. O que estou vivendo com ele  muito melhor do que qualquer rtulo, Brbara.

Mas ela no entendia. Nem eu mesma entendia. No havia necessidade de perguntar se estvamos namorando, porque se aquilo no era namoro, o que seria? E o meu relacionamento conturbado com Alan, que apesar do charme e da beleza fazia eu me sentir mal por tudo? O pior  saber que muitas mulheres aceitam relacionamentos assim porque acreditam que esse padro  correto e que s isso pode faz-las feliz.

Eu tambm j acreditei nessa mentira. Mas desde o primeiro beijo com Tho, percebi que amar era aquela sensao de paz e bem-estar. Houve um momento, antes de a minha vida mudar, que eu achava que o amor poderia ser uma montanha-russa, que ora nos mantm l em cima e nos faz acreditar que o namoro  perfeito, ora vai muito abaixo do que gostaramos e nos faz sentir que no valemos nada. No momento em que estamos no alto, a sensao  a melhor possvel. Algum nos colocou l. Mas essa
 euforia no vale nada, porque nos esquecemos de que, quando estamos l embaixo, nos sentimos como as piores pessoas do mundo.

Amar, naquele momento, me parecia o brinquedo calmo da montanha encantada de que eu tanto gostava quando era criana. Um barco em guas calmas, mas com pequenas surpresas a cada passagem. Eu me recordo de ficar de olhos abertos e admirada com o colorido dos cenrios e a beleza dos personagens. Havia, de vez em quando, um sacolejo no barco, mas ele nunca nos derrubava. E era como o sentimento nascia em mim: um amor que me fazia sentir bem e que, se balanasse como o barco, no me faria cair. Um amor de paz. O que devia ser um amor de verdade.

- Mel, posso aproveitar a ligao e te pedir para trazer um creminho? - e me fez uma lista com cinco itens, entre cremes e maquiagens, que eu prometi ver se conseguiria levar para o Brasil.

Senti falta de um espao brasileiro no Epcot Center, mas, ao conhecer todos aqueles pases, tive ainda mais vontade de viajar pelo mundo.

Naquela noite, no precisei fingir que dormia e no encontrei Tho dormindo. Depois de longos beijos e de conversarmos por duas horas sobre nossas famlias, adormecemos abraados em minha cama.

O dia nasceu com a esperana do ltimo dia do ano. Era 31 de dezembro e nosso ltimo passeio em Orlando: Magic Kingdom, o parque do Mickey e da Minnie! Acordei ainda mais eufrica que no primeiro dia. Aquele era o parque que eu mais queria visitar, mas, por causa da programao feita por Tho, ele havia ficado para o ltimo dia. Theodoro queria passar o rveillon no parque e comentou que eu adoraria ver os fogos no castelo da Cinderela.

Quando entrei no parque, procurei o castelo. Em seguida, comeou um show com os personagens da Disney. Meus olhos brilhavam, tirei fotos compulsivamente, filmei a historinha e ainda corri para tirar foto com a Minnie logo aps o show. Todos os anos que eu esperei para ver tudo aquilo estavam l, diante dos meus olhos. Agradeci por no ter ido quando tinha 15 anos, porque imaginava que em nenhum outro momento da minha vida eu sentiria a emoo que estava sentindo naquele momento. E com Tho ao meu lado.

Fomos a muitos brinquedos, tiramos fotos com personagens e quando eram cinco horas da tarde Tho disse que iria comprar um lanche e voltaria logo. Enquanto esperava, entrei na internet pelo celular e mandei um e-mail para meus pais, meu irmo e meus amigos. Fiz uma listinha de Mickeys que eu compraria e os primeiros seriam do meu irmozinho e do meu sobrinho. Ou seria uma irmzinha e uma sobrinha?

Cinco e quinze e nada de Tho chegar. Comecei a ficar preocupada e lembrei que havia me esquecido de perguntar onde ele iria comprar nosso lanche. Que memria a minha! Eu s me lembro das coisas quando j as esqueci.

Cinco e trinta e tive certeza de que algo estava errado. J havia telefonado trs vezes para o seu celular e ele no me respondia. Andava de um lado para o outro, com medo de sair do local combinado e ele aparecer. Ao mesmo tempo, sabia que deveria procur-lo pelo parque. Talvez anunci-lo, como em um shopping? Mas no foi preciso. Quando comecei a andar, e parece que estavam me espionando para saber quando eu andaria, fui parada por um Pato Donald.

- Qu, qu, qu - dizia o pato, com voz de pato (e em ingls, o que colaborou para que eu no entendesse nada).

- Senhor pato... Mister Donald... - e comecei a rir, quando percebi que estava falando com um personagem. - I love you! - disse e o abracei. O pato comeou a fazer gracinhas e, depois de alguns passos de sapateado (algumas crianas pararam para ver nesse momento), Donald me entregou um papel e foi embora.

Prezada Bela,

No se preocupe, ele est bem e est conosco. Siga as instrues que as cartas traro. No tenha medo, eles sabem onde voc est. Todos sabemos onde voc est.

Donald


O qu?

Era uma piada?

Melissa Moya, pense. Pense. Pense. Bom, a carta est em portugus - eu divagava em voz alta, j que poucas pessoas me entenderiam -, o que prova que quem a escreveu sabe que eu sou eu mesma, mesmo que tenha me chamado de Bela. Sabem onde est Tho e pediram que eu seguisse as instrues da carta. Seria uma brincadeira de Emily? No, ela no estava em Orlando, porque no dia anterior havia me enviado uma foto de Gil em seu apartamento. S podia ser Tho. Mas o que ele pretendia com aquilo?

Decidi desafiar Theodoro e seus amigos que o estavam ajudando. Continuei andando em direo  casa do Mickey quando Pateta cruzou o meu caminho, derrapou e provocou risos em todos que estavam nas proximidades. Uma nova roda se formou em volta do co atrapalhado, que continuou fazendo gracinhas e acrobacias. Tirou o chapeuzinho verde e, de dentro, uma carta, que me entregou. Saiu de l seguido por crianas que o abraavam e tiravam fotos. Alguns adultos me olhavam curiosos para saber o que havia na carta e entender o que estava acontecendo.


Querida Bela,

O baile est para comear, e voc no pode se atrasar. V at a Space Mountain e aguarde que nossa amiga ir conduzi-la ao local correto. Ela a aguardar s 18h.

Pateta


Estava perdida. Onde era mesmo a montanha-russa no escuro? Corri pelo parque at encontrar. Cheguei ao local s 17h55. O que estava acontecendo eu ainda no sabia, mas me divertia como poucas vezes. Quem seria ela? Olhei para todos os lados com receio. Eu sabia que Tho estava aprontando, mas no entendia como ele havia conseguido fazer que os personagens participassem daquela loucura.

Branca de Neve chegou to linda que eu quase chorei. Parecia uma criana. Ela danou em volta de mim e depois me entregou uma ma com um bilhete amarrado com um lao. Enquanto lia a carta, Branca de Neve sumia no meio da multido de crianas.


Minha princesa,

Siga a Sininho. Depois que estiver com seu vestido de festa, procure-me. Eu estarei l.

Prncipe


E quando acabei de ler a carta, vi Sininho passando perto de mim. Algumas crianas a seguiam, e ela aguardou que eu a seguisse tambm. Danou, mandou beijinhos para o pblico e continuou andando como se voasse pelo parque. Eu a segui sem saber por onde estava andando. J no me lembrava mais da geografia do parque e parei em um local que eu no tenho a menor ideia de onde era. Quando Sininho se despediu do pblico, fiquei parada. O que eu deveria fazer? Foi quando ela apontou para mim e pediu que eu a seguisse. Todos bateram palmas, e eu sumi em uma rea reservada para os artistas.




Eram 19 horas, e o cu estava escuro. O inverno do hemisfrio norte era o responsvel pela noite adiantada. Eu usava um vestido amarelo que caa sobre os ombros, com a cintura marcada e babados na saia em formato de bolo. Colocaram-me luvas amarelas at os cotovelos e um par de brincos grandes e dourados, que formavam conjunto com o colar. O cabelo estava preso em um coque antigo, mas caa o restante sobre os ombros e havia uma coroa no topo da cabea.

Eu me sentia magnfica e ridcula ao mesmo tempo.

Desde que no pude ter uma festa de 15 anos, comecei a pensar que tudo aquilo era brega. Sabia que era desdm e que, no fundo, sempre quis uma festa com vestido rodado, amigas segurando uma vela e vrios garotos bonitos para danar com todas elas. Se eu tivesse de escolher, como minha me sempre me disse, preferia viajar. Mas como nenhum dos desejos foi realizado, fiquei frustrada e sempre pensei que deveria ter feito uma festa.

Mas nunca, em mil anos, eu me vestiria em s conscincia com aquela roupa.

E estava adorando!

Depois de pronta, conduziram-me por vrias passagens que eu no sabia para quais lugares me levariam. Vi vrias pessoas vestidas com roupas de personagens e no me senti deslocada. Ao meu lado estava a Bela Adormecida e a Jasmine. Os prncipes eram todos muito parecidos. Imaginei que Theodoro estaria ali, entre eles. Procurei, mas no encontrei. De repente, fui jogada em um carro alegrico inteiro iluminado e que flutuava sobre um lago. Uma msica tocava no fundo, e a Fera apareceu.

Eu estava no filme da minha vida. Diante de mim, um personagem fantasiado de Fera pediu minha mo para danarmos. Percebi que uma luz nos acompanhava. O carro era enfeitado com luzes em forma de flores e candelabros nos quatro cantos. Lembrei-me, ento, da histria da Bela e da Fera, a minha preferida desde a infncia.

Instintivamente, segui os passos propostos pela Fera. Procurei Tho no carro ao lado e na plateia. Ele havia armado tudo aquilo, e eu sabia que estava me observando. A msica tocava de acordo com a passagem de cada carro. Tudo era rpido, mas parecia uma eternidade. Encostei-me  grade do carro e olhei para o pblico, que batia palmas e filmava tudo. Por trs, em um abrao, fui envolvida pela Fera e tive certeza de que era ele. Como na noite em que me ajudou a fazer brigadeiro. Na noite em que descobri o seu beijo.

Virei o corpo e sorri. Ele me tirou para danar e eu aceitei. Fez uma reverncia e se abaixou e eu segurei o vestido com as duas mos e dobrei levemente o joelho em um cumprimento. Tudo aquilo parecia natural e agradeci no ser tmida e ter feito aulas de teatro com Sam quando estvamos na escola.

Ento ele me girou. Olhei para a mscara de Fera, to perfeita. To assustadoramente dcil. Ele me segurou com as duas mos e me rodava enquanto eu observava os detalhes de seu palet azul com gola amarela. Ele me girava e me guiava. Eu s danava seguindo seus passos e sorria tanto quanto acreditava que uma pessoa pode sorrir durante toda uma vida.

Enquanto nosso carro passava, percebia que alguns outros carros passavam por ns, por trs e pela frente, e que em breves segundos nos encontrvamos. Atrs, as fontes completavam o cenrio com um show de luzes coloridas.

Quando chegamos  metade do trajeto, ele tirou a mscara. E ali estava meu Tho. Com aquele sorriso do elevador. Eu me senti uma pequena criana quando notei que algumas lgrimas caam de meus olhos. Ento ele comeou a cantar a msica tema dos personagens, Beauty and The Beast, a mesma que tocava em volume alto no carro para que todos escutassem quando passssemos, na voz de Celine Dion e Peabo Bryson.


Tale as old as time

True as it can be

Barely even friends

Then somebody bends

Unexpectedly

E mentalmente traduzi a nossa histria, quando Tho, o prncipe, me pegou pela cintura e me deu um beijo. O pblico aplaudiu.


Um conto to velho quanto o tempo

To verdadeiro quanto pode ser

Mal eram amigos

E ento algum se curva

Inesperadamente


 meia-noite, assistimos aos fogos que iluminaram o castelo da Cinderela em cores que eu nunca imaginei ver antes. Foram minutos de fantasia e sonhos. Voltamos para o hotel e no dormimos. Naquela noite, no havia desculpa que eu quisesse inventar. No havia pedido que ele precisasse fazer. Ns mudamos a nossa histria e acordamos abraados e sorrindo.



Daytona Beach


Daytona Beach, localizada no estado da Flrida,  a
 sede da Nascar e do principal circuito da Stock Car dos
 Estados Unidos. A cidade tambm oferece passeios de
 barco e caiaque, surfe, mergulho e parapente. As praias
 so muito apreciadas, e a temperatura mdia anual 
 amena, em torno de 21C.

Olhei para seu sorriso, dei-lhe um beijo rpido nos lbios, verifiquei o horrio e adormeci. No eram nem oito horas da manh e meus ps estavam ainda piores que no dia anterior. Quando acordei novamente, Tho estava sentado na cama com um livro nas mos. J eram quase 11 horas. Levantei os braos no alto em sinal de preguia, e ele me beijou a ponta do nariz. Olhei que o livro era, na verdade, um guia de viagem e pensei qual seria nosso prximo destino, j que eu sabia que faltavam poucos dias para nossa volta ao Brasil.

- Feliz Ano-Novo, minha gatinha - disse Tho. Era estranho e engraado ver o meu amigo me chamando por apelidos carinhosos e de que eu gostava.

- Happy New Year, my little cat! - respondi, em fiel traduo, o que provocou risos. O dia anterior ainda estava na minha memria e na minha pele, e eu acredito, ainda hoje, que no irei esquecer nunca aquelas cenas. - Como foi que voc preparou tudo aquilo, Tho, me conta?

E ento eu soube que mais uma vez Lcio havia entrado em ao, por intermdio de Michel. Como trabalhava na televiso, conhecia muitos artistas. Uma amiga sua, brasileira, que era formada em turismo e j havia trabalhado em navios, estava na Disney como bailarina. Trabalhava exatamente no Magic Kingdom. Foi essa bailarina, Camila, que ajudou Lcio a bolar um plano romntico e envolver outros funcionrios do parque. Camila no era qualquer funcionria. Era uma linda e inteligente moa que fazia que todas as pessoas se apaixonassem por ela. No foi difcil fazer um pedido formal e transformar o parque para Tho.

A ideia dos bilhetes foi a primeira, mas ele queria algo mais. Perguntou se eu poderia usar uma roupa de princesa e somente depois de horas de conversa pelo Skype com Camila ela teve a ideia de coloc-lo como prncipe, ao que ele retrucou. No sou prncipe, estou muito mais para a Fera, e ela gostou da brincadeira. Foi quando surgiu o plano completo. Eu quis saber quando ele comeou a planejar tudo e lembrei-me das semanas em que no nos falamos antes do Natal.

- E esse guia de viagem vai nos ajudar a voltar para o Brasil?

- Primeiro vamos fazer um passeio. No hoje, porque vamos descansar e pensei em passar o dia inteiro com voc aqui no quarto, o que acha? - e me olhou com um jeito sexy e engraado ao mesmo tempo. - Amanh viajamos para a praia.

- No vou perguntar mais nada. Depois de ontem, confio inteiramente em suas escolhas.

A viagem no dia seguinte durou cerca de uma hora e logo pela manh chegamos a Daytona Beach, uma das praias mais famosas da regio. Era uma tima opo de viagem, mesmo com o inverno. Principalmente porque desde que havamos chegado  Flrida no usava mais tantos casacos como em Ohio. A temperatura naquele estado era, de fato, bem mais alta. Talvez por isso os brasileiros gostem tanto de Miami, que fica ainda mais ao sul, mas Mason tinha um sentido de casa que poucos lugares tiveram para mim. E l na praia o clima estava especialmente quente.

Fiquei feliz por conhecermos mais uma cidade. Passeamos pela praia e paramos em um pequeno shopping. Almoamos, fomos ao cinema e resolvemos ali que voltaramos no dia seguinte pela manh.

E ento conhecemos a sapolndia.

No eram alguns sapos em um hotel. Era um pequeno hotel no meio de uma cidade de sapos verdes e gosmentos. Era noite quando chegamos e contei 13 sapos esticados no vidro da recepo. Aquele devia ser mesmo um nmero de azar. Como eu entraria na recepo sem passar por eles? Pedi a Tho que fosse sozinho enquanto eu enviava um e-mail para meus pais pelo celular desejando Feliz Ano-Novo - uma tima desculpa, porque eu no tinha me lembrado de que era uma data especial e precisava, mesmo com atraso, mandar notcias.

Tho voltou com uma chave e fomos para o quarto. Foi ali que ele percebeu o meu truque de ficar no carro.

- Ahhhhhhhhh, saaaaaaapoooooooo! - gritei quando avistei um enorme verdo na porta de nosso quarto nmero 13. No sou supersticiosa, mas e se no fosse um bom sinal? - Tho, entre primeiro e veja se eu posso entrar.

- Voc acha que os sapos esto l dentro, Mel? - e quando ele me perguntou, senti-me ridcula e comecei a rir. Claro, os sapos no estariam l dentro porque as janelas ficavam fechadas, que absurdo! Entramos, deixamos nossa sacola em uma cama extra e percebi que tnhamos um quarto com cama de casal. E daquela vez eu no dividiria o colcho com o Dilin ou cinco travesseiros.

Tho estava no banheiro fazendo a barba quando comecei a arrumar a sacola com as poucas roupas que havamos levado para nosso passeio em Daytona Beach. Deixamos o restante no hotel em Orlando, porque nosso voo seria somente dali a uma semana. Procurava a minha camiseta de gatinho e meu short de dormir quando lembrei que naquela noite Ozzy ficaria sozinho em Orlando. Mas tudo estava sob controle, com muita comida, gua, sua cama e a garantia de que ningum entraria no quarto.

Os meus pensamentos foram interrompidos quando vi uma pequena caixa azul marinho. Uma caixa de jias. Meu corao acelerou e antecipou a bateria da escola de samba do Carnaval. O que era aquilo? Um anel? Para mim? O que ele pretendia com um anel para mim? No, no, no! Era muito cedo para uma loucura assim. E eu simplesmente no podia imaginar um anel de compromisso entrando no meu dedo...

Peguei a caixa para ver seu contedo quando ele olhou para mim. Ao lado da cama, com olhar penetrante e fixo. Quieto, mas marcando presena. Um sapo enorme.

- AHHHHHHHHH, SAAAAAAAPOOOOOOO! - gritei com muito mais fora que na primeira vez. E como ele estava dentro do quarto (percebi que a janela estava aberta, algum havia deixado a janela aberta!), eu no poderia ficar ali, ento s me restava uma alternativa: sair do quarto. Sem me lembrar,  claro, de que l fora estavam provavelmente todos os tios, tias e primos do sapo.

Sa correndo e gritando, com a caixa azul marinho em uma das mos e pulando amarelinha para desviar dos sapos que estavam na porta. Eram muitos, e eu me desesperei. No posso me sentir culpada, porque muitas pessoas teriam a mesma reao. Uma mistura de medo com nojo. No, era nojo. Por que eu teria medo? Eles no eram sapos modificados geneticamente com poderes especiais e que comiam carne humana, ento o nico problema seria me encostar em um deles. Ou pisar?

Ento um deles pulou. Quase um Diego Hyplito em um duplo mortal carpado, o verdinho se mostrou um ninja dos
 sapos. Meu susto fez que eu desse um berro ainda mais alto que os dois primeiros e levantasse as mos em sinal de rendio. A caixa azul marinho saiu voando pelos ares e caiu no meio de trs amigos verdes.

- SOOCOOORROOOO!!! - disse. Para minha sorte, em portugus, e s Tho veio me socorrer.

- Mel, o que aconteceu? - ele perguntou, segurando meus dois braos e olhando em meus olhos. Estava com metade do rosto com a barba feita e a outra metade com espuma de barbear. Tirei a espuma do seu rosto e comecei a rir, mas ainda olhando para os meus ps e com medo de que algum amigo verde subisse pelas minhas pernas. Ento Theodoro percebeu que eu tambm olhava em direo  caixa.

- Desculpe - disse a ele com a voz baixa. Ento ele se abaixou, pegou a caixa no meio dos sapos e eu continuei.

- No quero me casar, Tho... Quer dizer, eu amo voc, mas eu no estou preparada para isso agora. O que ns vivemos essa semana foi to especial para mim, de uma forma que voc no pode nem imaginar. E eu... eu s queria continuar assim... pode ser para sempre e... - Eu no tinha mais o que dizer. Nem como me explicar.

- Pelo menos tudo isso teve uma recompensa pra mim - disse Tho com aquele sorriso - Porque desde que eu te dei a caixa com os marshmallows e me declarei, esperava que voc pudesse dizer que me ama o quanto eu te amo, sua maluquinha.

E nos beijamos. No meio dos sapos, o que no era a locao mais romntica do mundo, mas era a mais inusitada, com certeza.

- Eu tambm no quero me casar. Quer dizer, eu quero, mas no agora - disse Tho com calma. Entregou-me a caixa e disse: - Voc  muito curiosa e bem criativa. No podia esperar at amanh? Eu planejava fazer um passeio lindo, mas tudo bem se voc prefere receber o seu presente de Ano-Novo no meio dos seus amigos. Eu juro que no me importo. - E ento mordi o lbio para evitar mais uma risada.

Quando abri a caixa, l estava o meu presente. Uma linda corrente de ouro com um pingente em forma de globo, como aquele que eu vi no apartamento de Tho em So Paulo. Dava para ver as divises dos continentes e havia um pequeno brilhante no Brasil, no Uruguai e nos Estados Unidos.

- Estes so os lugares em que voc esteve. A partir de agora, depois de cada pas que voc visitar, eu acrescentarei uma pedra para voc no se esquecer. Espero conhecer todos esses lugares com voc at que esse globo se transforme em um imenso pingente de brilhantes. Pode demorar um pouco, talvez a gente s consiga completar tudo quando formos bem velhinhos, mas eu quero fazer isso com voc - disse Tho enquanto colocava a corrente em meu pescoo.

- Mel, quer ser minha namorada?

Ento eu o abracei e sussurrei:

- Realizar o meu sonho com voc  melhor do que o prprio sonho. E eu j sou sua namorada!

Entramos no quarto e dormimos com uma sinfonia especial. Era a cantoria de assobios dos nossos amigos do lado de fora.




Voltamos para Orlando e Tho props visitarmos os outlets da regio. Qualquer brasileiro fica louco em um daqueles lugares! Resolvi comprar alguns presentinhos para a famlia e os amigos, mas desde que fossem pacotes pequenos e no lotassem a mala. A partir da prxima viagem eu viajaria somente de mochila, j havia decidido. E mesmo com espao no  fcil voltar carregada de uma viagem.

- Quase sempre as pessoas que recebem os presentes no do o menor valor, Mel. No se preocupe, voc vai entender quando chegarmos - avisou-me Tho.

- Mas eu tenho vontade de levar tudo. A cada momento eu me lembro de algum.

- A pessoa que receber esse broche que voc est levando talvez no tenha ideia do trabalho que teve para compr-lo. Voc o escolheu com a maior dedicao, pagou, procurou lugar em sua mala para lev-lo sem quebrar e todos os demais detalhes. As pessoas que vo gostar de verdade do presente sero aquelas que nem se importariam de no receber nada porque gostam demais de voc - continuou Tho.

- Mesmo assim, eu queria tanto compartilhar esses momentos com minha famlia que levar alguma coisa daqui  como levar um pedacinho da viagem para eles - tentei argumentar.

- Eu entendo, mas voc vai aprender que o melhor que se leva de uma viagem  o que se vive em uma viagem. Por que voc no tira uma foto no parque que visitaremos amanh com um cartaz com o nome de quem voc quer prestigiar? Eles vo ver que voc pensou em cada um naquele momento. Uma vez eu fiz isso com minha me e foi a surpresa de que ela mais gostou - contou.

- Ns vamos a um parque amanh?

- Vamos ao Universals Islands of Adventures para conhecer a atrao The Wizarding World of Harry Potter. O que acha?

Ento eu o abracei forte e beijei suas bochechas. Segui as dicas e tirei as fotos no parque. Imprimi no outro dia e levaria como a recordao mais especial daquela viagem.

Nos dias seguintes, Tho me lembrou de algo importante. Eu havia me esquecido de procurar informaes sobre os procedimentos para levar Ozzy para o Brasil. Como pude? Bom, esquecer era um verbo conhecido meu e a sorte foi saber que ele j estava ciente de tudo o que era necessrio fazer para levar meu gato para casa. Ele precisaria de atestado de sade internacional expedido por um veterinrio norte-americano e endossado pelo Departamento de Agricultura do pas. O veterinrio tambm iria declarar que as vacinas estavam em dia. Ns passaramos no Consulado do Brasil para um carimbo e havia uma taxa da companhia area para levar Ozzy. Sua viagem parecia mais cara do que a minha, mas eu jamais deixaria meu gato.

- Por que no fizemos isso l em Ohio?

- O documento tem validade, por isso deve ser retirado somente dias antes da viagem. Fique tranquila, est tudo bem.

O final da viagem foi especial como todo o tempo que passamos no pas. Comprei uma mquina de waffle (no imaginava mais caf da manh sem ele) e uma bolsa enorme, que mais parecia uma mala, para colocar as compras de ltima hora. Aquela seria minha mala de mo, em que tambm iriam os dois notebooks. E apesar de termos pensado em (quase) tudo, no momento do check-in  que percebi que algo estava errado. quela altura, eu j compreendia ingls e sabia falar, mas a atendente comeou a disparar um ingls rpido e eu no consegui acompanhar tudo. S que Ozzy no poderia ir comigo.

- Como assim? Mas os documentos dele esto aqui, no esto? Como ele no pode ir? Se ele no puder ir, eu no vou! - disse para a moa da companhia area, em portugus, como se ela fosse me entender.

- Calma, Mel. O Ozzy vai! - explicou Theodoro. - S que ele no vai na cabine,  isso. Eles tm um limite de animais por voo e parece que todo mundo resolveu trazer um co ou gato justo hoje.

- O meu gato vai ser despachado como uma mala? - perguntei indignada.

- No  bem assim. Eles tm um espao para os animais,  ventilado...

- O Ozzy j sofreu tanto nessa vida, deixe ele ficar comigo!

- Melissa, no faa drama - disse Tho, com um sorriso malicioso nos lbios. - Voc vai ver o Ozzy assim que chegarmos ao Brasil - e me deu um beijo na testa.

Foi assim que ele me convenceu.

A fila atrs com olhares bravos tambm colaborou bastante, eu admito.

Dormi pouco durante a viagem. Baixei as fotos no novo notebook, escrevi os relatos dos ltimos passeios para colocar no blog quando chegasse e completei minha nova planilha de pases para o ano que havia acabado de comear enquanto meu namorado dormia. Quando ele acordou, conversamos sobre os prximos dias no Brasil e ele me contou sobre seus pais, que estariam no aeroporto. Ele no falou muito sobre a famlia, mas percebi, pelas palavras, que no era to amigo do pai, e que sua me parecia ser uma de suas melhores amigas.

Chegamos  noite e todos estavam l. Eu deveria viajar mais vezes para ver uma cena linda como aquela com mais frequncia.

Na faixa, uma brincadeira: Seja bem-vindo, Ozzy. Assinado: Lady. E o desenho de dois gatos.

Primeiro abracei Samantha e mame juntas e dei beijos em suas barrigas. Depois Michel e papai me envolveram em um abrao triplo. Foi quanto vi tia Clara, que abracei emocionada depois de tantos anos. Enquanto eu estava no meio da minha famlia, Tho cumprimentava um casal, que me apresentou em seguida.

- Pai, me, essa  a Melissa, minha namorada.

- Onde est Viviane, Theodoro? - foi a pergunta do pai, antes mesmo de me estender a mo ou dar um beijinho no rosto. A me ficou roxa de vergonha, mas no disse nada. E se a primeira impresso  a que fica, eu estava perdida, mas ele tambm. Consegui detectar uns vinte defeitos no meu sogro em vinte segundos. O que o casal tinha a favor de Viviane era um mistrio. Poderia ser apenas simpatia depois de tantos anos, mas eu esperava ser recebida com um ol bsico e no com Onde est a Viviane, Theodoro?.

- A Viviane deve estar nos Estados Unidos e vocs sabem que no estamos mais juntos. Os motivos eu conto depois. Tenho certeza de que Melissa tambm est muito feliz por conhec-los - disse com ironia.

- Prazer em conhec-la, filha - disse a me, quebrando o gelo e me dando um abrao. Ela era tudo o que Tho havia me dito. Uma mulher com olhar gentil, um sorriso doce e um abrao verdadeiro. O pai manteve a mesma postura e s movimentou de leve a cabea, como se aquilo fosse um cumprimento. Desvencilhei-me dos sogros puxando Tho para apresent-lo aos meus pais. Primeiro ele cumprimentou Michel com um tapa nas costas e Sam com dois beijinhos no rosto, como bom carioca.

- Pai, me, esse  o Theodoro, meu namorado.

Michel e Samantha deram um grunhido como hummmm e demos risada.

- A, cunhado, prepare-se para ter um zoolgico em casa em pouco tempo. - Ri e fingi que brincava de luta com ele, mas meu irmo logo me deu um beijo no rosto e completou. - Mas se voc no aceitar os animais da fofa aqui, vai se ver comigo - e fez voz grossa. Todos riram de Michel, e Tho cumprimentou papai, mame e tia Clara.

- Que moo forte e bem alimentado, minha filha. Esses genes que so bons!

- Tia Clara  sempre discreta assim, no se assuste - explicou Michel.

Tho apresentou seus pais aos meus e enrolei a linda faixa que ganhei para levar para casa.

- O Ozzy! - lembrei com um grito. Como ele no estava na esteira em que pegamos nossas malas, Tho me garantiu que era s irmos ao balco da companhia area para busc-lo. Deveria ser um atraso comum. Eu queria esperar ao lado da esteira, mas no fazia sentido, j que no havia mais ningum ali e nenhum funcionrio soube nos dar a informao de que precisvamos.

Fomos ao balco e nos fizeram esperar mais cinco minutos durante meia hora. O que estava acontecendo com meu gato? Onde estava meu gato? Ser que ele tinha morrido e por isso no queriam me dizer? Pensei em vrios acidentes que podem acontecer com os animais que so transportados longe de seus donos, mas eu sabia que era exagerada e que nada tinha acontecido com ele. Mas, ento, onde estava o gato?

- O gato se perdeu, senhora - disse a atendente como se fosse algo absolutamente normal. Claro, o gato se perdeu, saiu por a para dar uma volta, teve um problema de amnsia e no soube voltar para a aeronave. - Quer dizer, o gato foi para outro pas, mas isso ser resolvido em breve - completou a moa.

- Como assim, outro pas? Que pas? - quis saber. Mas ela no sabia e ningum sabia. Precisei aguardar quase uma hora para que me dissessem que Ozzy Osbourne estava no Chile. Gato sortudo, naquele momento conhecia mais um pas! Disse  funcionria da companhia area que eu esperaria e ela me sugeriu ir para casa, porque o gato s voltaria no dia seguinte.

- Daqui eu no saio sem ele.

E foi assim que passei minha primeira noite no Brasil no aeroporto de Guarulhos, com minha famlia e a famlia de Theodoro. Todos aguardando um gato.



Paraty


Paraty  uma linda cidade do estado do Rio de
 Janeiro, no Brasil, que foi povoada entre 1533 e 1560
 e teve sua emancipao poltica decretada pelo rei de
 Portugal em 1667. Durante o perodo colonial, foi a
 mais importante exportadora de ouro do pas. A Trilha
 do Ouro, na Serra da Bocaina, passa pela cidade.

Samos do aeroporto na manh do dia seguinte e com Ozzy Osbourne viajando no meu colo no trajeto de Guarulhos a So Paulo. Fui no carro de meus pais, no banco de trs com Michel, Sam e tia Clara, enquanto papai dirigia e mame estava no banco do passageiro. No outro carro, Tho estava com seus pais. quela hora da manh, depois de passar a noite inteira no aeroporto, todos deviam estar com fome e sono.

Sono? Onde aquele povo todo dormiria?

Na minha casa, certamente. Quando cheguei, percebi que no quarto de Michel j havia uma cama de casal. Levei Sam at l e ela me contou que estava dormindo mais ali do que em seu prprio apartamento, ao que eu disse:

- Por que no vem morar de vez aqui, Sam? Poxa, voc e meu irmo vo ter um beb! No tem sentido voc morar sozinha ou deixar parte de suas coisas no apartamento antigo. O prdio aqui  bem localizado e vocs no precisam pagar dois aluguis - ponderei.

- Ns estvamos discutindo isso h algum tempo, mas eu no queria que voc pensasse...

- Pensasse o qu? Voc  minha melhor amiga e ele  meu irmo. Acham que eu sou algum tipo de bruxa? - interrompi, um pouco brava. Em seguida eu a abracei e disse que aquele era seu apartamento tambm. - Alm do mais, no devo ficar aqui por muito tempo e vai ser timo saber que voc est cuidando de tudo e que no estarei atrapalhando a privacidade de vocs dois.

- Mas para onde voc vai? - perguntou ela quando a porta abriu e tia Clara entrou no quarto.

- Aqui  o cantinho dos pombinhos? Posso ajudar a decorar? - e enquanto ela observava cada canto do quarto, eu e Sam nos olhamos, j sabendo que responder positivamente quela pergunta podia resultar em um quarto com paredes pintadas com diferentes cores e desenhos.

- Pior do que ela, s a me da Blanda - comentou Sam, sussurrando e rindo.

Foi quando eu vi Lady pela primeira vez em mais de seis meses. Ela estava escondida embaixo da cama, mas vi o seu rabo aparecendo. Abaixei, peguei-a no colo e abracei forte como se fosse uma gata de pelcia. Que saudade de Lady! Ela, voluntariosa, sabia que eu a tinha deixado por muito tempo e ainda estava brava, mas naquela mesma noite j dormiu comigo e expulsou Ozzy. Em poucos dias eles seriam amigos.

Samantha e Michel dormiram no quarto do meu irmo e cedi o meu quarto para meus pais oficialmente, j que eles tinham dormido l na noite anterior. Foi quando voltaram de Bady Bassitt com Lady Gaga e Funk, o co de Tho, que j estava em seu apartamento. Na sala, dormi com tia Clara. Ela ficou com o sof-cama e eu achei melhor dormir no colchonete com meus gatos e Dilin.

Todos estavam em So Paulo porque era comeo de ano. Samantha contou que conseguira o papel na novela das seis. Era uma pequena participao, mas sua personagem tinha uma histria interessante e bonita na trama. Ela se chamaria Flor e seria uma moa que chegaria grvida  cidade em que se passa a novela, sem que ningum soubesse quem era o pai da criana (acho que seria um mistrio mesmo). Mas  a que inicia o romance, porque ela comea a trabalhar na empresa de um tal Fbio e se apaixona por ele. E o cara se apaixona por ela, mas ele  casado. O resto da histria eu no sei, mas eu nunca tinha visto Sam to feliz na minha vida. Grvida e com o trabalho que sempre sonhou.

- Imagine se esse Fbio for um velho bigodudo? Vai ter que beijar na boca, Sam, tudo pela arte! - no resisti a provoc-la.

- Eu realmente espero que o Fbio seja o velho com o maior bigode de toda a histria. Sabe como , assim eu no terei concorrncia - brincou Michel, quando estvamos na sala.

Meu irmo estava de recesso do escritrio de advocacia, meu pai estava de frias da escola e minha me continuava dando aulas em casa, mas tirou alguns dias de folga no comeo do ano, que  a poca em que as alunas mais viajam. Fiquei feliz por todos estarem comigo quando Michel anunciou que faramos uma viagem todos juntos.

- Fofa, todos esto aqui por dois motivos. O primeiro  ter certeza de que voc voltaria mesmo, porque essa casa precisa de uma limpeza urgente! - e rimos. - Segundo porque a premiao foi marcada para o sbado em Paraty.

Paraty, uma das cidades mais encantadoras do Brasil.

Eu estava to feliz que, se tivesse um medidor de felicidade, ele estaria transbordando.

Quando todos estavam dormindo, fui  cozinha preparar um copo de leite quente com mel para ver se chamava o sono. Mame entrou e sentou-se em uma das cadeiras de madeira. Como era bom ter minha me comigo depois de tanto tempo! Mesmo que ela nunca tenha estado ausente em minha vida, fazia falta abra-la, beij-la e olhar em seus olhos.

Pedi que ela tirasse as cartas para mim. S uma vez e uma nica pergunta.

- Voc j resolveu os assuntos do corao. E agora, filha?

- Eu s quero saber o que eu fao com esse corao agora que tenho a oportunidade de viajar novamente, me. S preciso saber isso, mais nada, eu prometo. Ser que todo sonho tem um preo a ser pago?

- No existe preo para o amor, Mel.

Foi meu pai quem disse. Ele entrou na cozinha e ouviu nossa conversa. No respondi nada e fiquei quieta esperando suas prximas palavras. O que papai sabia de amor?

- Se o amor  de verdade, minha filha, ele no pede nada em troca - e foi assim que meu pai comeou sua histria. Contou desde o dia em que conheceu minha me e tudo o que j havia escutado tantas vezes. Mas acrescentou um detalhe novo. Havia sido convidado para fazer mestrado nos Estados Unidos, mas no aceitou.

- No MIT - papai contou.

- O Massachusetts Institute of Technology, pai, o MIT! Por que o senhor no aceitou? - perguntei com dvida e orgulho por saber que meu pai havia tido a chance de estudar em uma das melhores universidades do mundo.

Ele me explicou que, quando isso aconteceu, mame estava grvida de Marcos. Ele no poderia lev-la e, mesmo se insistisse, no teria como dar o apoio de que ela precisaria. Com que dinheiro sustentaria os dois l? A famlia toda estava em Bady, e ele sabia que poderia contar com algum se fosse necessrio. Trabalhar em sua cidade, ou em So Jos do Rio Preto, na poca parecia a melhor opo.

- Eu nunca culpei sua me por ter ficado. Foi uma escolha minha. Ela me incentivou a ir e disse que me esperaria aqui pelo tempo que fosse necessrio. Eu tinha medo de perder minha mulher e meu filho. Fui inseguro, Mel. Hoje eu sei que, se tivesse ido, eles estariam aqui quando eu voltasse. Mas no me arrependo das escolhas que fiz naqueles dias. Se fosse para eu ser quem sou hoje, com vocs ao meu lado, eu teria feito as mesmas escolhas - e parou de falar por um momento porque estava emocionado. Recomeou com jeito de moleque piadista. Os genes que ele transmitiu diretamente a Michel: - Alm do mais, filha, eu nunca conseguiria pronunciar o nome da faculdade mesmo! - e rimos dele pronunciando Massachusetts.

- O que o seu pai quer dizer, Mel,  que o amor verdadeiro incentiva os nossos sonhos. E nos espera - completou mame. - Mas vamos tirar as cartas para a pergunta que voc quer fazer? - disse, enquanto se levantava para pegar seu material.

- No precisa, me. Eu j sei o que fazer.




No dia em que chegamos s dormimos e comemos um macarro ao alho e leo, que era o prato mais rpido de que eu me lembrava conseguir fazer. No dia seguinte, combinamos de fazer um turismo por So Paulo com nossos pais. Acordei cedo e assei pes de queijo para levar para Tho. Subi o nico lance de escadas a p quando vi uma mulher saindo do elevador.

Viviane, com cala jeans justa, camisa decotada branca e sandlia de salto com glitter. Em uma das mos segurava uma bolsa e na outra puxava uma mala de rodinha. Era s o que me faltava! Viviane chegava dos Estados Unidos e eu havia esquecido um pequeno detalhe: ela ainda morava com Theodoro. E havia chegado antes de mim.

Nesse momento, meu namorado saiu do apartamento e nos viu. Uma linda cena de um musical: eu ao lado da escada, Tho em uma porta e Viviane na frente do elevador.

- Vivi... - disse Tho, um pouco hesitante. Mas chamar a ex-namorada de Vivi  demais para mim! Eu queria subir no pescoo dele. No, subir no pescoo dela. Se eu pudesse ser a mulher elstica e apertar ambos os pescoos, eu seria uma pessoa mais feliz naquele momento.

- Vivi... Viviane... Eu j reservei um hotel pra voc e vou acertar sua mudana essa semana. S no quero que voc fique aqui, por favor - disse Tho, com gentileza.

A modelo jogou os cabelos para o lado e respondeu com frieza:

- Eu no vim para ficar no seu apartamento. Estou me mudando.

Ns abrimos um sorriso, porque foi inevitvel. Viviane ento largou a porta do elevador, abriu sua bolsa com calma, tirou uma chave de dentro com um enorme chaveiro de caveira e abriu a porta do apartamento ao lado de Tho.

- Se precisarem de qualquer coisa, me chamem pelo interfone. Estou sempre  disposio, corao.

Era a cereja do bolo: ter Viviane como vizinha.

Entrei com Tho em seu apartamento j bastante irritada. Deixei a forma com pes de queijo sobre a mesa de jantar da sala e avistei seus pais sentados no sof.

- Est tudo bem, Melissa? - perguntou minha sogra, que parecia realmente preocupada.

- No  nada, me.  que acabamos de ver Viviane e parece que ela se mudou para o apartamento ao lado - comentou Tho.

- Vivi est aqui? Por que no nos chamou, filho? - disse o sogro, levantando do sof e indo em direo  porta. Theodoro parou na frente dele e ficou srio.

- Pai, j chega. Me, escute tambm. Eu j contei o que aconteceu com a Viviane nos Estados Unidos. O que ela fez. O que eu no sinto mais por ela. Como eu conheci a Mel e o quanto sou apaixonado por essa mulher aqui ao meu lado. No interfiram na minha vida. Se quiserem me apoiar, vou ficar feliz. Se quiserem conhecer a Mel melhor, vo entender por que estou com ela e por que ficarei com ela. Mas parem com essa falta de educao na minha casa! O que o pai da Viviane fez para o senhor  problema de vocs. A sociedade  de vocs, o trabalho no  meu e eu no tenho nada a ver com isso. Se o pai dela no vai gostar e vai mudar sua posio no negcio, ele no  a melhor pessoa para ser um scio, o senhor concorda? E quer me vender como uma mercadoria para prosperar nos negcios? Pai, tenha pacincia e resolva seus problemas sozinho. O senhor  adulto.

E depois de despejar o que provavelmente guardava h anos, mesmo tendo gostado de Viviane, ele se virou e samos de l.

Naquele dia os meus sogros no nos acompanharam no passeio. Fomos ao Museu do Ipiranga,  Pinacoteca, ao Museu de Lngua Portuguesa,  Estao da Luz, e, por ltimo, ao Masp.  noite, caminhamos na Avenida Paulista, um dos meus lugares preferidos naquela cidade turbulenta e adorvel. O que me encantava em So Paulo era a disponibilidade para receber gente de muitos lugares do mundo. Somente naquele grupo estavam pessoas de todos os cantos: minha famlia de Bady Bassitt, tia Clara de Salvador e meu namorado do Rio de Janeiro. E eu sabia que, se entrevistasse algumas pessoas em cinco minutos, teria pelo menos dez lugares diferentes e mais de uma nacionalidade alm da brasileira.

Essa receptividade que os paulistanos tm facilitou a minha vida quando cheguei. Ao mesmo tempo, a cidade transpirava um ritmo frentico de trabalho e parecia que, com isso, todos passassem sem notar nada ao seu redor. Era a preocupao. Mas todas as vezes em que parei algum para pedir uma informao, fui atendida com educao. No  a simpatia do soteropolitano ou a leveza do carioca, mas o paulistano tem um jeito de receber que faz que voc sinta que aquela cidade cinza tem o seu lado azul.




No dia seguinte, enviei o meu material todo para a agncia e nos falamos algumas vezes por telefone para combinar os prximos trabalhos. Fui at l pessoalmente quando me chamaram e me contrataram como jornalista, mas o melhor ainda estava para chegar.

Caroline e Lcio nos visitaram antes de viajarmos para Paraty, mas senti falta de Brbara, que havia me pedido muitos produtos dos Estados Unidos.

- Brbara pediu que eu levasse tudo para ela, Mel. Sinto muito - disse Caroline, j percebendo a falta de delicadeza da amiga.

- Pois diga a ela, por favor, que eu no consegui comprar nada que ela me pediu - respondi sem explicaes e em seguida entregando presentinhos para todos os que estavam ali, inclusive para o casal. Caroline e Lcio, minha amiga do jornal e o amigo de Michel, ajudaram muito Samantha a conseguir o papel na novela e ainda foram responsveis pelo contato que possibilitou Tho planejar a surpresa na Disney. E eles formavam um casal to lindo!

Mas a surpresa de que mais gostaram foi unanimidade: a foto que tirei com o nome de todos no parque do Harry Potter. Tho tinha razo, tudo o que queremos  saber que fomos lembrados em um momento especial.

Ningum me explicou o motivo do sumio de Brbara, mas depois de horas de conversa Carol no aguentou e contou que ela estava namorando Cristiano.

Achei que era brincadeira. Por um minuto. Logo entendi que a piada era verdade. Cristiano se separou de Sara Lara - se eles realmente estavam juntos ou se era algum golpe de marketing idiota, eu no sei dizer e no quis saber detalhes - e poucos dias depois apareceu na redao com Brbara. Os dois chegaram de mos dadas e depois daquele dia tudo ficou diferente entre a equipe. Pensei se Brbara j no estava com Cristiano quando me telefonou pela ltima vez, mas minha indiferena era maior que a curiosidade.

Viajamos a Paraty em trs carros para maior conforto das grvidas. Papai estava com mame e tia Clara. Michel dirigia um carro com Sam e eu de passageira no banco de trs, enquanto Tho ia com seus pais, que de l voltariam direto para o Rio de Janeiro. Na volta, Tho viria em um dos dois carros que seguiriam para So Paulo.

S quando cheguei a Paraty  que percebi que em nenhum momento havia perguntado detalhes sobre o prmio. No sabia nada sobre ele. Ento Michel, que havia tratado do meu caso na justia, contou que minha matria de Turismo tinha recebido o primeiro lugar no Prmio de Jornalismo Latino-Americano, uma importante premiao do jornalismo, que envolvia jornais, revistas, televiso, rdio e internet, com votos de renomados profissionais da rea. E eu era primeiro lugar na categoria mdia impressa!

Ficamos hospedados em um hotel no bairro Pontal, a poucos metros de caminhada do centro histrico, com uma belssima vista da cidade e calmaria  noite. Paraty sempre me encantava com as caladas de pedras chamadas ps de moleque, o que dificulta o andar, mas favorece a vista. Quanto mais devagar passamos pelas ruas histricas, melhor podemos admirar as casas com suas janelas coloridas. A cidade, patrimnio histrico nacional,  cercada pela Mata Atlntica, e a vista com o mar forma a melhor combinao de verde e azul da natureza.

Fiquei emocionada na premiao. No tinha ideia de que tantas personalidades estariam na cidade e foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira. Subi ao palco, recebi o prmio e agradeci a todos que estavam ali e que me apoiavam.

Na comemorao em famlia, os pais de Tho preferiram no ficar. Eles disseram que queriam visitar um parente que morava em Paraty e pediram ao filho que fosse junto. Theodoro pediu desculpas, estava desolado, mas eu o encorajei a ficar com seus pais e disse que comemoraramos mais tarde, j que estvamos no mesmo quarto do hotel.

Comemoramos em um delicioso e aconchegante restaurante da cidade, o que  redundncia, j que todos os restaurantes em Paraty parecem timos. Brindamos ao meu novo trabalho como contratada da agncia, ao prmio e aos bebs. Samantha, ento, disse que queria fazer um pedido muito especial.

- Mel, eu quero que voc seja nossa dama de honra e leve as alianas para o altar em nosso casamento.

Comecei a chorar antes mesmo de ouvir a frase inteira. Meu irmozinho se casaria com minha melhor amiga e eu levaria as alianas como a daminha? Acho que nunca imaginei nada to emocionante quanto isso.

- Mas fofa, o casamento vai ser s depois que o pimpolho nascer. Ou a pimpolha, n, porque ainda no sabemos. De repente so pimpolhos, no plural!

- No assuste os outros, amor. Ns j sabemos que  s um beb - riu Samantha.

- E ento, voc aceita entrar com vestido de bolo na igreja e levar as alianas com o seu sobrinho no colo? - perguntou Michel.

Eu aceitei na hora e abracei os dois, enquanto nossos pais e tia Clara choravam do outro lado da mesa. Tambm resolvi contar minha novidade, de que havia recebido um convite da agncia para uma nova matria. Amrica sobre rodas tinha sido um sucesso e os meus chefes queriam um trabalho especial, chamado Europa nos trilhos. Os pases ainda no estavam definidos, mas eu sabia que seriam trs meses de viagem.

Meus pais ficaram felizes, assim como Michel e Samantha, que questionou se eu havia contado a Tho. Estava nervosa e disse que ainda no sabia como fazer, que aquilo estava fora do meu controle e jamais imaginei perder um convite daqueles, mas tambm no poderia perder o meu amor.

Voltamos da comemorao e encontramos meus sogros e Theodoro conversando sentados em uma mesinha na rea externa da pousada. A vista noturna de Paraty tambm era encantadora. Meus sogros logo se despediram e foram dormir, assim como
 minha famlia. Ficamos somente eu e Tho e resolvemos subir para nosso quarto e deitar na rede da varanda.

A lua iluminava o meu pingente de globo. Segurei-o enquanto falava com meu namorado.

- Tho, eu quero colocar mais algumas pedrinhas nesse globo.

Ele sorriu, mas no havia entendido o que eu queria dizer.

- Vou viajar pelos prximos meses. E sozinha.



Picinguaba


O Ncleo Picinguaba est localizado no Parque
 Estadual da Serra do Mar, maior parque paulista
 dedicado  preservao ambiental, com trilhas pela
 Mata Atlntica. Picinguaba  uma vila de pescadores
 que ainda preserva suas tradies em um cenrio de
 beleza nica. O nome significa refgio de peixes em
 tupi-guarani.

Tho, que antes me segurava com seus braos, soltou-me e no disse nada. Eu estava em sua frente e ele me abraava por trs na rede do hotel em Paraty. Eu no sabia como comear a conversa, por isso fui to direta. Quando percebi que ele no estava feliz, virei o meu corpo e ficamos um de frente para o outro. Seus olhos no sorriam mais para mim. Contei toda a histria da agncia e sobre a nova srie de reportagens que faria na Europa. Seria como nos Estados Unidos, sem programao definida, no esquema mochilo e sem data para voltar, apenas respeitando o tempo de permanncia permitido.

Em poucos dias eu comearia uma nova aventura e estava feliz, mas confusa ao mesmo tempo. Se Tho no entendesse, eu sabia que viajaria triste como poucas vezes estive, mas nunca pensei em desistir de viajar. Nem por ele. Porque imaginava que, se ele gostasse de mim de verdade, se o amor fosse forte, ele entenderia minhas decises. Nunca passou pela minha cabea que o fato que o havia deixado triste no era a minha deciso de viajar, mas sim a de no contar nada, como se ele no fosse importante para mim.

- Eu preciso fazer isso, Tho. Por mim, mas tambm por ns.

- Por ns? Por ns, Melissa? Ento me explica como voc quer fazer isso por ns - respondeu ele com a voz calma e baixa.

- Eu no quero que ningum abra mo de nada na vida para ficar comigo, assim como no quero abrir mo dos meus sonhos - respondi, lembrando da histria dos meus pais.

- Continue - Tho pediu.

- A liberdade no nos tira a pessoa que amamos porque sabemos que ela vai voltar. s vezes  preciso um tempo para que ambos realizem alguns sonhos, mas essas duas pessoas que se amam vo ficar juntas depois.  uma questo de tempo.

- Voc fez uma escolha por ns dois,  isso?

- Tho, escute-me, por favor - e segurei seus braos enquanto olhava em seus olhos. Ainda estvamos sentados na rede, que balanava, porque Tho estava com as duas pernas para fora e os ps no cho. - Eu no fiz essa escolha por ns, apenas fiz a escolha que precisava fazer. Passei anos com medo de enfrentar meus sonhos e de segui-los. Voc me ensinou que eu poderia fazer o que gosto e ser feliz. No posso deixar essa oportunidade passar, no posso deixar de seguir um sonho por nada...

- Nem por mim, no  mesmo? - perguntou, com os olhos vermelhos. - Melissa, voc precisa entender que as histrias no so todas iguais. Eu nunca pediria que voc deixasse de viajar por minha causa. Nunca pediria que voc deixasse um sonho seu para trs por mim. Porque eu te amo, e quero que voc seja a pessoa mais feliz desse mundo.

Quando eu ia comear a falar novamente, para explicar que eu sabia que ele no faria isso (embora eu no soubesse, de fato, e morria de medo que ele pedisse para eu ficar), ele me interrompeu com um dedo na minha boca como quem pede por favor, deixe-me falar e continuou.

- Fico to feliz com a sua viagem quanto voc est, mas no demonstro. Sou seu maior incentivador, mas o que me deixa decepcionado no  o fato de voc viajar, mas de decidir tudo sem ao menos contar para mim. Quando ramos s amigos, voc contava tudo para mim, e agora... Agora voc no  mais minha amiga? Eu achei que nossa relao tinha a base mais slida que pode existir, que  a amizade. E que voc confiava em mim para compartilhar seus sonhos.

- Eu confio...

- Mas pelo jeito eu no estou includo nos seus sonhos como voc est nos meus - completou Theodoro. Ele se levantou e entrou no quarto. Fiquei mais alguns minutos na rede, pensando no que dizer para ele enquanto observava a luz acesa, mas, quando entrei, sua mala estava pronta na porta. Ele passou por mim e vi quando se deitou na rede da varanda do nosso quarto.

Quis dizer mais algumas palavras, principalmente que eu o amava, mas no consegui. Queria explicar por que tinha medo de me envolver. Que eu tinha medo de perd-lo e agia como uma tonta. Que eu cresci acreditando que nunca realizaria os meus sonhos e que, quando percebi que eles estavam diante dos meus olhos, no tive outra opo a no ser aceitar o que a vida me oferecia.

Eu havia me esquecido de que foi ele quem me mostrou as portas da realizao.

Deitei-me na cama e deixei o abajur aceso para observar o movimento na varanda. Sabia que pela manh conversaramos de novo e nos entenderamos. Adormeci e no vi mais nada. No percebi em que momento Tho saiu do quarto e foi embora.

Na manh seguinte, cheguei  recepo ainda de pijama e com o Dilin nos braos.

- Bom dia... Desculpe...  que eu preciso saber se voc viu o rapaz que estava comigo no quarto... o meu namorado... Os pais dele esto em outro quarto, eu no me lembro o nmero, mas sei que  l embaixo, perto da piscina - tentei explicar para a recepcionista.

- Sim, o hspede Theodoro Brasil e o casal saram h poucos minutos. Ele deixou um recado para voc. Pediu que avisssemos que foi para o Rio de Janeiro com os pais.

- S isso? Ele no disse mais nada?

- No disse, desculpe - respondeu a moa, voltando a atender uma senhora que no parava de olhar para o meu pijama.

- Meu Deus, o que eu fiz! - exclamei alto e todos olharam para mim.

- Calma, filha, vai dar tudo certo. Se ele foi embora, por que voc no vai atrs dele? - sugeriu a senhora.

No pensei em mais nada. Subi, peguei o celular, os documentos e a chave do carro no quarto e sa. Quando estava a caminho do estacionamento, a mesma senhora de cabelos brancos gritou.

- Querida, voc esqueceu o seu boneco aqui!

Voltei, agradeci rapidamente, peguei Dilin e quando corria de volta para o estacionamento, ainda com o pijama de grandes bolas coloridas que havia sido presente de boas-vindas de tia Clara, gritei para a recepcionista:

- Avise aos meus pais que j volto. Quer dizer, que eu vou demorar, mas eu volto hoje! - e sa correndo. Peguei o meu carro ciente de que, se houvesse algum problema e eu no voltasse naquele dia, havia o carro de papai para um passeio ou emergncia. Nossa volta para So Paulo estava marcada para o dia seguinte.

Dirigi com cuidado dentro da cidade, mas em alta velocidade na estrada. Onde estava Tho? Se ele tinha sado havia poucos minutos, deveria estar perto. Segui em direo ao Rio de Janeiro e s a caminho  que me lembrei de que no havia escovado os dentes e estava despenteada. O pior, talvez, fosse o pijama de bolotas.

Enquanto dirigia, fiz o que nenhum motorista deve fazer: falar ao celular. Na verdade, eu tentava falar, mas no conseguia. Ligava para Tho e caa direto na caixa postal. Ser que ele havia desligado o telefone para no falar comigo? E se estava em um trecho de estrada sem sinal? Liguei mais de quinze vezes e continuei correndo quando, meia hora depois, o telefone tocou.

- Fofa, cad voc? - perguntou Michel nervoso. - A moa da recepo disse que voc saiu correndo e de pijama! O que aconteceu? Tho passou mal? Onde vocs esto?

- Eu estou na estrada, ele tambm est na estrada... - mas no conseguia falar direito e nem achar o boto de viva-voz do celular.

- Mas em qual estrada? O que vocs esto fazendo na estrada? No estou entendendo nada.

Consegui acionar o viva-voz e larguei o celular no meu colo enquanto dirigia.

- Ele saiu antes de mim e no disse nada, ento sa atrs dele.

- Vocs brigaram?

- No sei... , acho que foi uma briga. Mas eu ia conversar com ele hoje e ele sumiu! - tentava me defender, mas nervosa e com a fala ofegante.

-  a histria da viagem, n? Mas Mel, se ele viajou,  porque no quer falar com voc agora. Fale com ele depois - ponderou Michel.

- Eu detesto vocs... homens!!! Preciso dirigir. Tchau.

Desliguei e Michel no voltou a ligar. Ele me conhecia e sabia que eu pensaria no que fazer depois da breve conversa. Parei no acostamento e chorei. Lembrei das minhas palavras na noite anterior e no quanto ns dois havamos sido injustos. Eu no conseguia demonstrar minha confiana, e ele no poderia entender o que se passava na minha cabea se eu no contasse. Mas no precisava ter sado sem tentar conversar comigo mais uma vez.

Erramos, mas no merecamos estar separados depois de tudo o que enfrentamos juntos.

Os carros passavam a uma velocidade to grande que eu achava que seria levada pela ventania. Se eu no o encontrei, talvez fosse um sinal de que no deveria, mesmo, falar com ele naquele momento. Ou apenas o fato de que ele j estava muito longe e a recepcionista tinha se enganado. Ou ele e os pais podiam ter parado em uma praia qualquer. Eu no tinha como saber. S me restava voltar.




Quando voltei a Paraty, todos estavam na pousada  minha espera. Samos para almoar juntos e curtimos o dia sem que ningum falasse uma nica palavra sobre o ocorrido. Passeamos pelo centro de Paraty e andamos pelas ruas de pedra, conhecendo as lojas. Observei o carinho entre Sam e Michel e como o beb que estava por vir seria feliz de ter aqueles pais. Pensei, quieta, se algum dia eu seria me. Porque naquele momento eu no conseguia nem cuidar de mim mesma sozinha. Nem dos meus gatos, que tinham ficado em um hotel para animais naqueles dias.

No dia seguinte, pela manh, meus pais decidiram ir embora com tia Clara, que quando se despediu de mim disse no meu ouvido:

- Minha querida, enquanto o homem planeja, Deus ri. Ento, s vezes precisamos planejar menos e sentir mais. Voc no precisa realizar tudo, somente o que  mais importante. No precisamos de muito para ser feliz. A propsito - disse, olhando para o meu pescoo -, belo pingente!

- Ganhei do meu namorado... Quer dizer, acho que  ex-namorado - respondi com tristeza.

- Um homem que te d o mundo no merece nunca levar o ttulo de ex.

E na sua insanidade lcida, tia Clara fez que eu me arrependesse de todas as bobagens que havia dito para Tho. Mesmo assim, ainda estava magoada com ele.

Eu, meu irmo e Sam seguimos em outro carro e paramos em Picinguaba, uma vila de pescadores j no estado de So Paulo. Ficamos em uma pousada e pedimos a um barqueiro para nos levar  Ilha das Couves. No havia mais ningum l, s ns trs. No fossem meu irmo e minha melhor amiga, eu teria me sentido uma vela com pernas. Mas foi um lindo passeio e tiramos muitas fotos de Samantha grvida.

Pedimos que o rapaz do barco nos buscasse em duas horas e ficamos sentados na areia sobre duas toalhas estendidas e conversando sobre a vida.

- Voc j parou para pensar que nossos pais so felizes, Mel? - perguntou Michel.

- Por que voc est falando isso agora?

- Voc tem uma ideia de que, se as pessoas ficam juntas, no podem fazer mais nada. No  verdade, fofa. Voc tem medo de se apaixonar e de abandonar os seus sonhos por causa de um grande amor quando, na verdade, um grande amor nos faz seguir os nossos sonhos, encontrar novos e realizar alguns que nunca imaginaramos - filosofou Michel como um adulto. Eu quase podia v-lo pequeno na minha frente, meu irmo caula, e que seria pai em alguns meses.

- Eles casaram to cedo, fofo...

- Eles se amavam! E se amam ainda!

Mas eu nunca tinha parado para pensar que a maior verdade de todos aqueles anos  que eu nunca tinha visto um casal to feliz quanto meus pais. Lembrei que naquela manh havamos tomado caf juntos e tinha visto meu pai buscar frutas para minha me e acariciar sua barriga. Quando estvamos longe, era ntido que estavam comentando sobre mim e Michel, e pude perceber em seus olhos orgulho e felicidade.

- Quando duas pessoas se encontram, Mel, elas no perdem a chance de viver muitas experincias. Elas descobrem a oportunidade de viver outras muito melhores - disse a minha futura cunhada.




Chegamos a So Paulo  noite e meus pais levaram tia Clara ao aeroporto, j que ela voltaria para Salvador. No dia seguinte eu preparei um almoo para todos. Fiz lasanha, mas sabia que todos aguardavam a sobremesa: brigadeiro de colher.

Rimos, conversamos e tiramos fotos. Minha famlia era linda. Senti falta de Marcos e pensei, naquele momento, sem Tho ao meu lado, que o meu medo da morte no se resumia em no conseguir realizar tudo o que desejava. Os sonhos ficaram pequenos perto da grandiosidade do mundo que eu descobri que existia. Senti que tinha medo de morrer sem ter feito nada de realmente importante para algum. Sem ter feito a vida ter um sentido mais amplo que o meu umbigo e mais especial que os meus prprios sonhos.

Ter vivido o meu sonho me fez enxergar que, se eu era capaz de segui-lo e enfrentar tudo para conquistar o mundo, eu poderia enfrentar algumas barreiras para melhorar o mundo de algum.

Foi naquele dia, com minha famlia  mesa, que eu decidi que, quando voltasse ao Brasil, trabalharia com animais abandonados. No sabia ainda como poderia ajud-los, j que o espao do meu pequeno apartamento no daria para muitos bichos, mas tinha a certeza de que, mais do que adotar os animais - o que eu j havia feito -, eu poderia conscientizar as pessoas a fazerem o mesmo. Se cada um adotasse um co ou gato, o mundo seria melhor. No s porque os bichos ganhariam casa, mas porque as pessoas descobririam um tipo de amor que  puro.

Olhei em volta e vi Lady, Ozzy e Funk dormindo juntos, na mesma cama. Michel buscou Funk e desconfio que Tho tenha feito o pedido, j que decidiu ir ao Rio de Janeiro de ltima hora.

Comentei com minha famlia que havia escrito uma carta para Tho e  tarde meus pais foram embora para Bady Bassitt. Eles no poderiam esperar minha sada para a Europa porque papai tinha alunos particulares que estavam de recuperao e mame tambm recomearia as aulas e precisava voltar para o pr-natal. Mame comentou comigo que tudo daria certo. Eu no sabia se ela havia visto nas cartas ou se era intuio de me, mas no perguntei. A partir daquele momento, tive certeza de que tudo melhoraria.


Tho,

Voc no atendeu aos meus telefonemas e nem respondeu aos meus e-mails. Vou tentar, ento, pelo mtodo mais tradicional e infalvel: uma carta embaixo da porta.

Peo desculpas por no ter conseguido demonstrar o que estava sentindo. Confio em voc. Confio tanto que foi para voc que contei meus sonhos, mas no consegui perceber a tempo que foi voc quem me impulsionou a segui-los.

Hoje sei que no preciso ter medo de ser feliz. E somente por medo fui egosta e no dividi com voc o meu futuro, justamente por saber que eu quero que esteja ao meu lado sem que perca nada com isso.  por amor que eu tive medo. Mas no quero encontrar desculpas, quero apenas pedir que me desculpe. Porque os brilhantes no globo s fazem sentido se voc estiver comigo.

Beijo sabor brigadeiro,

Mel.


P.S.: Encaminho a ficha de inscrio para um concurso mundial de fotografia. Porque voc  o melhor, acredite nisso. Eu acredito.



Europa nos trilhos


No aeroporto, s Michel e Samantha estavam comigo. Foi como na primeira vez em que viajei, mas faltava Tho.

Comprei uma mochila grande e abandonei a mala de rodinhas. Tornei-me, definitivamente, uma mochileira. Arrumei tudo (a mochila maior e uma pequena mochila com Vespa, o notebook novo, j que mame tinha levado Lesma) e depois de alguns dias que meus pais voltaram para Bady eu partia para a Europa, em uma viagem que eu tinha certeza de que seria fascinante, mas no imaginava a que caminhos me levaria. Olhei ao redor para ter certeza de que Theodoro no estava ali. Sentia que ele estava. Procurei, porque ele no deixaria de me levar ao aeroporto. Mas ali, sentada na apertada poltrona do avio, questionei se ele no chegara a ler a carta. Ou se fingira que no a recebeu. Porque tenho certeza de que ele sabia que era hoje.

Fiz uma despedida para Lady e Ozzy com rao especial e muitas fotos. Inclu Funk na comemorao, o que me deixou chateada, porque se o cachorro ainda estava no meu apartamento e sob os cuidados de Michel, talvez Tho no tivesse voltado do Rio de Janeiro.

Quando chegamos ao aeroporto, com antecedncia e calma, fui fazer o check-in, enquanto meu irmo e Sam aguardavam. Mostrei a mochila menor, que iria comigo como bagagem de mo e... cad a mochila maior?

- Michel, onde est a mochila maior? - gritei no guich de atendimento da companhia area.

- U... Voc no pegou tudo? - devolveu a pergunta.

- Mel, voc esqueceu a sua mala? - perguntou Samantha, indignada.

Obrigada pelo apoio, pessoal. Minha memria no me deixou esquecer os animais, mas fez que eu esquecesse todas as minhas roupas.

Comecei a tremer de nervoso, expliquei a situao para o rapaz no guich, que me disse que ainda havia tempo suficiente, j que faltavam duas horas para o horrio do voo. Pensei que aquele era o problema. Eu demoraria pelo menos uma hora para chegar em casa e mais uma hora para voltar, considerando que no haveria trnsito. E garantir que no haver trnsito em So Paulo  como afirmar, com certeza, que voc ser o ganhador da prxima Mega Sena.

- Eu vou, esperem aqui! - disse Michel.

- No vai dar tempo!

- Algum tem de tentar. Se no der tempo, vai assim mesmo, voc no pode arriscar sair daqui. Vou tentar chegar, ento um beijo s para o caso de eu no conseguir - brincou Michel e me beijou a testa. Saiu correndo pelo saguo e eu e Samantha balanamos as mos em um tchau quando ele se virou para nos ver mais uma vez.

Ou eu chorava ou ria, ento a segunda opo pareceu mais fcil e divertida.

Faltavam apenas duas horas at o horrio previsto para o voo e eu no sabia se teria pelo menos uma calcinha limpa para trocar quando chegasse a Roma. Foi quando percebi que em algumas horas estaria na Itlia, terra dos Marini, a famlia da minha me e de muitos brasileiros. E ter uma mochila com roupas e sapatos no teve a mesma importncia diante de tudo o que aconteceria dali em diante. Sam e eu vimos o guia de viagem que eu comprei com um resumo de vrios pases europeus e pensei se estaria no Brasil quando meu sobrinho nascesse. Coloquei a mo sobre sua barriga e conversei com o beb. Beijei a barriga e abracei minha amiga.

Ficamos  espera de Michel e o tempo passava muito depressa. Decidi que embarcaria sem minha mochila. Andava de um lado para o outro e telefonei diversas vezes para meu o irmo, que enfrentava trnsito e um trajeto longo at o aeroporto internacional de Guarulhos. E se no desse tempo, eu poderia comprar roupas na Itlia. Certamente no seria um lugar muito barato, comprar roupas em euros no parecia ser uma pechincha, mas nada que algumas calcinhas e blusas no pudessem me ajudar.

- Michel, vou embarcar, j deu a hora! - disse desesperada no celular.

- Mel, me espere, estou chegando!

Mas ele parecia no chegar nunca, at que me telefonou do estacionamento e fui correndo para o guich de atendimento da companhia area explicar a minha situao e lembrar: Eu sou aquela moa da mala, por favor, escute-me. Samantha utilizou o seu poder de grvida e disse que tudo havia sido culpa dela, porque ela achou que teria o beb naquele dia (e o atendente certamente no entende nada de bebs, porque ela no estava nem perto de parir) e todos olharam com compaixo para a grvida.

- Obrigada, amiga! - sussurrei quando eles aceitaram embarcar minha mala, que Michel trazia correndo pelo saguo do aeroporto. O atendente pediu que o seguisse e passou a mochila para outra pessoa despachar. Samos andando-quase-correndo e, quando entramos no embarque, mandei beijos para Sam e Michel, seguidos de um obrigada, fofo! que eu gritei para que ele pudesse ouvir. Samos ultrapassando todas as pessoas, j que o atendente apresentava o crach e explicava que se tratava de um embarque imediato.

E de fato foi. Quando cheguei, no havia mais ningum para entrar no avio. Se ele ainda estava ali,  porque esperava a ltima passageira. Eu.

- Obrigada, obrigada, obrigada - disse e beijei o rosto do atendente, que sorriu sem graa.

Entrei correndo no avio e notei que todas as pessoas estavam sentadas. Todas me esperando. Andei tranquilamente, como se tudo estivesse certo, mas com vontade de me transformar em uma ema e enfiar minha cabea nos motores.

Procurei meu lugar, que era no corredor. No meio estava um senhor de culos que lia um livro e levantou a cabea como quem diz: Ah, ento era voc que estvamos esperando?, e ao lado da janela um garoto de bon com no mais que 18 anos, que mascava chiclete, ouvia msica com um fone de ouvidos e no parecia nem um pouco interessado no fato de eu ter chegado atrasada.

Depois de guardar a bagagem de mo, coloquei minha bolsa embaixo da poltrona  minha frente e antes da decolagem acessei a internet do celular. Tinha esperana de que encontraria uma mensagem de Tho, mas no havia nada. Emily e Blanda me escreveram desejando boa viagem, Caroline se desculpou por no poder ir ao aeroporto e Daniel disse que, se eu passasse por Portugal, deveria avis-lo, porque ele estaria em alguns meses de volta a Lisboa. Giuseppe, meu primo italiano, contou que me encontraria na Itlia e pediu detalhes dos albergues em que eu estaria. Fiquei feliz por saber que conheceria minha famlia italiana.

Enquanto lia os e-mails, recebi uma mensagem. Podia ser de Theodoro!

Mel, esqueci de te contar uma novidade importante! Sabe quem vai ser o Fbio na novela? O Rodrigo Santoro! Morri, amiga! :-)

Era Sam, me contando que seu par romntico na televiso seria nada menos do que o Rodrigo Santoro. Respondi com vrias carinhas sorridentes e um recado curto, mas significativo Esquea o beijo tcnico, hahaha!.

Permaneci sentada e fiquei encolhida na cadeira, como quem carrega um letreiro piscante na testa: Estou quietinha, sou inocente. A tripulao iniciou os procedimentos de segurana e avisos para os passageiros. Quando o avio decolou, tive a certeza de que no o veria mais. Por que ele no me procurou? Ser que no leu minha carta ou no quis respond-la? O homem que eu amo no me deixaria ir embora sem falar comigo! S que eu j estou indo embora e ele no apareceu.

No aparelho de MP3, tocava Elvis Presley. And we cant build our dreams on suspicious minds. Lembrei do dia em que cantamos juntos a msica e repeti mentalmente a traduo: E ns no podemos construir nossos sonhos com mentes cheias de suspeitas.

Por que eu havia desconfiado que ele, justo o Tho, faria algo para destruir os meus sonhos se ele foi o responsvel por me incentivar a seguir com todos eles? Talvez eu nunca tivesse entrado dentro de um avio se ele no tivesse entrado na minha vida.

Mas aquilo no tinha a menor importncia. Porque mesmo que eu nunca viajasse para todos os lugares para os quais viajei e viajarei, se no tivssemos nos esbarrado naquele elevador, eu no saberia como  ser amada. E como  amar algum de verdade.

E hoje eu sei, porque seria capaz de sair agora desse avio se soubesse que ele estava l fora me esperando. Se ele tivesse respondido a carta que deixei embaixo da porta ou um dos meus recados, e-mails ou telefonemas, eu no me importaria de construir novos sonhos com ele. Eu sabia que ele ficaria feliz em me ver feliz.

Assim eram meus pais, e eu demorei 23 anos para perceber. Um apoia o outro, e essa  a maior felicidade de cada um: fazer o outro feliz.  um ciclo interminvel, porque quando fazemos o bem a algum, somos os maiores beneficiados por esse ato. Fazer feliz  ser feliz.

Recosto na poltrona e observo o movimento de algumas pessoas nos corredores. Uma comissria conversa com um homem de bigode, que mostra um papel. Ela balana a cabea negativamente e aponta para o sinal de cinto de segurana que est aceso. Ele no deveria estar em p, eu observo. O homem mexe no bigode (como algumas pessoas coam a cabea quando pensam) e continua olhando em volta. Ele est a vrias fileiras na minha frente quando puxa papo com uma moa linda de cabelos verdes, que aponta o dedo para trs depois de olhar para o papel.

O homem de bigode anda mais um pouco e eu acho que ele est vindo em minha direo, o que s pode ser uma iluso, claro. Cheguei com atraso no avio, causei transtorno e agora todos querem tirar satisfaes comigo? Ou ele me confundiu com algum, porque no  possvel passar por dois vexames em um mesmo dia. O homem, que vestia um colete azul-marinho e cala abaixo da barriga, mostrou o papel para mais uma pessoa. Dessa vez, a uma mulher elegante e de coque a quatro fileiras na minha frente, no corredor central. Eu estava no corredor direito.

Mas o homem se aproxima e sorri quando me v. A moa de cabelos verdes olha para trs, assim como a mulher de coque e a comissria. O senhor de culos larga o livro e at o rapaz tira os fones de ouvido para tentar entender o que est acontecendo. De repente, todos esto olhando para mim.

- Senhor, eu posso ajudar? - pergunto, com a testa franzida e um ponto de interrogao imaginrio na cabea, como nos desenhos animados.

- Voc  Melissa Moya? - questiona, mas olha para o papel e sorri.

- Depende... Voc vai fazer uma cobrana ou me dar um presente?

O senhor ajeita a barriga, d uma risada e responde:

- Acho que  mais para presente.

- Ento sou eu - dou um sorriso.

- Moa,  meio estranho, mas eu tenho uma carta para voc.

Uma carta? Quem  que escreve cartas hoje em dia, com telefone, celular e internet?, penso com desdm. Quer dizer, eu escrevo cartas. Eu escrevi uma carta...

Tiro o papel da mo do homem de bigode e l estou eu, olhando para a cmera enquanto Tho me d um beijo no rosto. A foto que tiramos antes de minha primeira viagem, a mesma que esteve na parede do meu quarto. O que a foto faz com esse homem?

Mas ele pareceu entender a pergunta que eu no cheguei a fazer e explicou.

- Eu estava na fila de embarque, l fora ainda, e esse moo da foto estava perguntando por voc, mostrando a fotografia. Ningum te viu. Eu s te vi agora, quando voc chegou atrasada no avio... - E me lembrei que cheguei atrasada! Por isso Theodoro no me encontrou l fora, porque eu estava procurando a minha mala ou devia estar esperando Michel chegar! - ... e ento ele perguntou se algum estava no voo para Roma, disse o nmero do voo e ali s eu estaria nesse avio. Pois bem - explica o homem enquanto mexe no bigode -, ele me pediu um favor, e eu fiquei bem desconfiado, moa. Mas a ele contou toda a histria de vocs e disse que voc  a mulher da vida dele. O moo parecia assim bem atordoado, sabe? Ele queria entrar de qualquer jeito, mas no deixaram, claro. Ento ele pegou a foto e perguntou se eu poderia te procurar no avio e te entregar essa carta, s isso. E queria me pagar de alguma forma, mas eu no ia aceitar, imagina, depois da histria que ele contou, n... - continuou o homem, que quase no parava para respirar. - A ele me disse que te entregaria duas caixas, mas eu poderia ficar com uma. Moa, desculpa, mas eu fiquei, porque os doces estavam muito bonitos, e minha filha est comigo, ela tem oito anos, a menina ficou doida com os doces e ele disse que era um presente, mas aqui est a outra caixa - e ele me entregou uma caixa, a foto e uma carta.

- Se quiser ficar com essa caixa tambm...

- No, moa, tudo bem, obrigado. Eu acho que voc vai gostar e o moo gostaria que voc recebesse.

- Senhor... Muito obrigada.

- De nada, moa. Mas depois voc me conta o que ele diz na carta? - o senhor de bigode pergunta e todos ao redor observam com ateno, provavelmente com a mesma curiosidade. A essa altura, depois de ouvir a histria, outras pessoas j me observavam, como se eu fosse uma atriz de novela ou artista de reality show.

Abro a caixa e l est uma carinha sorridente. Os olhos e o nariz feitos com um brigadeiro e todo o rosto preenchido por pequenos marshmallows, sendo o sorriso feito com os doces cor-de-rosa. Pego um deles e me lembro do dia em que conheci Tho. Abro a carta e quase posso ouvir sua voz.


Melissa,

No sei se vou te encontrar. Se voc ler esta carta depois que estivermos juntos, quero que leia at o final, porque no terei te contado tudo. Provavelmente terei consumido meu tempo te convencendo de que no sou um idiota e tentando roubar um beijo. Mas se eu no conseguir falar com voc antes da viagem, farei que a carta chegue s suas mos. No sei se vou te encontrar, mas no posso deixar de tentar. Cheguei hoje do Rio de Janeiro e h dias planejo como vou falar com voc. Mas parece que sua falta de memria  contagiosa, e somente depois que vi sua carta  que eu percebi que tinha pouco tempo.

Hoje entendo que voc s precisava de um carinho e de algum para segurar sua mo e dizer que tudo vai dar certo. No estou ao seu lado agora, mas tenho certeza de que tudo vai dar certo, Mel. Todos ns temos medos e so eles que nos movem, de alguma forma, a sermos pessoas melhores. Se fssemos corajosos em todos os momentos, no saberamos o que  a superao. Um dia voc vai entender que as histrias no precisam ser todas iguais. Ns temos a nossa prpria histria, e eu no mudaria nada nela. Apenas tudo de estpido o que eu fiz. Eu pediria mais desculpas, como peo agora.

Tenho liberdade, e com a minha liberdade eu escolho ficar com voc. Porque liberdade no  sair sem ter para onde ir, mas saber que h sempre para onde voltar. No  abrir mo, porque se trata de ganhar. Nunca te impediria de realizar seus sonhos, porque quero ser seu maior incentivador, assim como tenho certeza de que voc me apoia. Prometo participar do concurso, mas preciso que me ajude a escolher uma foto.

Quero estar ao seu lado para ver suas realizaes de perto e participar delas com as minhas fotos, se a senhorita jornalista permitir. Encontre-me no dia 10 de fevereiro s 10h na Piazza San Marco, em Veneza, se ainda quiser me ver. No vai ser difcil me achar, acredite em mim. Quero colocar muitas pedras ainda no seu pingente, mas quero poder lembrar que passamos por tudo juntos.

Eu amo voc.

Um beijo de marshmallow no seu nariz,

Theodoro.


P.S.: Peguei mais um cachorro e coloquei o nome de Elvis, em nossa homenagem. Estava na rua e o vi ser atropelado. No consegui ir embora e deix-lo ali, sozinho. Ele e Funk ficaro no apartamento do seu irmo, que ter um pequeno zoolgico com bichos nossos at voltarmos.


- Moa, voc est bem? - pergunta o homem de bigode.

- Precisa de ajuda? - continua o passageiro de culos.

- Se quiser, busco um copo de gua, dona - completa o garoto de bon.

- O que foi que ele fez? - questiona a moa de cabelos verdes.

- Calma, menina, calma! Ele aprontou,  isso? - tenta adivinhar a mulher de coque.

Quando levanto o rosto coberto por lgrimas, l esto todos ao meu redor, visivelmente preocupados. A comissria que tentou alertar o homem de bigode no parece mais brava e me traz um copo de gua com acar, que eu bebo, em parte por respeito e tambm porque preciso, j que estou tremendo e soluando.

O difcil  explicar que o choro  de alegria.

- Ele me ama! - resumo. E recebo em resposta um coro de ohs e ahs, com um que fofo.

Hoje entendo por que enquanto o homem planeja, Deus ri. De alegria. Porque sabe que aquilo que ir acontecer  muito melhor do que podemos imaginar.

Nos ltimos meses, viajei no somente por cidades diversas, mas por possibilidades. Descobri o que queria para a minha vida. Talvez tenha descoberto minha prpria vida sem querer. E foi ali, em cada chegada e partida, que aprendi que h sempre um caminho para os sonhos. Quase sempre  improvvel e todos os dias nos faz lembrar de que vale a pena.



Referncias Musicais


The Impossible Dream (1965)

Compositores: Joe Darion e Mitch Leigh

Intrprete: Elvis Presley


Todo o amor que houver nessa vida (1982)

Compositores: Agenor de Miranda Arajo Neto (Cazuza) e Roberto Frejat

Intrprete: Baro Vermelho


Suspicious Minds (1969)

Compositor: Mark James

Intrprete: Elvis Presley


Velha infncia (2002)

Compositores: Arnaldo Antunes, Antnio Carlos Santos de Freitas (Carlinhos Brown), Davi Moraes, Marisa de Azevedo Monte (Marisa Monte) e Pedro Baby

Intrpretes: Os Tribalistas


Beija Eu (1991)

Compositores: Arnaldo Antunes, Arthur Morgan Lindsay (Arto Lindsay) e Marisa de Azevedo Monte (Marisa Monte)

Intrprete: Marisa Monte


No v embora (2000)

Compositores: Arnaldo Antunes e Marisa de Azevedo Monte (Marisa Monte)

Intrprete: Marisa Monte


Beauty and The Beast (1991)

Compositores: Alan Menken, Howard Ashman e Tim Rice

Intrpretes: Celine Dion e Peabo Bryson



Agradecimentos


O meu agradecimento a todos os leitores e leitoras que alegram a minha vida. Obrigada pelos e-mails, recados nas redes sociais, cartinhas e por todo o amor que sinto quando nos encontramos em eventos. Vocs so muito importantes para mim!

Agradeo aos primeiros leitores do livro: Luciana Ferraz, minha amiga editora desde os 15 anos de idade, Enderson Rafael, Fernanda Baroni, Fernanda Fres, Lelei Oliveira, Rbia Padilha, Tamires Criscio e Rosi Pepce, que contriburam muito com sugestes para o livro e palavras de incentivo.

O meu agradecimento ao assessor Bruno Borges e s amigas Carolina De Nardi e Carolina Frana, por me apoiarem nas questes jurdicas. Agradeo, tambm, ao amigo Diego Raigorodsky por me tranquilizar quando precisei.

Gostaria de agradecer a Roberto Raimundo, Mayara Enohata e Juliana Sayo por acreditarem no livro e me receberem com tanto carinho. E a toda a equipe da Rai Editora, pelo trabalho e dedicao. Obrigada por tudo, pessoal!

Agradeo a Filipe Fonteles Cabral e Wilson Pinheiro Jabur por me ajudarem e serem atenciosos com tantas dvidas. Vocs foram muito importantes em cada trecho musical deste livro.

A todos das famlias Frana, Nicolodi e Giovanini, meus agradecimentos sinceros pelo encorajamento, divulgao e por me apoiarem na estrada literria. E a todos os amigos que disseram que tudo daria certo, obrigada!

Para a escritora Drica Pinotti, meu agradecimento pelas dicas, conversas e pelo apoio. Obrigada pela sua amizade e por acreditar neste livro.

Um agradecimento especial a Mauro Giovanini, por ser meu porto-seguro, meu amor e o primeiro a acreditar todos os dias.

Obrigada, Deus, pela sade. Pela sade.

